Véus de vidro
Aqueles que têm mais consciência são quem tem maiores pesadelos (atribuído a Gandhi)
Entre a sexta do sacrifício e o domingo da vitória, a descida ao limbo e a subida às alturas, talvez se proporcione a sonoridade dos Glass Beams: “uma fusão hipnótica de rock psicadélico, funk, surf rock australiano e música clássica indiana. A banda utiliza escalas orientais, riffs cíclicos e polirritmias que evocam uma atmosfera cósmica e meditativa” (ChatGPT, 19.04.2025).
O misterioso trio de Melbourne Glass Beams é um dos mais recentes fenómenos deste globo cada vez mais pequeno (…) / Com as suas máscaras exóticas, uma identidade secreta e um universo musical em permanente polenização entre o oeste e o oriente mágico, o segredo parece ser a alma deste fantástico trio. / O pouco que sabemos sobre os Glass Beams é que se fundaram em torno de Rajan Silva, um filho de emigrantes, com evidentes raízes portuguesas, que no final da década de 70 emigrou da Índia para a Austrália com uma colecção de discos na bagagem que se estendia entre Bollywood, Ravi Shankar, George Harrison e Muddy Waters. A formação de Rajan Silva bebeu por isso dessa intersecção entre a música clássica indiana e uma fusão de estilos ocidentais do rock ao funk, entre o passado e o futuro (https://www.oxigenio.fm/glass-beams-mahal/).
Os Glass Beams atuaram em agosto de 2024 no festival de Paredes de Coura. Vários trechos lembram-me os Camel da primeira metade dos anos setenta.
Como peixes na cruz

Sexta-feira da Paixão, dia fúnebre e sacrificial.
Sou seguidor do blogue Peixinho de Prata, que se propôs partilhar as músicas que mais marcaram os últimos 50 anos Hoje, foi a vez da canção “Hunger of the Pine”, da banda britânica Alt-J. Condiz.
Alt-j são uma banda britânica, formada em 2007 em Leeds, mas cujo primeiro álbum, An Awesome Wave, foi lançado em 2012. O nome verdadeiro da banda é a letra grega delta (Δ), que em Mac se escreve usando os controlos alt-j. Não faço a menor ideia como é que comecei a ouvir isto, se alguém me recomendou, se veio na sequência de gostar de Interpol e Arcade Fire. Todas as hipóteses são válidas, e alguma será verdadeira (…)
Nunca os vi ao vivo, com grande pena minha que adoro concertos, nem nunca foram banda sonora das minhas noites de dança, mas são certamente parte essencial da banda sonora da minha vida adulta. Algumas canções são absolutamente arrebatadoras, e os vídeos são também de excelência. Trago aqui um dos meus favoritos, cheio de significado, mas havia muitos por onde escolher. (50 Anos, 50 Músicas – #14 Hunger of The Pine, Alt-J).




Cada um dos seguintes vídeos lembra-me alguns episódios da história da arte. Por exemplo, os “São Sebastião”, do Guido Reni, “A Escola de Atenas”, do Rafael, os touros, do Pablo Picasso e os autorretratos, da Frida Kahlo.
Uma Pitada de Mitsune

Não é por ser generoso que um pensamento é mais interessante, nem por ser desagradável, menos válido (AG)
De castigo em Braga (só para aprender), desforro-me a procurar e escutar excentricidades. Segue, para os nipófilos mais rebuscados, o formidável concerto dos Mitsune, em Rennes, em dezembro de 2024.
Mitsune é uma banda japonesa de folk fusion sediada em Berlim, com membros provenientes do Japão, Austrália, Alemanha e Grécia. O seu som mistura folk tradicional japonês com música psicadélica, cinematográfica e ritualística, acrescentando ao folclore moderno uma mentalidade punk (…) Os seus espetáculos ao vivo estão carregados de energia bruta, com visuais decadentes e uma pitada de humor (https://www.mitsune.de/).
Às voltas. O Ouroboros

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.
Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.
Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.
Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.
Cola Transcendente. Humor Tailandês
Estou mergulhado numa fase de aprendizagem. Comunicar, fica para mais tarde. Para já, um adeus aos refrigerantes, incluindo a coca-cola. Infusões, por favor e sem excessos. Resiste, contudo, um prazer: o consumo de disparates. Seguem três, com borbulhas.
Sublunar

A sueca Karin Dreijer Andersson é a vocalista do duo de música eletrônica The Knife, que inclui o irmão Olof Dreijer. Com o pseudônimo Fever Ray na carreira solo, seu estilo vocal é notável pela voz aguda e profunda, tons distorcidos e uso de pitch-shifting. A sua imagem de artista inclui máscaras e outros elementos teatrais (Fonte: wikipedia).
Entre abismos terrenos e crateras lunares, Fever Ray aventura-se por horizontes fantasmagóricos e perturbadores, mas absorventes. [Texto pequeno que não diz nada, a não ser que gosto. Começo, finalmente, a aprender a arte do comentário].
Redespertar
Dormir
E acordar de novo
Quando for velho e frágil
E fraco
[Quinquis, Setu (Sonho), 2022)
Diálogo entre a cadeira de rodas e a bengala:
Cadeira de rodas: – Agora que consegues andar, podias mudar de vida!
Bengala: – Como assim?
Cadeira de rodas: – Essa que tens não presta. Desperta enquanto é tempo. Aproveita a primavera!
Bengala: – Não vejo como.
Cadeira de rodas: Em vez de pasmar a observar os pássaros, dá asas ao desejo e reaprende a voar.

Nascida em Brest, em 1990, casada com Yann Tiersen, Emilie Quinquis é uma compositora, instrumentista e fotógrafa francesa que canta em língua bretã. Algumas das suas canções não ultrapassam as centenas de visualizações. Nestas circunstâncias, ao retê-la numa “corrente” tão diminuta, uma pessoa acaba por se sentir alguém. Seguem quatro músicas com Quinquis.
O bom pastor e a ovelha negra e manca

Estou a escrever um artigo que está a resultar mais complicado e extenso do que a encomenda. Aborrecido, perco a paciência.
Entretanto, desenfado-me com uma paper stop motion short com ressonâncias bíblicas, “Lost Sheep”, e compenso com os ecos nostálgicos da música de fundo: as canções “Rapaz da montanha” e “Já sabia”, do próximo álbum do Rodrigo Leão.
Imagem: Estatueta do Bom Pastor carregando um cordeiro, c. 300-350, das Catacumbas de Domitila, nos Museus do Vaticano
Origami mágico

Ontem, tive um momento de glória. Consegui a façanha de mostrar ao Fernando um vídeo japonês que ele ainda não conhecia. E adorou! Uma lança em África. Sinto uma ponta de orgulho. Convenha-se que o vídeo Origami, realizado pelo jovem japonês Kei Kanamori, é fantástico. Curto, com menos de três minutos, nele cabe um vendaval de arte e sonhos.
Cativa-me a palavra origami. Há quase vinte anos, ilustrei uma conversa em Viana do Castelo com uma compilação de anúncios publicitários batizada Origami Mágico (ver Lição Imaterial: https://tendimag.com/2020/03/13/licao-imaterial/).
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É realmente belíssimo, veloz, imaginativo, ritmado, e pensar que tudo cabe numa folha de papel. A palavra origami também me fascina, e o origami em si mesmo ainda mais. Sem perder uma única dobra, tudo é possível neste imaginário. E remontando às vertigens do barroco e às suas dobraduras, diria que o origami representa a precisa vertigem do efémero. Tudo se resume à mudança e à capacidade de se reinventar. Dispersa-se com o vento, consome-se no fogo e dissolve-se na água. É um ritual da alma e celebra o espírito na sua magia de renovação. Sem amarras. Preces e oferendas, dobras infinitas. (Almerinda Van Der Giezen, 25.03.2023)

