Os Punk e as aulas não presenciais

Este semestre dou aulas por teleconferência. Sou uma imagem digital. Os alunos moram algures do outro lado do ecrã. Não ligam as câmaras. Televisão versus rádio. É este o retorno. A participação dos alunos é mínima. Exceto no intervalo. Digo disparates e eles verdades. Recomeçada a aula, arrefece a comunicação. Para a próxima, a aula vai ser toda um intervalo.
Hoje, durante a aula, abordámos o imaginário grotesco. Deu-se o exemplo dos punk. Lembrei-me da banda The Offspring. Seguem três vídeos. O segundo é um caso sério de grotesco.
Lembrete. O efeito Frankenstein.

Na embalagem de cigarros, uma imagem deveras feia: uma perna com cortes e suturas (ver, no mosaico, a imagem em baixo à direita). Quem, por coincidência, aguarde cirurgia à perna, não por obstrução das artérias mas por uma veia alargada, deve agradecer esta simpatia ou lembrete de Estado. Não há nada como a propaganda de massas a exalar falta de decoro. Quando o bem se diz com choque é chocante. É terrível e histórica a tentação de pregar o bem com o mau.
O mundo

“Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada” (Zeca Afonso. Minha Mãe, Baladas e Cancões, 1964).
Não me entusiasma a mobilização para a internacionalização. Tão pouco a obsessão pelo rótulo internacional. Aprecio, no entanto, a internacionalidade. Mas mais do que ouvir, em Portugal, que o Fernando Pessoa, a Amália Rodrigues ou o Rodrigo Leão são internacionais, prefiro ouvir em Paris, em Roma ou em Berlim que são portugueses. Não é apenas uma questão de perspetiva. Não é preciso desaninhar nem acumular milhas para se internacionalizar. Basta fazer obra internacional. Existem instituições altamente responsáveis que pensam de outro modo.
“«O Mundo» é uma compilação lançada internacionalmente em 2006 por Rodrigo Leão”.
O Gorila e os Queen
Um anúncio da Peta que não é chocante.
Com auscultadores sem fios

A técnica tem uma característica interessante: permite usos inapropriados. Nos encontros e nas reuniões, dava jeito colocar uns auscultadores sem fios e migrar para outras paisagens sonoras. A música suave não se presta a esta audição clandestina. Corre-se o risco de adormecer. O ideal é uma música brutal. Mas temos que nos treinar a não “abanar o capacete”. É uma tentação usar auscultadores nas aulas por videoconferência. Em quarenta alunos, apenas um tinha a câmara ligada. No ecrã, dezenas de bolachas. Dar uma aula acompanhado pelos Slade deve ser empolgante. Retenho quatro músicas, ao todo 15 minutos. É muito atendendo à vossa disponibilidade, mas pouco comparado com a duração de uma reunião ou de uma aula. E parece-me ser mais divertido.
Pai e filho

No anúncio brasileiro The Journey, da iPlace & Apple, o filho convida o pai para uma jornada rumo à memória e ao rejuvenescimento. Existem vários anúncios sobre a relação entre pai e filho. Alguns, excelentes. Ver, por exemplo: https://tendimag.com/2020/03/04/condicao-de-felicidade-o-efeito-de-idade/ e https://tendimag.com/2017/09/27/entre-geracoes-2/. Neste âmbito, a canção Father & Son, de Cat Stevens, é incontornável. Seguem duas versões: na primeira, gravada em junho, com 72 anos, a interpretação é simples e despojada (o vídeo foi colocado no YouTube pelo próprio Cat Stevens); a segunda versão corresponde à versão original no vídeo oficial.
Ressurreição digital
Joaquin Oliver, de origem venezuelana, foi uma das dezassete vítimas de um tiroteio indiscriminado numa escola de Parkland, na Florida, em 2018 Tinha 17 anos de idade. A campanha The Unfinished Votes é apoiada pela Change the Ref, instituição que “visa formar futuros líderes, facultando aos jovens as ferramentas de que necessitam para introduzir mudanças em questões críticas que afetam a nação, por meio de educação, conversação e ativismo”. No anúncio, aparecem os pais de Joaquin Oliver, bem como o próprio Joaquin, regressado à vida por artes digitais. Criticam a política relativa às armas e apelam ao voto.
Estranho, muito estranho. Nenhum anúncio me provocou tamanha estranheza.
Abrir a porta

Não sei porque escrevo, nem para quem! Não escrevo para convencer, nem sequer para seduzir. Não sou um almocreve de ideias e sentimentos. Escrevo porque me dá prazer! Com ironia e uma pitada de poesia. Gosto de dar ao mundo letras que dançam desequilibradas. Escrevo enquanto me dá prazer. Já me preocupei com as coisas e as pessoas. E pouco aprendi. As pessoas, as pessoas são fantásticas. Andam tão ocupadas. E eu a ruminar à sombra como uma vaca grávida! A ponte une mundos; a porta separa-os, mas liga e desliga. Já não estou onde estou. A porta é uma tentação. Acontece cair em melancolia, mas esta melancolia não presta, não vem de dentro mas de fora. Não aprecio a melancolia azeda, esgrimida, mas a melancolia destilada, que pinga gota a gota, depois de muito penar no alambique.
Hoje, o meu amigo faz anos, os mesmos que eu. Creio que ainda gosta destas músicas. As duas primeiras remontam aos tempos de estudante. A terceira é especial. Acompanhou-nos numa viagem entre Monção e os Arcos de Valdevez, pela estrada de Sistelo. A música é amiga da memória.


