Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas
O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.
No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.
Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.
Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…
Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.
Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.
Imaginação pura
A Renault faz questão de promover o lançamento de novas gamas com anúncios joviais frutos da mais requintada imaginação.

R5volution

Há muito que não me surpreendia um novo anúncio do Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade predileto. Um artista total, com cerca de 40 anúncios no Tendências do Imaginário. Domina a arte de fazer e a arte de criar, em particular ao nível do intertextual e do subliminar. Nem a icónica baguette falta! Quanto ao resto, em equipa que ganha não se mexe: agência Publicis Conseil e produtora Quad.
Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos
Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.
Diga-o com robots!
Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.
Pulsões obscuras
Amanhã, sábado, vou esturricar a Melgaço para o cortejo histórico. Acabo de escrever alguns textos para a apresentação dos episódios. Entretanto, apetece-me descarrilar.
Conhece os Noir Désir? Únicos, talentosos e ousados, trouxeram uma lufada de ar fresco e turbulento ao rock francês dos anos noventa.
Os mercados e os circuitos em vigor desenham mapas mentais que deformam as geografias da cultura, da arte e da música. Este fenómeno não assenta apenas em efeitos do tipo “loura de Calais” ou “carneiro de Panurgo”. Bebe também na modorra que se acomoda à vulgaridade. Sair deste aconchego, expor-se ao estranho, não é fácil. Mas até os ídolos mais acondicionados correm o risco de empanturrar qualquer Pantagruel ou Sancho Pança.
Pois desviemo-nos das rotas batidas até perder o pé, como Alice. Partilhar as músicas dos Noir Désir não é pouca coisa.
Como diria um amigo, são muito conhecidos na sua terra. Não me acode nenhuma canção francesa que tenha sido tão retomada por outros intérpretes como “Le vent nous portera” (2001). A banda, criada em Bordéus no início dos anos oitenta, arrastou-se até 2010, tendo quase desaparecido de circulação a partir de 2003.
Para este artigo, pesquisei um pouco mais a história da banda. Fiquei desconcertado.
Bertrant Cantat, fundador, compositor, vocalista, guitarra e harmónica, é uma figura complicada: controversa, excessiva, temperamental e instável. Numa palavra, dionisíaca. Por abusar da voz, teve que ser operado às cordas vocais e suspendeu a atividade durante um ano. Pelo seu perfil, na vida e no palco, alguns jornalistas compararam-no a Jim Morrison.
Na noite de 26 para 27 de julho, no quarto do hotel em Vilnius, na Lituânia, agrediu de tal forma a sua companheira, Marie Trintignant, filha do célebre ator Jean-Louis Trintignant, que esta acabaria por falecer no primeiro de agosto. Bertrant Cantat é condenado a oito anos de prisão efetiva. Há quem sustente que este não foi o último caso de violência. Cumprida a sentença, prossegue uma carreira literária e musical interessante.
As portas voltaram a fechar-se, abrupta e tragicamente, a uma banda rock no seu auge. Como diria Vilfredo Pareto, pode ser-se bom músico, bom poeta, bom artista, bom cientista ou bom político e má pessoa ou má companhia.
Seguem cinco canções para ouvir na praia, na montanha ou noutro recanto qualquer, de preferência com auscultadores e sem curto-circuitos.
Declarações de amor pré-fabricadas
E viver sem amar não é realmente viver (Molière, La Princesse d’Élide, 1664).

Se quer arrastar a asa, mas, por qualquer motivo, prescinde da comunicação verbal ou gestual, diga-o não com flores, mas com letras. Existem declarações prontas a usar num minimercado perto de si. Haja desejo e inspiração! O anúncio “Lait drôle la vie”, do Monoprix, é lento como um caracol, mas ternurento como um coelho.
Imagem: Breviary of Renaud de Bar, Metz, 1302-1303. British Library
Acode-me a canção “Tu m’écris”, de Isabelle Mayereau, cuja letra parece um misto que sucede a Jacques Prévert e precede Mia Couto.


