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Repassagem

Si vis vitam, para mortems. Si tu veux pouvoir supporter la vie, soit prêt à accepter la mort [Se queres poder suportar a vida, está pronto a aceitar a morte] (Sigmund Freud, Essays de Psychanalyse, Payot, 1927, p. 264)

Sem despedidas protocolares, mergulha-se, subitamente, mais resignado que resistente numa plataforma mais despojada que desolada. Deambula-se, letargicamente, numa estranheza que não se estranha. Talvez um providencial sopro ínfimo conduza a um portal de escape. Uma experiência insólita, que nem os muitos fantasmas da psicanálise conseguem elucidar. Um resgate despoletado por um caprichoso motivo insuspeito. Por exemplo, o cheiro apelativo a frango frito desossado.

Imagem: Francisco Goya. O Cão. 1819-23. Museu do Prado

Marca: Chicken Licken. Título: The Homecoming. Agência: Joe Public/Johannesburg. Direção: Peter Pohorsky. África do Sul, maio 2025

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Profundo e insuperavelmente leve!
“Já alguém sentiu a loucura de vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
….
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação


Almada Negreiros (excerto de “Reconhecimento à loucura”)
Dizem que o cheiro é a nossa primeira memória, assim o cheiro a casa queima barreiras. Regressa-se. Não importa se um perfume ou frango frito. É a maravilhosa ironia do estar vivo.

(Almerinda Van Der Giezen, 14/06/2025)

Mourinho entre os Vikings

José Mourinho é posto na ordem graças ao chocolate Snickers.

“Mourinho interpreta um líder viking que, ao invés de agir com a brutalidade esperada, começa a se comportar como um técnico moderno (…) A situação só se resolve quando um membro do bando oferece uma barra de Snickers ao líder, que então retorna à sua postura viking tradicional, pronto para a batalha.” (https://www.b9.com.br/172570/jose-mourinho-viking-snickers/)

Marca: Snickers. Título: José Vikings. Agência: T&Pm. Direção: Shannon Murphy. Reino Unido, maio 2025

A reincidência do grotesco

A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).

Marca: Skoda. Título: Bring Your Saturday to Life. Agência: Selmore Amsterdam. Direção: Joe Vanhoutteghem. Países Baixos, maio 2025
Marca: Toblerone. Titulo: Chocolate Like Nobody’s Watching. Agência: LePub. Direção: Martin Werner. Itália, abril 2025
Marca: Balter Brewing Co. Títulos: Beers do come true. Agência: ATime&Place. Austrália, maio 2025
Marca: Allianz. Título: Care You Can Count On. Agência: Howatson+Company. Direção: Michael Gracey. Austrália, maio 2025

Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)

Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.

Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.

Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré

Anunciante: Croque la vie. Título: La campagne de m*rde. Agência: Productman. França, maio 2025
Anunciante: Les Petits Culottés. Título: Le Studio. Agência: Customer Service. França, maio 2025
Anunciante: Andrex. Título: Conquer the First School Poo. Agência: FCB Inferno/London. Direção: Andreas Nilsson. Reino Unido, maio 2025

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1 PARTE do Limpa Cu em “Gârgantua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado: 15/11/2021
2 PARTE do Limpa cu em “Gargântua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado em 15/11/2021

Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

As almas têm ossos?

Ideiafix

Tendemos a adotar uma relação complicada com o interior do corpo, incluindo os ossos. Temos. aliás, propensão a “ter um certo respeito” por quase tudo que é interioridade, com o corpo (e, por extensão, a terra) a assumir-se como uma espécie de matriz simbólica.

Regra geral, o que está sob a pele ou se exterioriza constrange: órgãos, nervos, cartilagens, ossos, carne, tumores, calos, verrugas, acne, borbulhas, sangue, pus, urina, fezes, transpiração, bafo, hálito, flatulência, rugidos gástricos, arroto, ronco…

Denegamos, combatemos e disfarçamos os conteúdos e as manifestações desta natureza invisível, mas congénita, procurando preservá-la secreta ou, pelo menos, discreta. Sabemo-lo, a Chichen Licken, também!

Marca: Chicken Licken. Título: Boneless Bites of Soul. Agência: Joe Public Johannesburg. Direção: Adam Weber. República da África do Sul, fevereiro 2025

Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025

O Êxtase de Santo Horácio Jogador

Xbox. Wake Up. Trailer. 2025

Horácio, transformado em rato, recupera a humanidade graças ao prazer do jogo (gaming). Seguimo-lo na azáfama quotidiana como rato: ambiente sobrepovoado, tédio laboral, almoço apressado na secretária. A rotina é interrompida por aparições breves de jogadores misteriosos — os únicos humanos entre os ratos. Findo mais um dia interminável, Horácio liga o Xbox na TV OLED Samsung e conecta-se com os amigos. Uma dose de diversão imprescindível que o converte no ser humano que sempre foi (Tradução muito livre).

“Deus criou três inimigos por causa dos nossos pecados: o rato nas nossas casas, a raposa na montanha e o cura na nossa paróquia” (provérbio da América Latina)”. Que fazer contra o estigma, a obsessão profundamente enraizada? Pobres ratos, associados ao mal, calhou-lhes o lado noturno do imaginário.

Xbox – Wake Up. Agência: Droga5, New York. Direção: David Fincher. USA, abril 2025

Humor belga

“O surrealismo está profundamente enraizado na cultura belga, e isso transparece no humor, que frequentemente brinca com o absurdo, o ilógico e o inesperado (…) Os belgas costumam rir de si mesmos, seja em relação à sua identidade nacional, seus hábitos, sotaques ou rivalidades linguísticas (entre flamengos e valões). (…) O humor belga não evita temas sombrios.

São bastante comuns piadas envolvendo morte, tragédia ou situações desconfortáveis, mas tratadas de uma forma leve ou irónica. (…) Grande parte do humor belga (…) tem uma forte dimensão visual e foge muitas vezes da lógica convencional (…) Introduz críticas à sociedade, à política ou a instituições sob o disfarce de uma capa de absurdo ou de comédia leve.” (ChatGPT, consultado 29.04.2025).

Em termos de banda desenhada belga, recomendo dois autores: Franquin, criador do Gaston Lagaffe, e Greg, do Achille Talon. Prefiro ao consagrado Hergé, do Tintim.

A seguinte meia dúzia de anúncios recorda o dito humor belga. Os anúncios podem não ser belgas, são quase todos britânicos, mas a cerveja Stella Artois teve origem em Lovaina, ainda em plena Idade Média. Talvez subsistam algumas raízes de inspiração.

Stella Artois – Quest. Agência: Rattling Stick (London). Produção: Mother. Reino Unido, 2011
Stella Artois – Respect. Agência: Mother. Direção: Patrick Daughters. Reino Unido, 2011
Stella Artois – Masterpiece. Agência: Lowe Roche (Toronto). Direção: Matthijs Van Heijningen. Canadá, 2006
Stella Artois – Ice Skating Priests. Agência: Lowe (London). Direção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 2006
Stella Artois – The Plague. Agência: Lowe. Direção: Ivan Zacharias. Reino Unido, 2002
Stella Artois – Monet. Agência: Lowe. Direção: Michael Seresin. Reino Unido, 1991

Alpercatas emancipatórias

Mais um anúncio tailandês.

Marca: Gambol. Título: The Violent Ape. Agência: YDM Thailand. Direção: Teerapol Suneta. Tailândia, abril 2025