Lua e sol. O canto dos tordos

Tu me dis que je suis l’une ou l’autre. Mais je suis Lune et Soleil libre d’être l’une comme l’autre. Car je suis Lune et Soleil (Zaz).
Por muito inovador que seja, um artista francês dificilmente resiste ao encanto da “vieille chanson”, à sua melodia, poesia, sageza e sentimento. Zaz não é exceção. Seguem três exemplos do mesmo álbum, Isa, publicado em 2021.
Dançar à chuva
A vida não é esperar que a tempestade passe, mas aprender a dançar à chuva (Séneca)

Estou a preparar uma conversa. Custa! Afortunadamente, resulta tarefa rara. Depois de abraçar a ignorância, foco-me, agora, na organização da comunicação propriamente dita. Tento, sobretudo, abreviá-la e simplificá-la. Esta transição alivia-me. Abre-me, por exemplo, a porta à alegria e energia da cantora francesa Zaz. Seguem três canções que dão vontade de dançar com as fadas à chuva.
Redespertar
Dormir
E acordar de novo
Quando for velho e frágil
E fraco
[Quinquis, Setu (Sonho), 2022)
Diálogo entre a cadeira de rodas e a bengala:
Cadeira de rodas: – Agora que consegues andar, podias mudar de vida!
Bengala: – Como assim?
Cadeira de rodas: – Essa que tens não presta. Desperta enquanto é tempo. Aproveita a primavera!
Bengala: – Não vejo como.
Cadeira de rodas: Em vez de pasmar a observar os pássaros, dá asas ao desejo e reaprende a voar.

Nascida em Brest, em 1990, casada com Yann Tiersen, Emilie Quinquis é uma compositora, instrumentista e fotógrafa francesa que canta em língua bretã. Algumas das suas canções não ultrapassam as centenas de visualizações. Nestas circunstâncias, ao retê-la numa “corrente” tão diminuta, uma pessoa acaba por se sentir alguém. Seguem quatro músicas com Quinquis.
Um sopro de fé
Sede vós mesmos o canto que ides cantar (Santo Agostinho).
Cantar é rezar duas vezes (Atribuído a Santo Agostinho).
Diversificar é preciso. Variar a língua, a geografia e a disposição. Depois da euforia italiana do Adriano Celentano (NOSTALROCK & NOSENSERAP) e da disforia neerlandesa da Sharon Kovacs (Fragâncias do Inferno), importa mudar o ponto cardeal. Acolher o murmúrio, senão o suspiro de fé intimista, da francesa Camille.
Há tempos, aludi à guturalidade na música (Prazer gutural). Camille representa um expoente do recurso à sonoridade corporal, durante e entre notas. Em muitas das suas interpretações, o acompanhamento confina-se à pluralidade expressiva dos sons emitidos pelo próprio corpo (ver O estádio do respiro e O Capuchinho Vermelho tem medo em casa).

As cinco canções que seguem, em espanhol, foram compostas para a banda sonora do filme musical Emilia Pérez, que, estrado em maio de 2024. acumulou vários prémios: Cannes, Globo de Ouro, Critic’s Choice Awards, BAFTA, SAG Awards, Óscars…
A interpretação de Camille desvia-se do padrão habitual. O canto aproxima-se, agora, de um murmúrio sussurrado e confidente, com uma voz meiga e suave, acompanhada apenas pelo piano.
Diversificar é preciso, para encontrar um pouco. Mas não, necessariamente. para se encontrar. Não me parece que seja exequível, nem desejável. Pelo que se pressente ou anteviu, o encontro consigo que fique para o fim, para o momento em que, segundo a ars moriendi, tudo conflui em jeito de despedida. Não resulta nada preocupante continuar inacabado e irresoluto, desde que, porventura, com o cuidado de respirar uma brisa de fé.
Por uma vez, acrescento, pela qualidade da exposição e do conteúdo, a entrevista de Camille ao programa 15′ de plus, da France Inter, de 11 de outubro de 2024.
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As Festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro

Ontem, conversei até à meia noite, durante mais de duas horas, sobre o carnaval. Comentei e ilustrei, com música e imagens, algumas das figuras mais caraterísticas do imaginário carnavalesco.
Imagem: Raoul Le Petit. L’Histoire de Fauvain, 1326. Bibliothèque nationale de France
Na Idade Média, sucediam-se, no final de fevereiro, três festas: dos Loucos, dos Inocentes e do Burro. Perduraram até ao século XVIII. Seguem:
- Três cânticos da Missa do Burro;
- Um testemunho de 1741 sobre as festas do Loucos e dos Inocentes;
- Um programa da rádio Europe 1 dedicado a estas três festas.
Na festa do Burro, o “arcebispo” eleito, entrava na igreja montado num burro às avessas. Seguia-se uma paródia de missa e procissão, ambas acompanhadas a preceito com cânticos (a)berrantes, de preferência zurrados.
Nas suas Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, publicadas em 1741, Mr. Du Tilliot descreve os desmandos das festas dos Loucos e dos Inocentes:
Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a bênção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.
Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas (…)
Em determinados Mosteiros de Provence se celebra a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. Nunca (…) os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6 e 19-20).
No podcast Au Coeur de l’Histoire, da Europe 1, no episódio “La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche”, Clémentine Portier-Kaltenbach aborda as festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro.
Por uns fios. A importância dos laços sociais
Brilhante, comovedora e cortante curta-metragem (anúncio de sensibilização) acerca do papel das empresas na luta contra o cancro.
Desaparafusado

Se por te beijar tivesse que ir depois para o inferno, eu faria isso. Assim poderei me gabar aos demónios de ter estado no paraíso sem nunca entrar (atribuído a William Shakespeare).

Por que resulta tão raro encontrar imagens do Paraíso que me atraiam irresistivelmente? Que me entusiasmem ao ponto de desejar ir passar lá umas férias. Será assim tão complicado representar o cenário da nossa maior aspiração: a beatitude, a felicidade eterna e suprema? Devo ter falta de parafusos ou uma entorse nas dobradiças.
Imagem: Giovanni di Paolo. Paraíso. 1445. The MET
A Alma das Flores Secas
Dans mon jardin secret
Dans mon imaginaire
La vie est plus légère
On fait ce qu’il nous plaît
Tudo me lembra alguma coisa. As memórias, como flores secas no livro da vida, aguardam uma gota, eventualmente um esboço de lágrima, que lhes proporcione seiva. Tudo me lembra alguma coisa, não porque tenha uma biografia recheada. Rodeado mais por imagens do que por demónios, aproximo-me de um eremita que pasma solenemente e se expõe cada vez menos, despojando-se de atavios e venturas que lega aos insaciáveis. Mas existiram, mesmo assim, picos, momentos marcantes.
Pianista, compositora e cantora, Nara Noïan nasceu na Arménia e fez carreira em França. À semelhança de outras celebridades, como o também “arménio” Charles Aznavour, o “argelino” Enrico Macias ou o “grego” Georges Moustaki, entrega-se à “canção francesa” (e.g. “Dans mon jardin secret”) sem esquecer as raízes (e.g. “Mon Arménie”).
Mas a música que pretendo relevar é, sobretudo por causa do título, “Doucha – Soul”.
Entre 1976 e 1982, estudei em Paris. Trabalhava, a tempo parcial, às sextas, sábados e durante as férias, num banco português. Amealhava o suficiente para escapadas mais ou menos longas. Só, bagagem ligeira, com roteiros e agendas flexíveis, explorava novas terras e gentes. O tempo dedicado a cada destino dependia do prazer da estadia.
Naquele tempo, se me perguntassem para que viera ao mundo, a resposta seria “para dar e receber amor”, mais prosaicamente, para namoriscar. Nem para estudar, nem para trabalhar, nem para viajar, nem sequer para defender a Pátria. Um impenitente colecionador de afrodites.
O que me atraía num lugar não eram tanto os monumentos, as paisagens e os lazeres, mas as pessoas, especialmente as mulheres.
Com 18 anos, parti em agosto rumo à Itália e à Jugoslávia e regressei no final de outubro. Atardei-me duas semanas em Veneza graças a uma jovem professora de biologia, uma semana na ilha de Hvar com uma turista francesa e mais de uma semana em Tuzla por artes de uma estudante de medicina.
Tuzla foi uma experiência única. À meia-noite, bati, sem aviso prévio, à porta de um colega do curso de Sociologia. No dia seguinte, parecia que toda a gente me conhecia. Nos cafés, ao pagar a conta, já estava paga por algum curioso que desejava satisfazer a curiosidade. Fui, inclusivamente, convidado para dar uma palestra sobre o 25 de Abril, em francês, numa universidade local.
A interação com Snježana (em bósnio: branca como a neve) era sui generis. A comunicação resultava difícil: falava sobretudo alemão, que eu não dominava [embora tenha frequentado um curso no edifício da Universidade de Filosofia, mas o que me movia não era a aprendizagem da língua; retive apenas algumas expressões de utilidade indiscutível tais como “Du bist sehr schön [ou hübsche]” (Tu és muito bonita). Em suma, a salvação era a linguagem gestual.
Garantira-lhe que permaneceria em Tuzla o tempo que me aprouvesse. Quando anunciei o regresso a Paris, não parava de dizer “laž” [láj], mentira. Retorquia, contristado, “nema laž” (nenhuma mentira). As aulas tinham iniciado havia três semanas e estava a ficar sem dinheiro…
Snježana costumava chamar-me “dusha”, palavra, essa sim, que me intrigava. O amigo hospedeiro acabou por me esclarecer: alma, coração, ente querido. Como o título da música de Nara Noïan! Tudo me lembra alguma coisa. Até uma simples palavra de outros mundos.
O colecionador de namoricos resume-se agora a um (re)contador de estórias. Resgatar folhas secas para colorir um jardim que nem sequer cuida de (p)reservar.

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)
Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.
Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.

