A rosa do pensamento

O anúncio The Leap, da libanesa Ten Herbs, aborda um tema delicado. Assumimos o corpo, mas não todo. Persistem partes e funções que só são dizíveis graças a metáforas, sublimações e eufemismos. É o caso do aparelho digestivo. Se a alimentação se descobriu arte, a arte de comer, defecar releva de um vanguardismo deslocado, a arte de chocar. Se os anúncios da Benetton se celebrizaram por dizer o chique com choque, os anúncios, como o The Leap, dizem o choque com uma linguagem chique.
The Leap lembra os duelos finais dos filmes de Sergio Leone: Por um punhado de dólares (1964) e Era uma vez no Oeste (1969). Cada personagem espera, sem sair da sua posição, o desenlace. O alívio ou a morte.
Gosto que uma realidade me lembre outra. A propósito e a despropósito. Sem genealogia, algoritmo, função, ética ou poética. A lembrança, a associação de ideias, é um pouco como a rosa de Angelus Silesius: “A rosa é sem por quê. Floresce porque floresce”.
Amor em tempo de feira

“Scarborough Fair” é uma balada britânica de origem medieval em que uma pessoa pede à pessoa amada proezas impossíveis. Um tema recorrente no universo dos contos. Scarborough é uma cidade que tinha, na Idade Média, uma das feiras mais importantes de Inglaterra. Segue a balada em duas versões: instrumental clássica, interpretada por Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra); e canção pop, interpretada por Simon e Garfunkel. Pode encontrar a letra e a tradução da balada neste endereço: https://pt.wikipedia.org/wiki/Scarborough_Fair .
O regresso do gato

O gato desapareceu sem aviso prévio. Regressou ao décimo sétimo dia. Magro, assustadiço e carente. Para lhe dar as boas vindas, coloquei a versão mais antiga da música Grantchester Meadows, dos Pink Floyd. Um solo de Roger Waters. Começa com pássaros a cantar. Espetou as orelhas, inspecionou a sala e olhou para mim como quem diz: “de pássaros, percebo eu”. E saiu, devagar, deixando-me com a cantoria dos Pink Floyd. Prosseguindo com o canto dos pássaros e os Pink Floyd, acrescento a música Cirrus Minor, do álbum More (1969).
Morrer só uma vez. Humor negro

Pega num cigarro tranquilo. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Qual era a frase de ontem? “Fumar causa o cancro do pelo”? Ou algo parecido. Estava a viciar-se em mensagens anti tabaco. Sentou-se na varanda. Alinhou umas letras. Pousou o cinzeiro e os cigarros sobre o papel. E saltou.
O delegado afastou o cinzeiro e o maço de cigarros. No papel, uma frase singela: “é preferível uma única morte a tantas quantas nos prometem”. O bafo do Estado não engana: “o Homem é um ser para a morte”. Escusava, talvez, ser uma vanitas tão briosa. Existem anúncios anti tabaco que se resumem a espantalhos mórbidos.
Morte flutuante

Não é a primeira vez que proponho aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho prático apostado na relação entre autores, obras, correntes ou eventos de dois géneros artísticos distintos. A arte, concebida num sentido abrangente, pode incluir, por exemplo, videojogos, anúncios publicitários, street art… Trata-se de um desafio para os alunos e para o professor. Todos aprendemos, embora, sobranceiros, os doxósofos passem por estas iniciativas como quem passa por um amontoado de silvas.
Durante a apresentação dos trabalhos, já lá vão dois meses, pedi autorização à Ana Berenguer para publicar, no Tendências do Imaginário, o seu trabalho Ophelia: A sua inspiração e a sua representação na Pintura e na Cultura Pop.
Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Ao pdf do trabalho da Ana Berenguer, já por si muito rico, acrescento um vídeo da pianista Khatia Buniatishvili, que convoca, também, o corpo flutuante de Ophelia.
Seguem o trabalho da Ana Berenguer (para aceder “descarregar”) e o vídeo de Khatia Buniatishvili.
Chamem os palhaços!

É raro estar calado! Por defeito, falo. Desfaço-me em palavras, salvo quando escuto boa música. Composta por Stephen Sondheim, a canção Send in the Clowns (A Little Night Music, 1973) foi interpretada, entre outros, por Frank Sinatra, Kenny Rogers, Judy Collins, Lou Rawls, Barbra Streisand e Sarah Vaughan.
“O título refere-se a uma suposta frase do jargão circense e do teatro vaudeville, usada quando acontecia algum evento inesperado durante a apresentação (normalmente, desastres como a queda de um acrobata ou um número excepcionalmente mal-apresentado). Para distrair a atenção do público, enquanto o problema era resolvido, os palhaços entravam em cena. A mesma “diversão” (literalmente falando) ainda é usada hoje em dia pelos palhaços de rodeio, quando o vaqueiro leva uma queda e a montaria precisa ser distraída enquanto ele se põe a salvo” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Send_in_the_Clowns).
A interpretação de Bernardette Peters é acompanhada ao piano pelo próprio Stephen Sondheim, que aproveita a ocasião para sublinhar que “teaching is a sacred profession and art is a form of teaching”.
Ouvir a dobrar nem sempre é perda de tempo. Judi Dench é uma das maiores actrizes britânicas do pós-Guerra. Conquistou inúmeros prémios, entre os quais um Óscar. Na comemoração dos 80 anos de Stephen Sondheim, interpreta a mesma canção, Send in the Clowns, mas com uma voz e uma sensibilidade diferentes. Nem sempre é possível comparar técnica e sentimento.



