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Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas

O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.

Marca: Le Gaulois. Título: French Cancan. Agência: Leo Burnett (Paris). França, 2007

No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Chicken – Magic Body Control. Agência: Jung Von Matt/Neckar Stuttgart. Direção: Daniel Warwick. Alemanha, 2014

Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.

Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…

Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.

O cúmulo e o disparate

Quando o cúmulo e o disparate se juntam o efeito consegue ser mais convincente? A Renault e Xavier  Mairesse parecem acreditar. Carregar na imagem seguinte para aceder ao anúncio.

Marca: Renault Coleos. Título: Himalaya. Agência: Publicis Conseil. Direção: Xavier Mairesse. França, 2008

Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.

Anunciante: Noémi. Título: Les yeux d’un enfant. Agência: Leo Burnett. Direção: Thomas Rhazi. França, 2014

Imaginação pura

A Renault faz questão de promover o lançamento de novas gamas com anúncios joviais frutos da mais requintada imaginação.

Renault Austral. Imagination. 2023
Marca: Renault Austral. Título: Imagination. Agência: Publicis Conseil. Direção: Sebastian Strasser. França, 2023
Superhuman feat. Quigley – Pure Imagination. Pure Imagination. 2018. Cover

R5volution

Há muito que não me surpreendia um novo anúncio do Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade predileto. Um artista total, com cerca de 40 anúncios no Tendências do Imaginário. Domina a arte de fazer e a arte de criar, em particular ao nível do intertextual e do subliminar. Nem a icónica baguette falta! Quanto ao resto, em equipa que ganha não se mexe: agência Publicis Conseil e produtora Quad.

Marca: Renault 5 E-Tech. Título: La R5volution. Agência: Publicis Conseil. Produção: Quad. Direção: Bruno Aveillan. França, 29 setembro 2024

Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos

Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.

Marca: Alibaba Cloud. Título: Honor History, Create History. Agência: The Nine Shanghai. Direção: Jody Xiong. China, Agosto 2024
Marca: Skoda. Título: Statues. Produção: Mac Guff Paris. China, 2006

Diga-o com robots!

Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.

Anunciante: War Child. Título: Escape Robot. Produção: Raw London. Direção: Thomas Martin. Reino Unido, janeiro 2018
Marca: Oxford. Título: Cool Robot – Never Give Up. Agência: gyro:paris. Direção: Drake Doremus. França, agosto 2016
Anunciante: Cinemark & Hoyts. Título: Robot. Agência: Geometry. Direção: CLAN. Argentina, 2019
Marca: Carl’s Jr. Título: Robot. Agência: David&Goliath (Los Angeles). Direção: Rocky Morton. Estados Unidos, 2011
Marca: Hamlet. Título: Robots. Agência: Cdp. Reino Unido, 1977

Pulsões obscuras

Amanhã, sábado, vou esturricar a Melgaço para o cortejo histórico. Acabo de escrever alguns textos para a apresentação dos episódios. Entretanto, apetece-me descarrilar.

Conhece os Noir Désir? Únicos, talentosos e ousados, trouxeram uma lufada de ar fresco e turbulento ao rock francês dos anos noventa.

Os mercados e os circuitos em vigor desenham mapas mentais que deformam as geografias da cultura, da arte e da música. Este fenómeno não assenta apenas em efeitos do tipo “loura de Calais” ou “carneiro de Panurgo”. Bebe também na modorra que se acomoda à vulgaridade. Sair deste aconchego, expor-se ao estranho, não é fácil. Mas até os ídolos mais acondicionados correm o risco de empanturrar qualquer Pantagruel ou Sancho Pança.

Pois desviemo-nos das rotas batidas até perder o pé, como Alice. Partilhar as músicas dos Noir Désir não é pouca coisa.

Como diria um amigo, são muito conhecidos na sua terra. Não me acode nenhuma canção francesa que tenha sido tão retomada por outros intérpretes como “Le vent nous portera” (2001). A banda, criada em Bordéus no início dos anos oitenta, arrastou-se até 2010, tendo quase desaparecido de circulação a partir de 2003.

Para este artigo, pesquisei um pouco mais a história da banda. Fiquei desconcertado.

Bertrant Cantat, fundador, compositor, vocalista, guitarra e harmónica, é uma figura complicada: controversa, excessiva, temperamental e instável. Numa palavra, dionisíaca. Por abusar da voz, teve que ser operado às cordas vocais e suspendeu a atividade durante um ano. Pelo seu perfil, na vida e no palco, alguns jornalistas compararam-no a Jim Morrison.

Na noite de 26 para 27 de julho, no quarto do hotel em Vilnius, na Lituânia, agrediu de tal forma a sua companheira, Marie Trintignant, filha do célebre ator Jean-Louis Trintignant, que esta acabaria por falecer no primeiro de agosto. Bertrant Cantat é condenado a oito anos de prisão efetiva. Há quem sustente que este não foi o último caso de violência. Cumprida a sentença, prossegue uma carreira literária e musical interessante.

As portas voltaram a fechar-se, abrupta e tragicamente, a uma banda rock no seu auge. Como diria Vilfredo Pareto, pode ser-se bom músico, bom poeta, bom artista, bom cientista ou bom político e má pessoa ou má companhia.

Seguem cinco canções para ouvir na praia, na montanha ou noutro recanto qualquer, de preferência com auscultadores e sem curto-circuitos.

Noir Désir – A l’envers a l’endroit. Des visages des figures. 2001
Noir Désir – Des armes. Des visages des figures. 2001
Noir Désir – Le vent nous portera. Des visages des figures. 2001. Live, Evry 2002
Noir Désir – Tostaky. Tostaky. 1992. Live at Evry 2002
Noir Désir – Lazy. 666.667 Club. 1996. Live officiel Les Vieilles Charrues 2001

Declarações de amor pré-fabricadas

E viver sem amar não é realmente viver (Molière, La Princesse d’Élide, 1664).

Se quer arrastar a asa, mas, por qualquer motivo, prescinde da comunicação verbal ou gestual, diga-o não com flores, mas com letras. Existem declarações prontas a usar num minimercado perto de si. Haja desejo e inspiração! O anúncio “Lait drôle la vie”, do Monoprix, é lento como um caracol, mas ternurento como um coelho.

Imagem: Breviary of Renaud de Bar, Metz, 1302-1303. British Library

Acode-me a canção “Tu m’écris”, de Isabelle Mayereau, cuja letra parece um misto que sucede a Jacques Prévert e precede Mia Couto.

Marca: Monoprix. Título: Lait drôle la vie. Agência: Rosapark. Direção: Thirty Two. França, 2017
Isabelle Mayereau – Tu m’écris. Isabelle Mayereau, 1978. Ao Vivo. INA. 1979

Já faltou mais!

Má sorte a daqueles que lhes censuram o nome! Velhos não são os trapos, velhos somos nós! Como as crianças são crianças, os jovens, jovens e os adultos, adultos. Cada qual com a sua dignidade e distinção. De eufemismo em eufemismo, a sociedade disfarça realidades e coteja fantasmas.

Rembrandt, Bust of an Old Bearded Man, Looking Down,1631

Segue uma mão, aprazivelmente enrugada, de canções vintage francesas ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.Todas com letras notáveis. Cantar a velhice faz bem aos pulmões, ao coração e à cabeça. Uma maneira, como qualquer outra, de partilhar e agradecer. Obrigado!

Herbert-Félix Thiéfaine – La ruelle des morts. Suppléments de mensonge. 2011
Bénabar – La Coquette. Les risque du métier. 2003
Zas – Si je perds. Recto verso. 2013
George Brassens – Marquise. Les Trompettes de la renommée. 1962. No programa “Cinq colonnes à la une”, da RTF, do7 de dezembro de 1962.
Georges Moustaki – La vieillesse. Ballades en Ballade: Racines et Errances. 1975