O trovador

Compositor, cantor, multi-instrumentista, “trovador”, Angelo Branduardi destaca-se como um dos artistas mais emblemáticos da Itália contemporânea. Nos anos setenta, obteve um franco sucesso em França. Algumas das suas canções são em língua francesa. É o caso de uma das canções selecionadas (La demoiselle). O intercâmbio entre a Itália e a França não é de menosprezar. A este propósito, Jean Cocteau graceja: “os italianos são franceses com bom humor”. Já coloquei várias músicas do Angelo Branduardi: La Luna; Alla Fiera Dell’ Est; La Pulce D’Acqua; Ballo in fa diesis minore; e Si può fare. Coloquei ainda a música Nelle Palludi di Venezia, com Teresa Salgueiro (ver https://tendimag.com/2015/04/24/a-passo-de-caranguejo-a-cancao-da-morte/). Seria estranho neste ciclo do Tendências do Imaginário dedicado à Itália ignorar Angelo Branduardi. Tem mais de vinte álbuns publicados. Dá para retirar mais três canções: Gli Alberi Sono Alti (1975); La Demoiselle (1979) e Confessioni di un malandrino (1980). É demasiado. A maior parte das pessoas não vai gostar. Mas os outros vão consolar-se.
Homofobia na Rússia
No dia 1 de Julho, ocorrerá um referendo na Rússia, com várias propostas a votação. A mais notória é a possibilidade de o presidente (Vladimir Putin) poder renovar mais dois mandatos. Entre as demais propostas, consta o princípio de um casamento apenas entre um homem e uma mulher. Enquadrado nesta perspectiva, o anúncio russo Adopção, da Agência da Informação Federal, posiciona-se contra a adopção de crianças pelos homossexuais. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/agence-d-information-federale-adoption-2/.

Coro dos ciganos

Em vinte dias de férias em Itália, engordei três quilos. Recordo um restaurante na praia de Lignano Sabbiadoro. Foram horas solitárias de antipasto, primo piatto (massas), secondo piatto (prato de resistência), formaggi (queijos) e dolci (sobremesa). Camilo Castelo Branco falava em coração, cabeça e estômago. Há quem pense com o coração e sinta com a cabeça. No que me respeita, sinto e penso com o estômago.

Não é de estranhar que um belo “escalope al marsala” me lembre Giuseppe Verdi. Garantia Verdi que não trocava a Itália pelo mundo inteiro. Também não troco Portugal. Quando ouvi, pela primeira vez, as aberturas de Verdi foi uma revelação. Os coros são cósmicos. Saem das entranhas e para as entranhas regressam. Rivalizam com os melhores riffs de guitarra da história do jazz, do blues e do rock.

O Tendências do Imaginário já inclui o “Coro dos escravos hebreus” (Nabucco, 1841) e “La Donna è Mobile” (Rigoletto, 1851). É a vez do “Coro dos ciganos” (Il Trovatore, 1853). Convoca a vulnerabilidade e a potência humanas. Coloco dois vídeos com o mesmo excerto. Duas interpretações excelentes e distintas: uma no anfiteatro de Orange; a outra, na Ópera de Paris. Quando se faz difícil escolher, faço como o burro de Burídan: não escolho.
Incompreendido

A Itália é um santuário do cinema. Os anos cinquenta e sessenta foram gloriosos. Sobressaem o neorrealismo e a comédia. O filme Incompreso (Quando o amor é cruel, em Portugal), de Luici Comencini (1966), não é neorrealista nem cómico. Após a morte da mãe, o pai pede ao filho mais velho (Andrea) para manter segredo perante o irmão mais novo (Milo), bem como para o proteger. Acontece que, dos dois irmãos, o mais frágil é o mais velho. A situação agrava-se culminando na morte de Andrea. É um filme sobre o luto, a vulnerabilidade humana, a solidão e a incomunicação entre gerações (pai e filho). O filme é um melodrama denso e opressivo. Um misto de olhar psicológico e microssociológico. O Incompreendido é um filme marcante. Vi-o com o Marino Trancoso, um amigo jesuíta colombiano, que fez doutoramento com Claude Bremond. Faleceu há anos. Um dos principais anfiteatros de Bogotá tem o seu nome. Tanto olho para trás que fiquei com a cabeça torta e o pescoço dorido.
Consultei a Wikipedia a propósito do cinema italiano. Propõe uma lista com os trinta “principais directores”. Não contempla o Luigi Comencini. Tenho um gosto depravado; não acerto nos valores consagrados. Resolvi aceder à versão em inglês. Nos primeiros lugares, aparecem Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Ettore Scola, Sergio Leone e, em oitava posição, Luigi Comencini. Na Wikipedia portuguesa ocorreu, algures, um lapso.
Segue o filme completo, original, com legendas em inglês.
Nuvens azuis. Ludovico Einaudi

Franceses, espanhóis, portugueses e italianos, somos latinos. Quase PIG, não fosse a Grécia grega e a França, galo. Estranhamos o distanciamento social. Nada como um abraço, uma mão nas costas, outra no ombro, eventualmente, um encosto. Gosto-me latino. Ou, eventualmente, galego celta.

O que tem isto a ver com o Ludovico Einaudi? Nada, conversa fiada. A conversa fiada é primordial na socialização e na comunicação humanas. Erving Goffmann sublinhou esta importância na tese de doutoramento On Cooling the Mark Out, nas ilhas Shetland, defendida em 1952, sob a orientação de Gregory Bateson (Goffman, 1981; Goffman, 1988).
É provável que quem goste de Ezio Bosso, Philip Glass e Yann Tiersen, goste também de Ludovico Einaudi. O Daniel Noversa partilhou, no Facebook, o álbum Seven Days Walking // Day Three, de Ludovico Einaudi. Já publiquei a música Passaggio (Le Onde, 1996; ver https://tendimag.com/2018/05/23/o-espirito-de-erasmo/). Hoje, acrescento Nuvole bianche (2004), Primavera (2006) e Divenire (2006).
Referências Bibliográficas:
GOFFMAN, Erving (1981). Forms of Talk, Philadelphia: University of Pennsylvania Press.
GOFFMAN, Erving (1988). Les moments et leurs hommes, Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris: Seuil/Minuit.
E depois de nós

Acabaram as aulas. Com uma sombra de amizade. As aulas vêm e vão. São um intervalo. Aquilo que esquece, também perdura… Seguem o fabuloso anúncio Kill The Gun, com a ária Casta Diva, do italiano Vincenzo Bellini (1801-1835) , mais a canção E Depois Do Adeus, de Paulo de Carvalho.
À espera do inimigo

Num texto publicado no Facebook, no dia 2 de Junho, José Miguel Braga escreve:
“Qualquer bocadinho de sono me serve. Puseram-me de sentinela e o inimigo pode aparecer por ali, está a ver, meu coronel, detrás daqueles montes, é por onde se diz que virá a invasão. Quem diria que ainda vinha dormir uma noite ao “Deserto dos Tártaros”! Leiam, leiam, é um belo livro do Dino Buzzati.”

Nos anos setenta, uma amiga italiana ofereceu-me o Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, publicado em 1940.
Retribuí com Un amore, do mesmo autor, publicado em 1963.
Dino Buzzati é um dos grandes escritores do século XX. Não há mapa mental que o apague.
Acarinho a cultura italiana. Um quase nada esquecido deixa-me bem-aventurado.
Paolo Conte é um veterano da canção italiana. À semelhança de Jacques Brel, Edith Piaff ou Sérgio Godinho, reconhece-se uma música antes de ela começar. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções de Paolo Conte: Via Con Me e Sparring Partner. Acrescento Azzurro.
Quando a alma fecha a porta

A alma adormeceu. Ezio Bosso (1971-2020), compositor, maestro e pianista italiano, faleceu há três semanas, vítima de doença neurodegenerativa. Desde setembro de 2019, sem agilidade nas mãos, deixou de tocar piano. Gosto da cultura italiana. Sou latino. As músicas Clouds, The mind on the (Re)Wind e Rain, in Your Black Eyes são excelentes para elevar a alma. Acrescento uma pequena reportagem, Concerto per la terra, capaz de a estremecer.
Mocidade académica. O amor burocrático

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.
Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:
Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
Faremos tudo, tudo para aprender.
Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”

Crónica do subterrâneo

O mundo tem altos e baixos, cumes e subterrâneos. Deixei-me sentar na cave. Pouca luz, pouco ruído, pouca humanidade, alguma ressonância do ego. Há quem afirme que o mal se combate com o mal, homeopaticamente. Se alguém estiver a afundar-se nada melhor do que lhe colocar uma pedra em cima. As músicas de Klaus Nomi são boa companhia para uma passagem pelo subterrâneo. Gosto do Klaus Nomi, um artista com um excedente de originalidade: cultura, voz e presença notáveis. Foi uma das primeiras vítimas da sida, em 1983. Sinto-lhe a falta. Sinto, também, que estou a sair da cave. Acima dos pés, o humor passou os joelhos rumo à barriga.
