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Leveza sobre rodas

70 ans de légèreté é um anúncio de sonho, acelerado e vertiginoso, com recurso inspirado à banda desenhada. Condiz com o país, a França, e com a marca, a Alpine, um ícone do mundo automóvel que completa 70 anos de existência. [Artigo sugerido: A civilização da leveza].

Marca: Alpine. Título: 70 ans de légèreté. Agência: BETC Etoile rouge. Direção: Antoine BARDOU-JACQUET. França, junho 2025

A Ilha do Jardim de Inverno. Henri Salvador

Quem conhece esquece. Esquece, mas não desaparece. Pode sempre reemergir. Numa conversa sobre Stromae (vídeos 5 e 6), insinuou-se o nome de Henri Salvador, cantor que se manteve popular em França durante meio século (anos 1950 a 2000). Costumo afirmar que existem músicos cuja longevidade e refinamento ao longo do tempo lembram o vinho do Porto. 

Henri Salvador é o exemplo dos exemplos. Editou os álbuns Chambre avec vue (2000), Ma Chère Et Tendre (2003) e Révérence (2006) com, respetivamente 83, 86 e 89 anos. Nestes álbuns, lança alguns dos seus maiores sucessos: “Jardin d’hiver” (vídeo 3); “Chambre ave vue” (vídeo 4); “Ma chère et tendre” (vídeo 2); e “Tu sais je vais t’aimer” (vídeo 1).

Henri Gabriel Salvador (Guiana Francesa, 18 de julho de 1917 – França, 13 de fevereiro de 2008) foi um cantor, compositor e guitarrista francês de jazz. Com uma relação próxima com o Brasil, onde residiu, é considerado por muitos um precursor da Bossa Nova.

Em 1957, compôs a canção “Dans mon île” [vídeo 8], no estilo de um samba com andamento muito lento e harmonias ricas. Interpretou-a no filme italiano Europa di notte, exibido no Brasil na primavera de 1959 e visto por vários músicos que chamaram a atenção de Antônio Carlos Jobim. Esta canção, popular no Brasil, tornou Savador particularmente famoso no país. Muito mais tarde, em 2008, Gilberto Gil declarou que Henri Salvador “é um dos cantores pioneiros da bossa nova”. Em 2023, o documentário “Face B comme bossa, l’autre histoire d’Henri Salvador” confirma que a canção “Dans mon île” influenciou efetivamente este estilo musical no final da década de 1950 (Wikipedia, em francês).

A obra do Henri Salvador é extensa, rica e diversificada. A sua carreira conheceu uma espécie de eclipse nos anos oitenta e noventa. Acreditando ser pouco conhecida por estas bandas, segue uma dezena de canções, dispostas em duas partes [posterior (vídeos 1 a 4) e anterior ao dito “eclipse” [vídeos 5 a 10)], por ordem ordem cronológica inversa.

1. Henri Salvador (com Gilberto Gil) – Tu sais je vais t’aimer. Révérence, 2006
2. Henri Salvador – Ma chère et tendre. Ma Chère Et Tendre, 2003
3. Henri Salvador – Jardin d’hiver. Chambre avec vue, 2000
4. Henri Salvador – Chambre avec vue. Chambre avec vue, 2000

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5. Henri Salvador – On l’a dans l’baba. 1978
6. Henri Salvador – C’est pas la joie. 1973
7. Henri Salvador – Syracuse. 1962. Emissão Trèfle d’or, Radio Télévision Suisse, 2 março 1985
8, Henri Salvador – Dans mon île. 1958
Henri Salvador – Une Chanson Douce (Le Loup, La Biche Et Le Chevalier ). 1957
10. Henri Salvador – Quand je monte chez toi. 1956

Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)

Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.

Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.

Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré

Anunciante: Croque la vie. Título: La campagne de m*rde. Agência: Productman. França, maio 2025
Anunciante: Les Petits Culottés. Título: Le Studio. Agência: Customer Service. França, maio 2025
Anunciante: Andrex. Título: Conquer the First School Poo. Agência: FCB Inferno/London. Direção: Andreas Nilsson. Reino Unido, maio 2025

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1 PARTE do Limpa Cu em “Gârgantua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado: 15/11/2021
2 PARTE do Limpa cu em “Gargântua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado em 15/11/2021

Lua e sol. O canto dos tordos

Tu me dis que je suis l’une ou l’autre. Mais je suis Lune et Soleil libre d’être l’une comme l’autre. Car je suis Lune et Soleil (Zaz).
Por muito inovador que seja, um artista francês dificilmente resiste ao encanto da “vieille chanson”, à sua melodia, poesia, sageza e sentimento. Zaz não é exceção. Seguem três exemplos do mesmo álbum, Isa, publicado em 2021.

Zaz – Le chant des grives. Isa, 2021. Legendas em espanhol
Zaz – Et le reste. Isa, 2021. Legendas em espanhol
Zaz – L’une ou l’autre. Isa, 2021. Legendas em espanhol

Higiene digital

“The real danger is not that computers will begin to think like men, but that men will begin to think like computers” / O verdadeiro perigo não é que os computadores venham a pensar como os homens, mas que os homens comecem a pensar como computadores” (pensamento atribuído ao jornalista Sydney Harris).

A revolução informática tem limites? Talvez…

Imagem: Computer man, by GigachadUndertaleFan. DeviantArt

Marca: Emma. Título: Le Trèfle. Agência: Leo Burnett Paris. Direção: Bart Timmer. França, 2013

Dançar à chuva

A vida não é esperar que a tempestade passe, mas aprender a dançar à chuva (Séneca)

Estou a preparar uma conversa. Custa! Afortunadamente, resulta tarefa rara. Depois de abraçar a ignorância, foco-me, agora, na organização da comunicação propriamente dita. Tento, sobretudo, abreviá-la e simplificá-la. Esta transição alivia-me. Abre-me, por exemplo, a porta à alegria e energia da cantora francesa Zaz. Seguem três canções que dão vontade de dançar com as fadas à chuva.

Zaz – Je veux. Single, 2008. Álbum: Zaz, 2010
Zaz – La fée. Zaz, 2010. live session at the Songkick Paris offices, 2019
Zaz – Imagine. Isa, 2021

Redespertar

Dormir
E acordar de novo
Quando for velho e frágil
E fraco
[Quinquis, Setu (Sonho), 2022)

Diálogo entre a cadeira de rodas e a bengala:
Cadeira de rodas: – Agora que consegues andar, podias mudar de vida!
Bengala: – Como assim?
Cadeira de rodas: – Essa que tens não presta. Desperta enquanto é tempo. Aproveita a primavera!
Bengala: – Não vejo como.
Cadeira de rodas: Em vez de pasmar a observar os pássaros, dá asas ao desejo e reaprende a voar.

Nascida em Brest, em 1990, casada com Yann Tiersen, Emilie Quinquis é uma compositora, instrumentista e fotógrafa francesa que canta em língua bretã. Algumas das suas canções não ultrapassam as centenas de visualizações. Nestas circunstâncias, ao retê-la numa “corrente” tão diminuta, uma pessoa acaba por se sentir alguém. Seguem quatro músicas com Quinquis.

Yann Tiersen performing “13 1 18 25 6 5 1 20 17 21 9 14 17 21 9 19 (feat. Quinquis)” live in the KEXP studio. Recorded June 13, 2022.
Quinquis – Setu. Seim, 2022
Quinquis – Te (‘fd’ electric session). Seim, 2022. Ft. Gareth Jones, live in Dijon, sept. 2022
Quinquis – Inkanuko (feat. Desire Marea) Official Visualiser. Single, 2025. No álbum Eor a editar em maio de 2025. Em bretão e zulu

Um sopro de fé

Sede vós mesmos o canto que ides cantar (Santo Agostinho).
Cantar é rezar duas vezes (Atribuído a Santo Agostinho).

Diversificar é preciso. Variar a língua, a geografia e a disposição. Depois da euforia italiana do Adriano Celentano (NOSTALROCK & NOSENSERAP) e da disforia neerlandesa da Sharon Kovacs (Fragâncias do Inferno), importa mudar o ponto cardeal. Acolher o murmúrio, senão o suspiro de fé intimista, da francesa Camille.

Há tempos, aludi à guturalidade na música (Prazer gutural). Camille representa um expoente do recurso à sonoridade corporal, durante e entre notas. Em muitas das suas interpretações, o acompanhamento confina-se à pluralidade expressiva dos sons emitidos pelo próprio corpo (ver O estádio do respiro e O Capuchinho Vermelho tem medo em casa).

As cinco canções que seguem, em espanhol, foram compostas para a banda sonora do filme musical Emilia Pérez, que, estrado em maio de 2024. acumulou vários prémios: Cannes, Globo de Ouro, Critic’s Choice Awards, BAFTA, SAG Awards, Óscars…

A interpretação de Camille desvia-se do padrão habitual. O canto aproxima-se, agora, de um murmúrio sussurrado e confidente, com uma voz meiga e suave, acompanhada apenas pelo piano.

Diversificar é preciso, para encontrar um pouco. Mas não, necessariamente. para se encontrar. Não me parece que seja exequível, nem desejável. Pelo que se pressente ou anteviu, o encontro consigo que fique para o fim, para o momento em que, segundo a ars moriendi, tudo conflui em jeito de despedida. Não resulta nada preocupante continuar inacabado e irresoluto, desde que, porventura, com o cuidado de respirar uma brisa de fé.

Por uma vez, acrescento, pela qualidade da exposição e do conteúdo, a entrevista de Camille ao programa 15′ de plus, da France Inter, de 11 de outubro de 2024.

Camille – Mi Camino (live studio session). A partir do filme Emilia Pérez. Gravado e filmado no Studio Ferber, Paris, 2025. Colocado em 19.03.2025
Camille – Deseo (live studio session). A partir do filme Emilia Pérez. Gravado e filmado no Studio Ferber, Paris, 2025. Colocado em 19.03.2025
Camille – El Amor (live studio session). A partir do filme Emilia Pérez. Gravado e filmado no Studio Ferber, Paris, 2025. Colocado em 19.03.2025
Camille – Papá (live studio session). A partir do filme Emilia Pérez. Gravado e filmado no Studio Ferber, Paris, 2025. Colocado em 19.03.2025
Camille – Para (live studio session). A partir do filme Emilia Pérez. Gravado e filmado no Studio Ferber, Paris, 2025. Colocado em 19.03.2025

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La chanteuse Camille “Qui bien chante, deux fois prie” – Le 15 minutes de plus. France Inter, 11.11.2024   

As Festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro

Ontem, conversei até à meia noite, durante mais de duas horas, sobre o carnaval. Comentei e ilustrei, com música e imagens, algumas das figuras mais caraterísticas do imaginário carnavalesco.

Imagem: Raoul Le Petit. L’Histoire de Fauvain, 1326. Bibliothèque nationale de France

Na Idade Média, sucediam-se, no final de fevereiro, três festas: dos Loucos, dos Inocentes e do Burro. Perduraram até ao século XVIII. Seguem:

  • Três cânticos da Missa do Burro;
  • Um testemunho de 1741 sobre as festas do Loucos e dos Inocentes;
  • Um programa da rádio Europe 1 dedicado a estas três festas.

Na festa do Burro, o “arcebispo” eleito, entrava na igreja montado num burro às avessas. Seguia-se uma paródia de missa e procissão, ambas acompanhadas a preceito com cânticos (a)berrantes, de preferência zurrados.

Clemencic Consort – Kyrie Asin- Litaniei. La Fête De L’Âne, 1980
Clemencic Consort – Novus annus – Hunc diem – Ite missa est – Orientis partibus II. La Fête De L’Âne, 1980
Clemencic Consort – Procession: Cavalcade. La Fête De L’Âne, 1980

Nas suas Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, publicadas em 1741, Mr. Du Tilliot descreve os desmandos das festas dos Loucos e dos Inocentes:

Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a bênção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.
Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas (…)
Em determinados Mosteiros de Provence se celebra a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. Nunca (…) os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6 e 19-20).

No podcast Au Coeur de l’Histoire, da Europe 1, no episódio “La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche”, Clémentine Portier-Kaltenbach aborda as festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro.

Au Coeur de l’histoire – Clémentine Portier-Kaltenbach: La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche. Europe 1, 07/07/2022

Por uns fios. A importância dos laços sociais

Brilhante, comovedora e cortante curta-metragem (anúncio de sensibilização) acerca do papel das empresas na luta contra o cancro.

Anunciante: Cancer@Work. Título: Strings. Agência: Publicis Conseil. Direção: Niclas Larsson. França, fevereiro 2025