“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço
Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.
Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Ver com o coração

“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração” (Pascal, Pensamentos, artigo XXII)
“O coração tem razões que a própria razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas” (Pascal, Pensamentos, artigo XVI)
“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, cap. XVII)
Abra, concentre-se e sinta! O anúncio “The boy at the window”, da Thai Life Insurance, consegue comover um calhau. Ora, nós somos mais moles.
Dança da vida, triunfo da morte

Um compositor anónimo italiano do início do século XVII, possivelmente Stefano Landi, compôs a passacaglia magistralmente cantada pelo grupo Apollo’s Fire. Trata-se de “um estilo de composição musical baseada num tema, que é repetido constantemente no baixo, e em variações sobre esse tema na melodia principal”.

“Este gênero, que data do século XVI, é fascinante. Simples e direta, a passacaglia atinge o coração do ouvinte com a sua melodia repetitiva e precisa, como o mecanismo de um relógio. O texto representa um memento mori, apresentado com graciosidade, uma dança macabra (…), que nos convida a refletir profundamente sobre a nossa existência.
Imagem: Mestre de Adelaide de Savóia. História de Merlim, Poitiers, ca. 1450-1455
Pois na nossa dança diária da vida, a um dado momento importa entregar-nos a uma pausa de reflexão (…) para nos interrogar se aquilo que somos é aquilo que gostaríamos de ser. É neste momento, quando paramos para pensar, que um novo impulso vital costuma surgir. Indo do movimento para a quietude e depois novamente para o movimento, percebemos que temos um passado e, embora não tenhamos a certeza de ter um futuro, vivemos verdadeiramente no presente. A vida é uma dança para a qual todos somos convidados, sem máscaras nem fantasias. E enquanto durar, por este momento de eternidade, podemos perfeitamente dançá-la bem.” (La Passaglia della Vita ©Marco Beasley: https://www.marcobeasley.it/la-passacaglia-della-vita.html).
Anúncio português vintage 1: Crânio / capacete
“Crânio”, da Segurança Rodoviária, estreou há mais de 30 anos. Pretende sensibilizar, de um modo impactante, os motoristas para o uso [obrigatório] do capacete de proteção. [carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo]

Pietà colorida

Hoje, adquiri uma Pietà. Andava à procura de uma boa versão colorida há muito tempo.
Aliás, também estou a preparar há anos uma “aula poética” sobre as esculturas da Pietà desde inícios do século XIV até finais do seculo XV. O título principal será “Com o Filho no Colo”.
Acontecerá lá para outubro ou novembro, se entretanto não me estimar demasiado ignorante.
Os leilões online são um dos meus passatempos preferidos. Normalmente, sei o que pretendo e não descanso até encontrar a bom preço.

A proprietária teve a gentileza de me trazer a escultura a casa.
De pedra, com 40 cm de altura, é deveras pesada.
Conduzi a senhora, sempre com a escultura no seu colo, até à sala onde já estava um lugar vago reservado na lareira, um dos santuários domésticos.
Pedi-lhe para ser ela a colocá-la. Apaguei-me enquanto permaneceu um bom momento a contemplá-la como quem se despede:
“Sabe, já a tenho comigo há mais de 20 anos. Mas fica bem entregue!”
Anúncios de arrepiar
Brinquemos aos disparates!
Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.
Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal
Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.
O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.
Martirografia

Impressionou-me a aguarela “Os mártires da Líbia” (2018), da autoria de Nikola Saric, artista sérvio residente na Alemanha (ver Interview With Nikola Sarić). Foi concebida em memória dos 21 operários coptas assassinados pelo Daesh, na Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. À primeira vez, pensei estar perante uma imagem medieval. Ocorreu-me, então, a palavra “martirografia” para aludir à análise das imagens respeitantes a mártires e martírios.

Não encontrei a palavra “martirografia” nos dicionários de língua portuguesa que consultei. Mas, como de costume, acabo por “inventar a pólvora”. Um vício entranhado que me dá um certo gozo.
Outros já tiveram a mesma inspiração, muito embora em italiano. Por exemplo, Roberta Denaro no subtítulo da obra Dal martire allo sahid: Fonti, problemi e confronti per una martirografia islamica, publicada em 2007.
“Os mártires da Líbia”, de Nikola Saric, foi recentemente incluída na coleção do Petit Palais, de Paris. Esta aquisição justifica uma notícia circunstanciada pela Aleteia, redigida por Caroline Becker, que entendo colocar. Para aceder ao artigo correspondente, carregar no seguinte endereço: https://fr.aleteia.org/2019/09/27/une-icone-sur-le-martyre-des-21-coptes-accrochee-au-petit-palais/. Acrescento a tradução simultânea do texto.
| “ O Petit Palais acaba de fazer uma aquisição verdadeiramente emocionante. O museu parisiense adquiriu uma enorme aquarela contemporânea pintada em memória dos 21 trabalhadores coptas assassinados pelo Daesh na praia de Sirte, Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. Uma tragédia que muitos não esqueceram, incluindo o pintor Nikola Saric, autor desta obra inspirada na iconografia bizantina. Na parte superior, Cristo é cercado por uma suave luz rosa. Sua figura entronizada e hierática é contrabalançada pela bondade de seu rosto. Num gesto paternal, seus braços se estendem e abraçam seus filhos, os 21 mártires cristãos egípcios brutalmente assassinados pelo Daesh em 2015 em uma praia da Líbia. Um drama filmado, visto por milhões de internautas, que ninguém esqueceu. Nikola Saric, o artista cristão sérvio por trás desta obra, também não se esqueceu. Ansioso por transcender esse martírio coletivo, ele escolheu a pintura como válvula de escape. O resultado é um ícone fortemente inspirado na iconografia tradicional bizantina. Composta a partir do vídeo da execução, a obra sintetiza os diferentes elementos da encenação: os 21 reféns, alinhados de joelhos, vestem macacões laranja. Os carrascos, atrás deles, formam outra fila e estão escondidos sob trajes pretos com capuz. Eles seguram os condenados no chão, com facas na mão. O artista optou por incluir a figura de Cristo para recordar o sacrifício dos coptas que se recusaram a renunciar à sua fé. A sua presença realça, assim, que não se trata de uma simples execução, mas sim de um martírio. Cristo também está, simbolicamente, vestido com a mesma cor laranja. Uma iconografia que lembra o ícone dos Quarenta Mártires de Sebaste , um ícone do século XV que narra o martírio de 40 soldados cristãos durante o reinado do imperador romano Licínio, em 320. Outro martírio coletivo testemunhado por Cristo e do qual Nikola Saric se inspirou para criar o seu ícone. Com esta obra contemporânea, o artista sérvio coloca-se imediatamente na linhagem dos ícones hagiográficos. Com esta aquisição, o museu parisiense completa sua já impressionante coleção de ícones. No entanto, esta é a primeira vez que adquire um ícone contemporâneo, marcando uma virada na história de suas coleções. Com esta obra original, a instituição testemunha eventos recentes da história e revela o nascimento do culto aos santos contemporâneos. Os 21 coptas já estão, de fato, listados no Synaxarium , o equivalente ao Martirológio Romano para a Igreja Copta, o que significa que já estão canonizados.” |
| (Caroline Becker, ” Um ícone do martírio dos 21 coptas pendurado no Petit Palais”. Aleteia, publicado em 27/09/2019) |

Jogar às cartas com o Diabo 3. E a vida sorri! Rejuvenescimento tardio

O alívio não basta! Não move moinhos. Importa restaurar. Inverter, na medida do possível, o prolongado envelhecimento precoce. Arregaçar a vontade e pôr a alma a pedalar. Os artigos Reincidência (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021) expressam este sonho de rejuvenescimento tardio.
No mesmo dia, 15 de julho de 2021, os astros sintonizaram-se numa constelação estelar ímpar. Apareceram anjos em dois hospitais. Em Braga, a neurologista Margarida Rodrigues desmascarou o Mal, abrindo, a porta à cura; em Antuérpia, nasceu a neta Sara, um passarinho acabado de sair do ovo. Uma deu vida, a outra fôlego. Ambas as graças merecem um cântico de natividade especial: “Sã qui turo zente pleta” (Sara, 05.08.2021). Estou a incorrer em pensamento mágico? Certamente, mas a fé e a magia são performativas. Não movem só moinhos, mas até montanhas. Assim iniciou uma nova maratona. Com os restos do corpo que sobraram….
Seguem os artigos Sara (05.08.2021), Reincidência. O híbrido e o ciclista (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021).
Sara
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo (Miguel Torga).

E a vida sorri! A Sara nasceu no dia 15 de Julho de 2021.
Reincidência. O híbrido e o ciclista

Sem descurar a pedalada belga, holandesa e chinesa, a França é, em termos míticos, o país do ciclismo. Retenha-se, por exemplo, o filme As Bicicletas de Belleville (ver anexo 2) ou o álbum Tour de France, dos Kraftwerk (anexo 3). O protagonista do anúncio Unstoppable, da Renault, é um veterano ciclista que regressa à estrada. Barroco, o argumento não é original (anexo 1). Um sucedâneo da lenda da fonte da juventude, neste caso, a prenda.. Empolgante, o anúncio é extenso, sinuoso, invertido e retorcido. Ironicamente, vejo e revejo este anúncio sentado numa cadeira de rodas.
Anexo 1: Anúncio Dream Rangers.
Anexo 2: Trailer do filme Les Triplettes de Belleville.
Anexo 3: Tour de France, dos Kraftwerk.
Aleijados
Oscilamos entre o gesto da compaixão, que sofre com o outro, e o olhar à distância que se deleita com ao espetáculo da miséria do mundo (inspirado em Hannah Arendt e Luc Boltanski).

Acorda devagar! Humano. Não te importes de perder tempo. Ganhas seiva e vida! O anúncio tailandês Beautiful Run é magnífico. Um épico do sofrimento e da solidariedade. Excessivo, lento e repetitivo. Diria, “maneirista”. Uma jovem inválida participa numa maratona para curar o pai. Não há maior competição do que aquela que mobiliza as pernas da alma.
A minha escrita foi-se tornando minimalista. Com a recente abstinência forçada, o vício agravou-se. Não escrevo textos. Escrevo esqueletos de palavras.
Imortalidade funerária
Como se desenvencilham as agências funerárias para fazer publicidade? De muitas formas. Tenho especialmente gravado na memória o anúncio deveras criativo da Funerária Funalcoitão de Alcabideche do Município de Cascais (ver O Prazer dos Mortos).

A campanha recente da empresa J. García López, do México, terra da Santa Muerte, é um caso. Seguem três anúncios da série “Volvámonos inmortales”, a que acrescento dois mais antigos: “Sigues aquí: nuestro gran Homenaje®️ a la vida” (2024), com recurso à IA, e “Lo que quiero hacer antes de morir” (2012).

