Desaparafusado

Se por te beijar tivesse que ir depois para o inferno, eu faria isso. Assim poderei me gabar aos demónios de ter estado no paraíso sem nunca entrar (atribuído a William Shakespeare).

Por que resulta tão raro encontrar imagens do Paraíso que me atraiam irresistivelmente? Que me entusiasmem ao ponto de desejar ir passar lá umas férias. Será assim tão complicado representar o cenário da nossa maior aspiração: a beatitude, a felicidade eterna e suprema? Devo ter falta de parafusos ou uma entorse nas dobradiças.
Imagem: Giovanni di Paolo. Paraíso. 1445. The MET
A Alma das Flores Secas
Dans mon jardin secret
Dans mon imaginaire
La vie est plus légère
On fait ce qu’il nous plaît
Tudo me lembra alguma coisa. As memórias, como flores secas no livro da vida, aguardam uma gota, eventualmente um esboço de lágrima, que lhes proporcione seiva. Tudo me lembra alguma coisa, não porque tenha uma biografia recheada. Rodeado mais por imagens do que por demónios, aproximo-me de um eremita que pasma solenemente e se expõe cada vez menos, despojando-se de atavios e venturas que lega aos insaciáveis. Mas existiram, mesmo assim, picos, momentos marcantes.
Pianista, compositora e cantora, Nara Noïan nasceu na Arménia e fez carreira em França. À semelhança de outras celebridades, como o também “arménio” Charles Aznavour, o “argelino” Enrico Macias ou o “grego” Georges Moustaki, entrega-se à “canção francesa” (e.g. “Dans mon jardin secret”) sem esquecer as raízes (e.g. “Mon Arménie”).
Mas a música que pretendo relevar é, sobretudo por causa do título, “Doucha – Soul”.
Entre 1976 e 1982, estudei em Paris. Trabalhava, a tempo parcial, às sextas, sábados e durante as férias, num banco português. Amealhava o suficiente para escapadas mais ou menos longas. Só, bagagem ligeira, com roteiros e agendas flexíveis, explorava novas terras e gentes. O tempo dedicado a cada destino dependia do prazer da estadia.
Naquele tempo, se me perguntassem para que viera ao mundo, a resposta seria “para dar e receber amor”, mais prosaicamente, para namoriscar. Nem para estudar, nem para trabalhar, nem para viajar, nem sequer para defender a Pátria. Um impenitente colecionador de afrodites.
O que me atraía num lugar não eram tanto os monumentos, as paisagens e os lazeres, mas as pessoas, especialmente as mulheres.
Com 18 anos, parti em agosto rumo à Itália e à Jugoslávia e regressei no final de outubro. Atardei-me duas semanas em Veneza graças a uma jovem professora de biologia, uma semana na ilha de Hvar com uma turista francesa e mais de uma semana em Tuzla por artes de uma estudante de medicina.
Tuzla foi uma experiência única. À meia-noite, bati, sem aviso prévio, à porta de um colega do curso de Sociologia. No dia seguinte, parecia que toda a gente me conhecia. Nos cafés, ao pagar a conta, já estava paga por algum curioso que desejava satisfazer a curiosidade. Fui, inclusivamente, convidado para dar uma palestra sobre o 25 de Abril, em francês, numa universidade local.
A interação com Snježana (em bósnio: branca como a neve) era sui generis. A comunicação resultava difícil: falava sobretudo alemão, que eu não dominava [embora tenha frequentado um curso no edifício da Universidade de Filosofia, mas o que me movia não era a aprendizagem da língua; retive apenas algumas expressões de utilidade indiscutível tais como “Du bist sehr schön [ou hübsche]” (Tu és muito bonita). Em suma, a salvação era a linguagem gestual.
Garantira-lhe que permaneceria em Tuzla o tempo que me aprouvesse. Quando anunciei o regresso a Paris, não parava de dizer “laž” [láj], mentira. Retorquia, contristado, “nema laž” (nenhuma mentira). As aulas tinham iniciado havia três semanas e estava a ficar sem dinheiro…
Snježana costumava chamar-me “dusha”, palavra, essa sim, que me intrigava. O amigo hospedeiro acabou por me esclarecer: alma, coração, ente querido. Como o título da música de Nara Noïan! Tudo me lembra alguma coisa. Até uma simples palavra de outros mundos.
O colecionador de namoricos resume-se agora a um (re)contador de estórias. Resgatar folhas secas para colorir um jardim que nem sequer cuida de (p)reservar.

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)
Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.
Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.
Face a Face. Entrevista a Michel Maffesoli
Infeliz aquele que não tem mestre.
Os mestres são aqueles que nos mostram o que é possível no domínio do impossível
(Paul Valery).
Michel Maffesoli foi meu professor em 1981, o primeiro ano que deu aulas na Sorbonne e o meu último como aluno.
A Música, o Museu e a Escada de Jacob

M&M. Música e Museu. Magnífico e memorável! Birds On a Wire e Louvre. Mais aqueles que contribuíram para esta obra prima. Beleza destilada em todos os sentidos. Um regalo para a vista e para os ouvidos, que apetece saborear, tocar e cheirar. São 80 minutos de encantamento. Se, agora, não dispuser de tempo, guarde para depois, mas não perca.
Imagem: Nicolas Dipre. Le songe de Jacob. c.1500
Mesmo se, à partida, os conteúdos não o entusiasmem, insista, corra o risco de ficar seduzido. Quem gosta do que não gostava galga uns degraus na escada de Jacob.

Formado em 2012, Birds On a Wire é um duo musical composto pela violoncelista brasileira Dom La Nena e pela cantora franco-americana Rosemary Standley. O vídeo da arte.tv Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire , realizado por Jeremiah, oferece “um encontro raro entre música, pintura e escultura em alguns dos espaços mais emblemáticos do Louvre”.
Imagem: A Escada da Ascenção Divina . Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai. Séc. XIII
Segue Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire, concerto itinerante filmado no museu do Louvre nos dias 13 e 14 de maio de 2024. Acrescento, para os mais apressados, duas canções em português: La Marelle (Amarelinha) e Cálice.
Sem deus nem soberano

Com os anos, vêm rugas, taras e entorses. Prefiro os promotores (de preferência, discretos) aos defensores (em particular, ostensivos) de causas e direitos. Hipermediatizados, em todo o lado e nenhum, cativa-nos a empatia remota, e a solidariedade retórica. Dedicada a Louis Blanqui, a canção Ni dieu ni maître, de Léo Ferré, ilustra tangencialmente estas impertinentes impressões. Seguem as versões de 1965 e 1973.
| Ni dieu ni maître Léo Ferré | Nem deus nem mestre Léo Ferré |
| La cigarette sans cravate Qu’on fume à l’aube démocrate Et le remords des cous-de-jatte Avec la peur qui tend la patte Le ministère de ce prêtre Et la pitié à la fenêtre Et le client qui n’a peut-être Ni dieu ni maître Le fardeau blême qu’on emballe Comme un paquet vers les étoiles Qui tombent froides sur la dalle Et cette rose sans pétales Cet avocat à la serviette Cette aube qui met la voilette Pour des larmes qui n’ont peut-être Ni dieu ni maître Ces bois que l’on dit de justice Et qui poussent dans les supplices Et pour meubler le sacrifice Avec le sapin de service Cette procédure qui guette Ceux que la société rejette Sous prétexte qu’ils n’ont peut-être Ni dieu ni maître Cette parole d’Évangile Qui fait plier les imbéciles Et qui met dans l’horreur civile De la noblesse et puis du style Ce cri qui n’a pas la rosette Cette parole de prophète Je la revendique et vous souhaite Ni dieu ni maître Ni dieu ni maître (Pas vrai, mec?) | O cigarro sem gravata Que se fuma na alvorada democrata E o remorso dos amputados Com o medo a estender a pata O ministério do padre E a piedade na janela E o cliente que talvez não tenha Nem deus, nem mestre O fardo pálido que é embrulhado Como um pacote para as estrelas Que caem frias sobre a laje E esta rosa sem pétalas Este advogado com pasta Essa alvorada que coloca o véu Por lágrimas que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Estes bosques ditos de justiça E que crescem nos suplícios E para mobilar o sacrifício Com o pinheiro de plantão Este procedimento que espreita Aqueles que a sociedade rejeita Pretextando que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Esta a palavra de Evangelho Que consegue dobrar os imbecis E que infunde no horror civil Nobreza e, também, estilo Este grito que não tem roseta Esta palavra de profeta Reivindico-a e desejo-vos Nem deus, nem mestre Nem deus, nem mestre (Não é verdade, pá?) |
O carnaval dos animais

Ando obcecado com a escrita de um artigo intitulado “A espada, a cruz e o cálice”. Apeteceu-me desligar, dedicar todos os sentidos à música. Divertida, como o Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns. “O compositor não permitiu que a obra fosse publicada em vida, pois temia que ela arruinasse sua reputação de ‘compositor sério’ (…) a obra foi publicada apenas após a sua morte (com exceção do movimento O Cisne que por ter caráter mais sério foi publicado ainda em vida” (Wikipedia).
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Nouvelle Vague em Guimarães

Nouvelle Vague é um grupo parisiense fundado por Marc Collin et Olivier Libaux. Ativo desde 2003, convida várias vozes, sobretudo femininas. Celebrizou-se pelas suas versões deveras peculiares de temas clássicos. Atuam domingo, 15 de dezembro, à noite, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Seguem três canções: In A Manner Of Speaking, em inglês, ao vivo em Lisboa; Algo Familiar, em espanhol; e Week-end à Rome, em francês.
Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).
Para a Sara
Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).
Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
