Loura e pura
A cerveja, como o tabaco, pode ser um vício de estimação. Uma loura, o outro moreno. Surpreendentemente, ambos podem ser “puros”. Se não é alérgico ao prazer, à beleza, à fantasia e ao disparate, convido-o a saborear estes três anúncios da marca Pure Blonde. Divirta-se! Hoje, domingo, é dia de oração mas também de recreação.
Animação
Tenho em casa um nipófilo adepto dos animes. Costuma prendar-me com novidades e curiosidades. No passado mês de abril, estreou a série Kaiju. No. 8. O genérico de abertura é deslumbrante. Ao contrário da generalidade dos animes, quase dispensa o figurativo. Formas, movimentos, sons e cores insinuam-se, esboçam-se e atropelam-se a um ritmo estonteante, para antecipar sensações e emoções em vez de conteúdos, narrativas e significados. Uma aposta original e arriscada que tudo indica ter resultado.
As caraterísticas do genérico de abertura de Kaiju. No. 8 lembram-me um vídeo com anúncios a automóveis que produzi há décadas (Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, 2007). Resultou uma colheira “bem apanhada”. Destaco, especialmente, o anúncio See How It Feels, da BMW (2007). Tempos em que bibia a beleza do mundo!
Seguem o anúncio See How It Feels, da BMW; o vídeo Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade; e o texto homónimo correspondente ligeiramente ligeirament diferente do publicado no livro Vertigens (mais imagens e a cores).
So fucking special: maravilhas e aberrações

A vida é composta por pequenos rituais. Ao acordar, um comprimido para a tiróide, a medição da tensão e da glicémia e o compasso de um cigarro. Ao trigésimo minuto, o pequeno almoço: café com leite, pão com queijo e uma tangerina. Enquanto a descasco, encanta-me a maravilha que tenho nas mãos. Tanta riqueza que a natureza, recatada, produz!
Livro de Horas, França, séc. XV. Amiens, Biblioteca Municipal, ms. 107)
Resultam, por exemplo, únicos, imensos e fantásticos os sabores, as formas, as texturas e as cores dos frutos. Após cinco comprimidos e outras tantas gotas, novo cigarro, refrescado com água mineral natural gasocarbónica, de preferência de Melgaço.

Aproveito para escutar música: Hoje, uma versão da canção Creep, dos Radiohead. E volto a cismar no excesso, na complexidade e na diversidade do mundo e da vida. Agora, insinuam-se outras criaturas, os monstrinhos, essa outra maravilha que Deus nos deu. Principia deste modo, quase religiosamente, um novo dia.
Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. Final séc. XV. Flandres

Seguem duas versões da canção Creep: o cover pelos Postmodern Jukebox (2015) e, naturalmente, o original, o primeiro single dos Radiohead (1992). Um pequeno apontamento: na letra original, em vez de “So very special“, constava “So fucking special“. Foi censurado à nascença.
Lampadinha

Depois do jejum, a ausência. Desfiz-me em conversas, sobretudo em Melgaço: dia 2, no Espaço Memória e Fronteira, sobre o 25 de Abril e no 6, na Casa de Cultura, sobre a Maria Beatriz Rocha-Trindade e o livro Em Torno da Mobilidade. Parti cansado e regresso atrasado. Mas com ideias. Algumas sobre adultos bebés… Logo se verá!







Seguem três anúncios, dois tailandeses. No primeiro, da Nike, Feel the Unreal, uma corrida impossível de um gato das botas pós-moderno não o impede de chegar atrasado. Como imagem de marca não está mal engendrado. No segundo, Ideas Come To Life, da BoonThavorn, aprende-se o que conta para implementar ideias: experiência, colaboração, comunidade, paixão, necessidade e, sobretudo ser criativo beneficiando do enquadramento adequado. No terceiro, In The Name of Benz, a Mercedes-Benz quer surpreender através, novamente, de uma inversão divertida: a posse do automóvel infantiliza, dando livre curso a birras.
Comunicação e alienação
A crescente autonomia deste receptor lembra-nos que o mais difícil na comunicação não é a mensagem nem a técnica, mas o outro . O desafio da comunicação continua sendo a apreensão – e a gestão – da alteridade. (…) Esta omnipresença da alteridade revela a importância da incomunicação que se torna, de certa forma, o horizonte da comunicação. (Dominique Wolton, “Conclusão. Da informação às ciências da comunicação”, in HERMÈS, LA REVUE, 2007/2 (n° 48) , pp. 189-202)

Martin Scorsese, além de filmes, também realiza anúncios publicitários. Hello Down There, para a empresa norte-americana de hospedagem e criação de sites Squarespace, foi lançado durante o Super Bowl, o principal momento da publicidade a nível mundial. Aborda a dificuldade de comunicação entre os alienígenas do espaço e os alienados da Terra.
O vinagre e as moscas
Há muitas maneiras de o dizer e outras tantas de o entender, o que representa um desafio para os agentes publicitários. Tanto podem contribuir, junto do público, para o envolvimento e o agrado como para o enfrentamento e o desconforto, provocando sensações e sentimentos ora de satisfação, confiança e esperança, ora de perturbação, insegurança e receio. Difíceis de antecipar, as reações podem resultar perversas: indiferença, rejeição e, até, adversidade em vez de adesão, reconhecimento e conversão. A maioria dos anúncios comerciais, interessados em congregar e cativar, apostam na primeira modalidade; os anúncios de sensibilização, mais empenhados em assustar e mitigar, na segunda, destacando-se as campanhas antitabaco como exemplo extremo. Na prevenção ambiental ou rodoviária, a opção pela polémica e pelo choque tende a ser menos drástica e sistemática, com eventual recurso à fantasia, à simpatia e, até, ao humor. O anúncio natalício “Llegar”, da Dirección General de Tráfico (DGT), de Espanha, oferece-se como um excelente exemplo.
Um dia virá em que as altas autoridades se dignarão ponderar um provérbio antigo: “Não é com vinagre que se apanham moscas”; ou “Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com vinte barris de vinagre“.
Entretanto insiste-se, décadas a fio, na repetição, na agressividade e, muitas vezes, na intrusão sem que os resultados correspondam. Algo me escapa! Existirão outras lógicas que não consigo ou ouso equacionar? Além da conversão, a discriminação, a estigmatização e a demonização? A justificação da penalização, nomeadamente através de impostos demasiado excessivos e pouco dissuasivos? Com certeza que não, seria grave.
Desenhar vidas / Animar Edward Hopper

A memória não descansa. Tudo me lembra alguma coisa.
Uma amiga de Melgaço partilhou este belo vídeo, com música de fundo de Vangelis: La Petite Fille de la Mer. O Tendências do Imaginário já contempla o vídeo oficial desta música (https://tendimag.com/2022/06/30/top-of-the-pops-com-rugas-5-michel-colombier-vangelis-e-francis-lai/). Neste caso, “Maria” (2015) limitou-se a retomar a curta-metragem LILA (2014) de Carlos Lascano mantendo o vídeo e substituindo apenas a música. Esta “remistura” não desmerece os originais. Coloco os dois vídeos: a adaptação de “Maria” e o original de Carlos Lascano.
A curta-metragem LILA lembra-me [adoro co(r)tejar realidades distintas] os quadros de Edward Hopper: seres humanos entregues a si mesmos, isolados em ambientes amplos, delineados e despojados com uma luminosidade estranha. Só por magia ou milagre as personagens parecem suscetíveis de resgate, de ganhar vida. Algo semelhante carateriza as situações iniciais no vídeo do realizador e escritor argentino Carlos Lascano, animadas pelos desenhos, por vezes em stop-motion, esboçados por uma jovem, qual anjo ou cupido travesso, (re)anima, incutindo vida e amor às pessoas e seus contextos. Como que restaura, transfigura e subverte o universo melancólico, desolado e solitário de Hopper.
Galeria com quadros de Edward Hopper












A cada um a sorte que merece?
Cada um escolhe a sua sorte, tem o futuro predestinado ou, ao jeito das tragédias gregas, abraça o seu destino? Eis algumas perguntas que um simples anúncio publicitário consegue suscitar.
O voo dos tordos

De um recanto à saída do Instituto de Ciências Sociais, demorei-me a observar o bailado celestial de um bando de tordos. Lembrou-me, sabe-se lá por quê (apenas um Freud inspirado conseguiria explicar), a ária “Les oiseaux dans la charmille” [os pássaros no caramanchão] da ópera Les Contes d’Hoffmann (estreada em 1881) do compositor Jacques Offenbach (1819-1880).
Existem muitas coreografias e interpretações de “Les oiseaux dans la charmille”. Optei pela performance, em janeiro de 2016, da eslovaca Patricia Janečková (1998 – 2023), falecida no passado dia 1 de outubro, aos 25 anos, em Ostrava, vítima de um cancro da mama.
Para quem aprecie o grotesco, nomeadamente a vertente do estranhamento, desconcertante e corrosiva, relevada por Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957), nunca recomendarei o suficiente os contos de E. T. A. Hoffmann (1776-1822). Anexo o pdf do conto “O Homem da Areia” (do livro Noturnos, de 1817).
Quando o negócio se oferece generoso
A vida e a morte aproximam-se, dão, aliás, frequentemente as mãos. Uma pressupõe a outra. No ciclo anual, esta proximidade é particularmente pronunciada no outono. “Salta-se” de uma comemoração da morte, dos que partiram, para uma celebração da vida, dos que nascem. A publicidade acusa esta viragem. Passa a aludir mais à vida e à esperança e menos à morte e à memória. A campanha natalícia começa na primeira metade de novembro, quase a seguir ao Dia dos Mortos. Os “anúncios de Natal” circulam, portanto, há já alguns dias.
A cadeia de lojas britânica John Lewis & Partners faz questão de publicar todos os anos anúncios de rara qualidade e criatividade. Extensos, convocam um universo mágico em que crianças desenvolvem uma relação inesperada e generosa com figuras fantásticas mais ou menos associadas ao espírito do Natal.
Segue o anúncio Snapper: The Perfect Tree, estreado no dia 9 de novembro. Aproveita-se o ensejo para recordar os anúncios de Natal da John Lewis dos anos 2019 e 2021.
