Espelho de água
Andei arredado por causa do III Congresso sobre Culturas – Interfaces da Lusofonia (Universidade do Minho, 23 a 25 de Novembro de 2017). Proferi duas comunicações, uma em plenário, apresentei a reedição do livro Vertigens e moderei uma sessão sobre indústrias culturais. Como convidado. Não me lembro de me auto propor a um congresso. Foi bom! Com o desuso, temia perder-me. Mas não, os congressos são para a gente se encontrar. Com o tempo, convenci-me que consubstanciam um caso de histerese do habitus científico, um fenómeno que perdura e, eventualmente, se exacerba para além das condições que o justificaram. Afinal, os congressos têm vida. Falta saber qual. Para a espera entre comunicações, recomendo Feist (Caught A Long Wind). Gostei do Congresso. Muitas sombras e muitos reflexos num enorme espelho de água (ver imagem).
Feist. Caught A Long Wind. Metals. 2011.
Óculos de sol
Quando te sentires luminoso, tapa-te com um abat-jour, não vão os outros colocar óculos de sol.
O blogue Tendências do Imaginário ultrapassou as 600 000 visualizações. Em seis anos. É pouco: há páginas que colhem mais visualizações num único minuto. Mas, para um blogue individual, sem suporte institucional e sem publicidade, podia ser pior.
A distribuição das visualizações por países não engana: trata-se de um blogue lusófono. Três quartos das visualizações provêm do Brasil (49%) e de Portugal (28%).
Um blogue requer a atenção de todos os dias. Por vocação, tudo o que se constrói acaba por se destruir. Como a criatura do vídeo musical dos Air.
Air. How does it make you feel. 10 000Hz Legend. 2001.
Disse pena? Que pena
Vale a pena ter pena? Às vezes, é uma pena. Valorizar ou lamentar, eis a questão.
Anunciante: Canadian Down Syndrome Society. Título: Anything but sorry. Agência: FCB Canada. Canadá, Novembro 2017
Papão
Quantas vezes não me cantaram, quantas vezes não cantei, esta canção de embalar:
“Dorme menino
Que aí vem o papão
Comer meninos
Que não dormem não.”
O meu menino chama-se
Fernando Meco João
É muito lindo e brincalhão.
“O meu menino está chorando
Com medo do papão,
Sossega, meu menino,
Que não te come, não.”
Segue o anúncio Moz the Monster, com a assinatura de Michel Gondry.
Marca: John Lewis. Título: Moz the Monster. Agência: Adam&eveDDB. Produção: Partizan. Direcção: Michel Gondry. Reino Unido, Novembro 2017.
Épico de massas
Repeti vezes sem conta que alguns desportos são simulacros de guerra. Mas nem todos. Talvez o futebol ou o rugby, mas não o esqui, o mergulho ou o asa delta. Estes últimos lutam, quando muito, com a natureza. Mas não é essa a filosofia, a intenção reside em fazer da natureza (neve, água, ar) um parceiro. Mas estamos sempre a aprender. O anúncio ucraniano Epic Battle, da empresa de apostas Parimatch, vai mais longe: às tantas não sabemos se estamos a praticar desporto com tiques de guerra ou a fazer a guerra como desporto. Epic Battle é um épico de massas, que lembra outro épico de massas, a Big Ad, da Carlton Draught.
Marca: Parimatch. Título: Epic Battle. Produção: Electric Sheep Film. Direcção: Macar Severin, Andrei Copots, Ucrânia, Outubro 2017.
Marca: Carlton Draught. Título: Big ad. Agência: George Patterson Partners. Direcção: Paçul Middleditch. Austrália, 2005.
Domus Aurea: o sonho enterrado (revisto em 07.08.2022)
As primeiras figuras que foram designadas como “grotescas” remontam, pelo menos, ao primeiro século da era cristã. Os frescos fabulosos descobertos nos finais do século XV nas “grutas” subterrâneas das “termas de Tito” pertenciam, de facto, à Domus Aurea, o palácio edificado por Nero após o incêndio de Roma no ano 64 d.C. Era, anacronismo à parte, o palácio de Versalhes da antiguidade romana.
Ocupava entre 40 e 80 hectares, consoante as estimativas, junto ao futuro Coliseu. Ostentava uma cúpula dourada e comportava 300 aposentos. Entre os acabamentos extravagantes, contavam-se frescos com grotescos que cobriam paredes e tectos.
O estilo grotesco já era patente na Domus Transitoria, anterior palácio imperial de Nero (figuras 2). Um século antes, os “grotescos” já se multiplicavam em Pompeia (figuras 3), cuja escavação arqueológica só começou no século XVIII (a partir de 1749). A maior parte das casas de Pompeia adornavam-se com frescos ao jeito grotesco, com efeitos de ilusão a que se associa uma profusão de figuras fantásticas. Um estilo de decoração retomado na Domus Transitoria e na Domus Aurea.
O sucesso da descoberta dos frescos da Domus Aurea, por finais do século XV, acabou por lhes ser fatal. A curiosidade imprudente dos visitantes, o vandalismo, a rapinagem e a exposição aos elementos naturais contribuíram para que poucos fragmentos tenham sobrevivido. Há vestígios de buracos abertos nos tetos para acesso. A humidade, a chuva e a oxidação foram inclementes. A pilhagem dos monumentos e das ruínas em Roma era, na época, de tal ordem que o Papa Benedicto XIV ( 1675-1740) classificou o Coliseu como lugar sagrado para tentar obstar à sua degradação.
Existem gravuras antigas elucidativas de como era a Domus Aurea aquando da sua descoberta. Nos séculos XVI a XVIII, a pintura e o desenho de monumentos eram apreciados. Graças a essas obras, é possível conceber o aspecto exterior ( (Figuras 5 a 7) e interior das ruínas (Figuras 8 a 15).
Francisco de Holanda esteve em Roma entre 1537 e 1540, no rescaldo da descoberta das “grutas das Termas de Tito”. Teve o ensejo de produzir 29 desenhos sobre a decoração da Domus Aurea, com um rigor que, aliás, reivindica, em 1540, para uma das suas cópias: “tal como eu mesmo vi e tal como me coloquei”. Infelizmente, destas 29 gravuras, apenas restam três aguarelas reproduzidas no Álbum dos Desenhos das Antigualhas (Livros Horizonte, 1989): o teto da Sala Dourada, a divisão principal da Domus Aurea (figura 08), e dois frescos parietais entretanto destruídos (figuras 9 e 10).
Volvidos dois séculos, em 1774, Ludovica Mirri, um mecenas da arte, contratou Vicenzo Brenna, Francesco Smuglewiz e Marco Carloni para copiar as decorações interiores da Domus Aurea. Resultaram mais de sessenta gravuras. As figuras 11 a 15 constituem uma pequena amostra dos resultados da missão. A figura 07, da autoria da mesma equipa, é sugestiva da popularidade das ruínas. Convém ressaltar que estas gravuras foram concebidas em finais do século XVIII, em pleno período neoclássico. É possível que, dois séculos após a descoberta da Domus Aura, alguns frescos já não apresentassem contornos tão precisos.
Os artistas não se limitaram a retratar as ruínas e os frescos sobreviventes. Giacomo Lauro, em 1612, e Fischer von Erlach , em 1721, arriscam reconstruir a Domus Aurea original (Figuras 16 e 17). Os seus desenhos não se afastam muito da reconstituição avançada, em 2014, pela Altair4 Multimedia (Figura 18; ver documentário Domus Aurea outside: https://www.youtube.com/watch?time_continue=102&v=5b1xKrVEM0c). Coincidem quanto à envergadura gigantesca, nomeadamente da fachada, e na existência de um lago. O colosso de Nero, uma estátua com 30.3 metros (segundo Plínio, História Natural, xxxiv, 39) não consta das gravuras dos séculos XVII e XVIII.
- 16. Giacomo Lauro. Domus Aurea Neronis. Antiquae Urbis Splendor. 1612. a 1615
- 17. Domus Aurea Neronis. Gravura de Fischer von Erlach. 1721
- 18. Altair4 Multimedia. Reconstituição da Domus Aurea. Exterior. 2014
“A Domus Aurea abraçava toda a Roma” (Plínio, História Natural, XXXII, 54). Apesar da sua imponência, foi destroçada e enterrada em poucas décadas. Nero “suicidou-se” em 68 d.C. O seu sucessor, Galba, declara a herança de Nero não grata (damnatio memoriae). A Domus Aurea começa a ser, de imediato, despojada e entulhada.

19. Ruínas das termas de Trajano
Dois anos após a morte de Nero, em 70, Vespasiano inicia a construção do Coliseu, no espaço do lago da Domus Aurea. Em 81, as Termas de Tito erguem-se sobre os escombros do palácio de Nero. Trajano acrescenta novas termas, também sobre a Domus Aurea (Figuras 19 e 20). Em 121, Adriano inicia a construção do Templo de Vénus e Roma (Figura 1), deslocando para o efeito o colosso de Nero, cuja cabeça tinha sido, entretanto, substituída. Em pouco mais de 50 anos, a Domus Aurea foi arrasada e esmagada por edifícios de grande dimensão. Foi enterrada à nascença.
Fotografias do interior da Domus Aurea
O trenó dos hipermercados
Imaginação, muita imaginação; vontade, muita vontade; e o sonho acontece. Voar num carrinho de compras que faz inveja ao trenó do Pai Natal. Os hipermercados têm a faculdade de transformar os desejos em realidades e as realidades em desejos (ver Albertino Gonçalves, 2002. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado, Comunicação e Sociedade, Vol. 4, pp. 315-319).
Marca: Fotex. Título: Rollo the reindeer. Produção: Nobody Cph. Direcção: Rune Milton. Dinamarca, Novembro 2017.
Fora de pista

Há algo em nós de boneco de neve. Quando nos dá para a estoicidade, derretemos firmes e hirtos (AG).
Está frio! Mas podia estar mais. Partir para a neve. Para uma estância. Daquelas onde bronzeamos de dia e convivemos de noite. Nada como calçar aquelas botas que nos prendem os tornozelos e partir à aventura em cima de duas tábuas. Fora de pista, que a neve pisada é pasmada. O esqui quer-se mais voado do que deslizado. A modos como o protagonista do anúncio Imagination, da The North Face: um esqui Parkour, surf, nos limites, saltado e voado, à medida da imaginação de uma criança.
JP Auclair, a professional freeskier who passed away in an avalanche in 2014, developed the original concept. If you feel a pinch of melancholy, it’s not just your lonely search for lost time; “Imagination” is also an emotional tribute to Auclair from friends and collaborators (Produção).
Marca: The North Face. Título: Imagination. Agência: In House. Estados Unidos. Novembro 2017.
O roubo da identidade
O anúncio Replacement, da Starburst, é um resquício da temporada do Halloween. Versa sobre um roubo de identidade, que acaba por excluir uma criança do seu mundo familiar. No poema Deus, Maria Helena Amaro escreve: “Roubem-me tudo, mas não me roubem Deus!” Uma canção popular elege a cachaça: “Pode-me faltar tudo na vida (…) só não quero que me falte a danada da cachaça”. Pois, salvaguardando Deus e a cachaça, não deve existir pior roubo do que o roubo da identidade. A canção Epígrafe para a arte de furtar aborda o tema: “e de mim mesmo / todos me roubam”.
Marca: Starburst. Título: Replacement. Agência: Team Collaboration. Direcção: Christopher Leone. Estados Unidos, Outubro 2017.
José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz outro amigo também. 1970.















