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Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)

Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.

Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.

Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré

Anunciante: Croque la vie. Título: La campagne de m*rde. Agência: Productman. França, maio 2025
Anunciante: Les Petits Culottés. Título: Le Studio. Agência: Customer Service. França, maio 2025
Anunciante: Andrex. Título: Conquer the First School Poo. Agência: FCB Inferno/London. Direção: Andreas Nilsson. Reino Unido, maio 2025

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1 PARTE do Limpa Cu em “Gârgantua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado: 15/11/2021
2 PARTE do Limpa cu em “Gargântua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado em 15/11/2021

As almas têm ossos?

Ideiafix

Tendemos a adotar uma relação complicada com o interior do corpo, incluindo os ossos. Temos. aliás, propensão a “ter um certo respeito” por quase tudo que é interioridade, com o corpo (e, por extensão, a terra) a assumir-se como uma espécie de matriz simbólica.

Regra geral, o que está sob a pele ou se exterioriza constrange: órgãos, nervos, cartilagens, ossos, carne, tumores, calos, verrugas, acne, borbulhas, sangue, pus, urina, fezes, transpiração, bafo, hálito, flatulência, rugidos gástricos, arroto, ronco…

Denegamos, combatemos e disfarçamos os conteúdos e as manifestações desta natureza invisível, mas congénita, procurando preservá-la secreta ou, pelo menos, discreta. Sabemo-lo, a Chichen Licken, também!

Marca: Chicken Licken. Título: Boneless Bites of Soul. Agência: Joe Public Johannesburg. Direção: Adam Weber. República da África do Sul, fevereiro 2025

Os pés

René Magritte. Le Modèle Rouge. 1935

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)

Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021

Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025

Humor belga

“O surrealismo está profundamente enraizado na cultura belga, e isso transparece no humor, que frequentemente brinca com o absurdo, o ilógico e o inesperado (…) Os belgas costumam rir de si mesmos, seja em relação à sua identidade nacional, seus hábitos, sotaques ou rivalidades linguísticas (entre flamengos e valões). (…) O humor belga não evita temas sombrios.

São bastante comuns piadas envolvendo morte, tragédia ou situações desconfortáveis, mas tratadas de uma forma leve ou irónica. (…) Grande parte do humor belga (…) tem uma forte dimensão visual e foge muitas vezes da lógica convencional (…) Introduz críticas à sociedade, à política ou a instituições sob o disfarce de uma capa de absurdo ou de comédia leve.” (ChatGPT, consultado 29.04.2025).

Em termos de banda desenhada belga, recomendo dois autores: Franquin, criador do Gaston Lagaffe, e Greg, do Achille Talon. Prefiro ao consagrado Hergé, do Tintim.

A seguinte meia dúzia de anúncios recorda o dito humor belga. Os anúncios podem não ser belgas, são quase todos britânicos, mas a cerveja Stella Artois teve origem em Lovaina, ainda em plena Idade Média. Talvez subsistam algumas raízes de inspiração.

Stella Artois – Quest. Agência: Rattling Stick (London). Produção: Mother. Reino Unido, 2011
Stella Artois – Respect. Agência: Mother. Direção: Patrick Daughters. Reino Unido, 2011
Stella Artois – Masterpiece. Agência: Lowe Roche (Toronto). Direção: Matthijs Van Heijningen. Canadá, 2006
Stella Artois – Ice Skating Priests. Agência: Lowe (London). Direção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 2006
Stella Artois – The Plague. Agência: Lowe. Direção: Ivan Zacharias. Reino Unido, 2002
Stella Artois – Monet. Agência: Lowe. Direção: Michael Seresin. Reino Unido, 1991

Higiene digital

“The real danger is not that computers will begin to think like men, but that men will begin to think like computers” / O verdadeiro perigo não é que os computadores venham a pensar como os homens, mas que os homens comecem a pensar como computadores” (pensamento atribuído ao jornalista Sydney Harris).

A revolução informática tem limites? Talvez…

Imagem: Computer man, by GigachadUndertaleFan. DeviantArt

Marca: Emma. Título: Le Trèfle. Agência: Leo Burnett Paris. Direção: Bart Timmer. França, 2013

Dançar à chuva

A vida não é esperar que a tempestade passe, mas aprender a dançar à chuva (Séneca)

Estou a preparar uma conversa. Custa! Afortunadamente, resulta tarefa rara. Depois de abraçar a ignorância, foco-me, agora, na organização da comunicação propriamente dita. Tento, sobretudo, abreviá-la e simplificá-la. Esta transição alivia-me. Abre-me, por exemplo, a porta à alegria e energia da cantora francesa Zaz. Seguem três canções que dão vontade de dançar com as fadas à chuva.

Zaz – Je veux. Single, 2008. Álbum: Zaz, 2010
Zaz – La fée. Zaz, 2010. live session at the Songkick Paris offices, 2019
Zaz – Imagine. Isa, 2021

Cola Transcendente. Humor Tailandês

Estou mergulhado numa fase de aprendizagem. Comunicar, fica para mais tarde. Para já, um adeus aos refrigerantes, incluindo a coca-cola. Infusões, por favor e sem excessos. Resiste, contudo, um prazer: o consumo de disparates. Seguem três, com borbulhas.

Marca: RC Cola. Band. Tailândia, 2020
Marca: RC Cola. Family. Tailândia, 2020
Marca: RC Cola. Himala (Milagre). Tailândia, 2024

Prenda do Dia do Pai. Um anúncio japonês

No Dia do Pai, recibi uma prenda que não podia ser mais acertada: um anúncio japonês comentado.

“Numa ambiciosa campanha publicitária, o McDonald’s Japão uniu forças com três gigantes do J-Pop: as cantoras Ado e Hoshimachi Suisei e a dupla YOASOBI. O resultado é um videoclipe vibrante que combina as músicas Yoru No Pierrot, Into The Night e BIBBIDIBA, com uma animação original para criar uma harmonia explosiva.

O vídeo descreve a jornada de três personagens que, inspiradas por um concerto ao vivo, embarcam no mundo da música. Depois de vários altos e baixos, o clímax ocorre num palco vazio, o pesadelo de qualquer artista. No entanto, descobre-se que o McDonald’s, simbolizado pelas suas batatas fritas icônicas, acompanhou e partilhou os momentos da banda nas redes sociais. A genuinidade dessa jornada conquistou milhares de fãs. Embora não haja uma plateia física, todos estão unidos, assistindo à performance online.

Entre as reações do público, a animação inclui representações das próprias Hoshimachi Suisei, Ado e YOASOBI. A narrativa reflete a trajetória de Ado e Suisei, cujos rostos são desconhecidos pelo público e cujas carreiras foram exclusivamente impulsionadas por plataformas digitais, até atingirem o sucesso global. A campanha sublinha como a presença online se tornou um pilar essencial para o sucesso na indústria musical contemporânea, onde a conexão digital frequentemente substitui a interação física.” (Fernando Gonçalves).

Ado×YOASOBI×星街すいせい×ティロリ♪音/マクドナルド、青春を応援するMV Mcdonald 合作mv. Colocado em 18 de março de 2025
Hoshimachi Suisei
YOASOBI
ADO

Nova arte pós-moderna

fahrenheit DDB Lima. Perú

A bricolagem caseira improvisada pode estar na origem de uma nova forma, imprevisível e efémera, de arte pós-moderna, eventualmente herdeira de um cruzamento de Magritte com Escher.

Marca: Promart. Título: Postmodern Homelistic Art. Agência: Fahrenheit DDB Lima. Perú. Seleção Cannes Lions 2015

A criatividade não costuma ser um ato isolado. Quando deparo com algo que me surpreende, disponho-me a procurar mais, a desfiar o novelo. No que respeita à publicidade, sigo normalmente três fios: a marca, a agência e o diretor. Desta vez, começo a busca pelo próprio Tendências do Imaginário. Conta 4 314 artigos (posts) que contemplam muitas centenas de anúncios, por acréscimo filtrados pelo meu radar e pelo meu sistema de relevâncias. Convenha-se que este blogue, ativo desde 2011, se tornou um arquivo apreciável.

Descobri cinco anúncios criados pela agência Fahrenheit DDB Lima, entre os quais este Postmodern Homelistic Art. Três para marca Promart. Em suma, graças a uma memória preguiçosa, constato que não me surpreende apenas o novo mas também o repetido, aliás já retido.

Os demais quatro anúncios, apostados na ironia e na provocação, manifestam-se primorosamente concebidos e apresentados. Recomendo a visualização. Segue a indicação do título, da marca, do ano e do artigo/link em que está acessível.