O pêndulo de Newton
Excessivo, insólito, deslocado, infantil. Uma regressão descomunal. O que não passa pela cabeça dos criativos da publicidade para chamar a atenção!… Mas o anúncio tem fundamento científico. Alude ao pêndulo de Newton.
Anunciante: kit-kat. Título: Crane. Agência: Jwt, London Rattling Stick. Direcção: Steve Cope. Reino Unido, Janeiro 2011
O último tango na cozinha
Lembra-se de O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci? Estreou em 1973. Os espanhóis vinham a Portugal só para o ver. E da manteiga, também se lembra? Um pico de vendas nos lacticínios. Mas não há glória que dure sempre. A erótica do detergente substitui a erótica da manteiga, no anúncio Cleaner of your dreams, da marca Mr. Clean. Um bailado alucinado com fantasmas excitantes.
Marca: Mr. Clean. Título: Cleaner of your dreams. Agência: Leo Burnett Toronto. Estados Unidos, Janeiro 2017.
Sem remorsos
Edith Piaf enternece e emociona; a mulher e a cantora. Seguem três « canções do século XX »: Non, je ne regrette rien (1960) ; La vie en rose (1946); e Milord (1959). Optei pela gravação ao vivo. Acrescentei a letra da canção Non, je ne regrette rien. Vale a pena.
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié, je me fous du passéAvec mes souvenirs j’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéroNon, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui ça commence avec toi.
Uma gota de água
Uma gota de água é um das expressões mais belas das línguas latinas. E é versátil. Como uma gota de água no oceano, um infinitamente nada. A gota de água que faz transbordar o copo, um ocasionalmente tudo. Vem este devaneio a propósito do anúncio The Drop, da Bavaria (2009). Original, turbulento, airoso e jovial, com estética e humor a preceito. Um ramalhete de qualidades raramente próximas. Com uma gota de cerveja…
Marca: Bavaria. Título: The Drop. Agência: Selmore. Direcção: Matthijs Van Heijningen. Holanda, 2009.
Lembrar faz bem à memória
Na adolescência, quando estava a ler um livro e encontrava coisas que já sabia, ficava contente. Era sinal que já sabia. Hoje, quando leio um livro e encontro coisas que já sei, fico descontente. É sinal que não estou a aprender (Albertino Gonçalves).
A vaga terrorista actual parece sem precedentes. Mas tem precedentes. O artigo O ataque terrorista mais mortífero em Paris desde 1944, da RTP, de 07 de Janeiro de 2015, tem o condão de refrescar a memória no que respeita à França: Desde a Segunda Guerra Mundial, Paris nunca deixou de ser alvo de atentados mortíferos por parte de grupos terroristas nacionais e internacionais. Residi em Paris nos anos setenta. Uma cidade sob ameaça terrorista. Os alertas e as evacuações eram constantes.

Otto Dix. Ferido de Guerra. 1922.
Nos anos setenta, vários países debateram-se com a actividade de grupos terroristas internos: o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, país palco do massacre de Munique de 1972; a ETA na Espanha (mais de mil pessoas mortas); as Brigate Rosse na Itália (recorde-se o assassinato de Aldo Moro) e o IRA no Reino Unido (acima de 3 500 mortes). Em Portugal, houve vítimas, não sei se houve autores. É verdade que, hoje, temos estados terroristas, mas nos anos setenta existiam estados que apoiavam declaradamente o terrorismo, por exemplo, a Líbia. Recorrendo a um pleonasmo, o terrorismo é aterrador e alcançou uma dimensão inédita. Mas não nasceu ontem. Com a História, nunca estamos sós. Nestes tempos orgulhosamente únicos, um pouco de História é um consolo.
Alguns autores marxistas, tais como Lukacs, Goldmann, Gabel ou Kosik, criticam a atrofia da consciência histórica. A falta de horizontes históricos conduz, segundo eles, a uma espacialização do pensamento, a uma reificação. Em termos mais simples, a um empobrecimento do espírito e da realidade.
Modern Monsters, da Amnesty International, é um excelente anúncio português, premiado no estrangeiro. Normalmente, o texto vem a propósito do vídeo. Neste artigo, o vídeo e as imagens colam-se, tenebrosas, ao texto. Nada condiz com nada. É uma extravagância.
Anunciante: Amnesty International. Título: Modern Monsters. Agência: W Portugal. Portugal, 2007.
Repetição

Ao arrepio das águas de Heráclito, podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio. Acontece repetir-me, não no absoluto, mas no relativo em que vivo. Na verdade, mesmo quando me repito, inovo. Volvidos seis anos, repesco este anúncio, logo repito. Mas não o vejo com os mesmos olhos. Entretanto fiquei pitosga. O mundo e o anúncio perderam luz e contraste. Perderam brilho e tornaram-se mais macios. Para compensar, a qualidade do vídeo é superior. Em suma, repito-me sem me repetir. O comentário, por preguiça, permanece o mesmo:
“Os anúncios de festivais de filmes costumam ser bons. Este não destoa. Fragmentos, metal, carne, metamorfose… E uma excelente sincronia entre a música e a imagem. A música esculpe e a imagem dança”.
Anunciante: Bitfilm Festival Bitfilm Festival 2007 (Lotus Trailer). Agência: Sehsucht. Alemanha, Agosto 2007.
Beleza real
Para a Dove, o belo não é um ser modelado, belos somos nós. As sucessivas campanhas da Dove giram em torno da noção de “beleza real”. O anúncio “Beauty on your own terms” (Reino Unido, 2016) inscreve-se nessa tendência. O mesmo parece não suceder com o anúncio, recente, “It has to be my way” (China, 2017). Mostra como a China acolheu a sociedade de consumo. Resulta menos óbvio o conceito de beleza que celebrizou a Dove.
Marca: Dove. Título: Beauty on your own terms. Agência: Havas Helia London. Reino Unido; Outubro 2016.
Marca: Dove. Título: My Hair: It has to be my way. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Janeiro 2017.
Acrescentar um novo elemento de informação é sempre recomendável. Um terceiro anúncio da Dove revela que a “beleza real” chegou, afinal, há alguns anos à China, embora de um modo algo indirecto e complicado, menos assertivo.
Marca: Dove. Título: Flat nose. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Dezembro 2012.
Original sem limites

As interpretações, organizadas qual fieiras em viveiro de plantas, começam a ficar entediantes; as pessoas têm saudades das florestas (Kayser, Wolfgang, O grotesco: configuração na arte e na literatura, São Paulo, Ed. Perspectiva [1957], 1986, p. 8).
Neste anúncio da Adidas, tudo está equacionado até ao mais ínfimo pormenor: a imagem, o som e a palavra. Original is never finished.
Marca: Adidas. Título: Original is never finished. Agência: Johannes Leonardo. Direcção: Terence Neale. Estados Unidos, Janeiro 2017.
A caridade espetáculo
“Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará” (Bíblia, Provérbios 19.17).
Este anúncio do World Development Movement lembra, perversamente, o reverso da cupidez: a caridade. Entramos na era da caridade espectáculo? A caridade espectáculo é milenar. Há muito, muito tempo já havia bailes e cortejos de caridade. Entramos quando muito na ubiquidade e na ostentação em larga escala da caridade. A caridade mitiga o necessitado e engrandece o benemérito. Lustra a reputação e consolida o poder. É um valor acrescentado, neste e no outro mundo. Ressalve-se, contudo, que este retorno requer visibilidade. A comunicação social parece interessada.
Em vez de caridade, por que não solidariedade? Naturalmente, mas a palavra solidariedade implica envolvimento, responsabilização, compromisso e conexão, dimensões que a palavra caridade nem sempre contempla. A caridade, por sua vez, comporta outras vertentes como, por exemplo, a religião. Mas nem sempre é fácil distingui-las.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Quino. Gente en su sitio 1979 / Anunciante. World Development Movement. título: Banquier et Dette du Tiers Monde. Reino Unido, 1995.
Técnica de sonho
Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.
Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.
Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.



