Archive | Agosto 2017

Go east!

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Estou orientado. Cara a oriente. O meu rapaz fotografou o pôr-do-sol por altura do eclipse do dia 21 de Agosto. Resultou uma série apreciável de fotografias do regresso crepuscular da luz.

Segundo Edward T. Hall, os ocidentais tendem a ser “monócronos”, fazem uma tarefa de cada vez. A fazer fé no anúncio chinês Piano, do Windows 8, os orientais são “polícronos”: conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, trabalhar e jogar.

Marca: Windows 8. Título: Piano. Agência: JWT Beijing. Direcção: Jon Jing Zhu. China, 2013.

Estúpidos

São inúmeros os nomes atribuídos à sociedade contemporânea. Sociedade parva também cabe na lista. Somos uma SARL: Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. O anúncio brasileiro Be an asshole, da Sociedade dos amigos da Amazónia, é uma boa introdução à estupidez, à inércia e à dissipação humanas.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço para aceder ao vídeo: http://www.dailymotion.com/nu-jeans.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Anunciante: Sociedade dos amigos da Amazónia. Título: Be an asshole. Brasil, 2009.

O Cruzeiro do Senhor do Galo em Barcelos (revisão)

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior.

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior

Vale a pena visitar o Cruzeiro do Galo, em Barcelos. Outrora localizado perto da forca, agora situado no Museu Arqueológico da cidade, é uma obra única, de traço popular, porventura do início do séc. XVIII. Um exemplo ímpar da arte de contar com poucas imagens difíceis de esculpir: o galego “enforcado”, São Tiago a ampará-lo e o galo, combativo e matinal, a iluminar as trevas; no topo, Cristo na cruz. No lado oposto, São Bento (?), Nossa Senhora (?), o sol e a lua. Impressiona a centralidade da morte: o “enforcado”, o galo renascido e Cristo crucificado. Tudo gira em torno do galo, símbolo associado ao sol nascente e à ressurreição:

“O galo é também um emblema de Cristo, como a águia e o cordeiro. Mas assume especial relevo o seu simbolismo solar: luz e ressurreição” (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 1982, Dictionnaire des symboles, Paris, Robert Laffont/Jupiter, p. 282).

Impressiona, também, a elevada cristalização simbólica: Cristo, Nossa Senhora, São Bento e São Tiago, as figura sagradas mais influentes no noroeste peninsular, o galo, o sol e a lua e, naturalmente, a forca. Uma carga simbólica difícil de igualar.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior

Amaral Ribeiro, na sua Notícia sobre a Villa de Barcelos, de 1867, descreve, de forma sistemática, a iconografia do Cruzeiro do Galo:

“Na face anterior da coluna tem lavrada em relevo a figura de um homem pendente de uma corda bamba, amarrada ao pescoço; por baixo, outra figura com a cabeça e com a mão esquerda na atitude de suster as plantas dos pés do homem que pende do laço e tendo na mão direita um bordão com a cabaça, pelo que denota ser Santiago. Na face posterior, tem em cima, a um canto, a figura do sol, e no outro a da lua; ocupa o centro uma figura que parece ser Nossa Senhora; por baixo, outra que se assemelha a São Bento por ter na mão direita um cajado e na esquerda um livro aberto. Em cima da coluna, como vai dito, assenta uma cruz com peanha. A cruz, de um e outro lado, tem esculpida a imagem de Cristo crucificado. A peanha, em cima da cabeça do justiçado, apresenta a figura de um galo; na outra face, divisam-se os traços de um dragão” (Ribeiro Amaral, 1867, citado em http://www.summagallicana.it/lessico/b/Barcelos.htm).

 

A Lenda do Galo não é simples, mas pode resumir-se em poucas palavras.

Dois galegos, pai e filho, dirigem-se em peregrinação a Santiago de Compostela. Entram numa estalagem. A dona conhecida pela sua beleza encara com o jovem galego. Procura, em vão, reter os clientes. Mal retomam viagem, a guarda aprisiona o mancebo. A estalajadeira escondeu talheres de prata na sacola do galego e denunciou o roubo. O jovem galego foi condenado à forca. O pai acode ao juiz que lhe diz que só acredita na inocência do condenado se o galo assado começar a cantar. Dito e feito. O galo cantou como nunca. Mas chegara a hora de executar a sentença. O pai e o juiz não chegam a tempo, mas… a corda estava frouxa; São Tiago amparava o condenado, vivo, pelas plantas dos pés. Com Nossa Senhora e S. Bento prontos a ajudar.

05. Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

“Segundo a tradição popular o galego regressou uns anos mais tarde a Barcelos, onde esculpiu o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento datado do início do século XVIII” (O Galo Lendário. Calçada da Miquinhas: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Numa lenda popular, o diabo costuma ter lugar cativo. Neste caso, veste as saias da estalajadeira, a instigadora da crise. À justiça não se pode querer mal por ser aquilo que é: cega. Os galegos são as vítimas. São Tiago resgata o peregrino. O protagonista é o galo.

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

A Lenda do Galo de Barcelos é percorrida por dois eixos, ou movimentos: o eixo do bem, desde a chegada dos peregrinos a Barcelos até ao regresso do galego para a construção de um ex-voto enorme, o Cruzeiro do Galo; e o eixo do mal, que vai desde encantamento da estalajadeira até à forca. Este segundo eixo interrompe ou suspende o primeiro eixo. O terceiro eixo, o da justiça, é coadjuvante. Opera uma inversão: o mal inicial converte-se no bem final.

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

A intervenção do galo, embora curta, coloca-o no centro da lenda. Vigilante e protector, o galo ergue-se nos cataventos e nas torres das igrejas. Rocha Peixoto, em 1899, caracteriza o galo nos seguintes termos:

“Na impressão que as aves exercem destaca-se a que produz esta [o galo], visivelmente pelos costumes dominadores e másculos. Altivo e majestoso, vigilante e cúpido, todo o povo o celebra, em contos, em superstições, em cantares:
Este galo é malvado,
Desonrador das galinhas
Inda bem não amanhece,
Já anda pelas curtinhas. (…)
Foi ele quem afirmou a divindade de Jesus quando os apóstolos, à mesa, duvidavam; é ele quem se antecipa a anunciar as alvoradas:
Canta o galo, abre a luz.
E grande é o seu poder sobre as entidades maléficas das trevas, já celebrado nos hinos da Igreja e nos cantos populares, antigo e extenso na simbólica grega, por exemplo, no Avesta em que o canto do galo obriga os demónios a fugir, desperta a aurora e faz erguer os homens” (Rocha Peixoto, 1990 [1899], Etnografia Portuguesa. Indústrias populares. As olarias de Prado, in Etnografia Portuguesa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, pp. 89-132, p. 115).

Importa relevar dois traços da simbologia do galo.

O galo, tal como o cão, é um animal psicopompo (guia das almas; junção do grego pyché, alma, e pompos, guia). O galo procede à mediação entre bipolaridades: o dia e a noite, o céu e a terra, o bem e o mal. No caso do cruzeiro do Senhor do Galo, destacam-se duas bipolaridades: a vida e a morte e a verdade e a mentira. As gravuras medievais das ars moriendi evidenciam o papel do galo como animal psicopompo. O galo aparece empoleirado no quarto dos moribundos, algumas vezes na própria cabeceira da cama (ver O Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). A particularidade de o galo ser um símbolo psicopompo manifesta-se útil para a interpretação da lenda e do cruzeiro do galo.

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

Contemplamos, até ao momento, o lado anterior do cruzeiro. É tendência predominante nos diversos textos a que tive acesso. Na parte posterior, identifica-se S. Bento e Nossa Senhora, o sol e a lua, mais um presumível dragão. Mas, qual é o papel de S. Bento? E de Nossa Senhora?…

O sol e a lua expressam o poder de Cristo sobre o mundo. E são ofuscados pelo brilho de Nossa Senhora. Na mesma lógica, os quatro elementos e as quatro estações de Giuseppe Arcimboldo representam o poder do imperador sobre o espaço e sobre o tempo, logo sobre o mundo. Simplificando, e sem relevar que o sol e a lua são símbolos alquimistas retomados pela maçonaria, o sol e a lua conferem uma dimensão cósmica ao evento. A interpretação é plausível, o que não obsta a outras conjecturas e derivações. O galo é, por excelência, um símbolo solar. Anuncia a luz do dia. Mas quando canta, a noite ainda não desapareceu.

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

Para Rocha Peixoto, “grande é o poder do galo sobre as entidades maléficas das trevas”. Existem crenças e rituais que convocam a componente nocturna do galo. No imaginário, as demarcações não são rígidas. O mundo não se apresenta a preto e branco. Comporta travessias e paradoxos. O mundo é contradictorial, na acepção de Gilbert Durand (1979, Figures mythiques et visages de l’oeuvre: De la mythocritique à la mythanalyse, Paris, Berg International). Os contrários não se anulam, nem se ultrapassam, coexistem, dando margem à ambiguidade e à ambivalência. Símbolo solar, o galo também pode ser lunar. Na mitologia grega, o galo estava consagrado aos deuses solares, mas também às deusas lunares. “O galo está ao lado de Leto, grávida de Zeus, quando ela dá à luz Apolo e Artemis. Também é, igualmente, consagrado, a Zeus, a Apolo, a Leto e a Artemis, ou seja, aos deuses solares e às deusas lunares (Chevalier, Jean, Dir, 1986, Diccionario de los Símbolos, Barcelona, Editorial Herder, p. 521).

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450.

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450g

O dragão costuma oferecer-se como uma imagem do mal, do diabo que se insinua na lenda do Galo. E Nossa Senhora e São Bento, que significam? São Bento é exorcista; combate o diabo. Nossa Senhora também nos livra do mal. Ambos nos protegem dos demónios. Por outro lado, Nossa Senhora e São Bento são as figuras sagradas mais veneradas na região. A esta luz, o cruzeiro do Senhor do Galo lembra uma gravura das Ars Moriendi: na hora da morte, o moribundo é rodeado por figuras divinas e demoníacas, que lutam pela salvação ou pela condenação de sua alma (ver o Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/).

11. Galo de Barcelos

11. Galo de Barcelos

Uma última pergunta: que ligação existe entre o cruzeiro do Senhor do Galo e o famoso galo cerâmico de Barcelos? Aparentemente, pouca, se não nenhuma. Estima-se que a construção do cruzeiro do Galo remonta aos inícios do século XVIII. O galo de Barcelos, com a estilização e os atributos actuais, data de meados do século XX. Desde finais do século XIX, existem exemplares, imagens e referências a galos da olaria de Barcelos, mas ainda são “protogalos”, segundo a expressão de João Manuel Mimoso (Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). Estes “protogalos” não passaram despercebidos ao Estado Novo e aos “comissários” dedicados ao estudo, estilização e promoção das artes e tradições populares. Por iniciativa de António Ferro e Leitão de Barros, e participação de Artur Maciel e Manoel Couto Viana (impulsionador do traje à vianesa), foram oferecidos, num congresso internacional, no Estoril, em Setembro de 1931, galos de cerâmica. A seu tempo e a seu modo, o SPN/SNI também se interessou pelo “protogalo”de Barcelos. “Por ocasião da Exposição do Mundo Português, se produziram milhares de peças, entre reproduções do figurado antigo, e novidades por ele mais ou menos inspiradas” (Mimoso, João Manuel, Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). O Galo de Barcelos corporiza um daqueles ovos de Colombo que o Estado Novo prezava: o local como caso particular do nacional.

 

O facto de um fenómeno emergir dois séculos depois de outro não é obstáculo à sua ligação. Apenas não nasceram juntos. Para haver relação, basta, por exemplo, que o segundo se inspire no primeiro. A maioria da informação a que acedi não aponta no sentido de uma conexão. Sobressaem, contudo, obras célebres que sustentam o contrário (por exemplo, Lima, Fernando de Castro Pires de, 1965, A Lenda do Senhor do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado, Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Trata-se de um assunto polémico e confuso.

São vários os supostos criadores originais do Galo de Barcelos. Domingos Côto, o “pai” mais “consensual” do Galo de Barcelos, dessacraliza o acto fundador:

“Estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao meu irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e a gente virou p’ra isto que aí vê” (citado em “O Galo Lendário”: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Mas para toda a afirmativa, existe sempre outra afirmativa:

“Procurei junto dos familiares do “pai” do Galo de Barcelos cimentar a questão em causa. Todos afirmam que foi Domingos Côto que fez o primeiro galo de barro e que o fez inspirado na lenda do Galo de Barcelos. Dos familiares desse oleiro, destaca-se um: Júlia Côta, neta de Domingos Côto, e insigne artesã (…) Quando lhe perguntei por que razão é que o avô começara a fazer os galos e donde é que lhe veio a ideia, Júlia Cota respondeu convicta sem hesitação: “Olhe! Foi a partir da Lenda do Galo que o meu avô começou a fazer galos” (“Galo de Barcelos”: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/).

Carlos Alberto Ferreira de Almeida sublinha o momento em que começou a vingar a narrativa que associa o galo cerâmico ao galo da lenda:

14. Galo de Barceleos. Cleção do Museu de Arte Popular, em Lisboa.

14. Galo de Barcelos. Colecção do Museu de Arte Popular, em Lisboa

“A lenda que o cruzeiro do Senhor do Galo, entretanto também chamado de Barcelos, nos ilustra não parou na sua capacidade de originar fenómenos culturais. A lenda do cruzeiro do Senhor do Galo era de há muito conhecida. Objectivamente e até 1963, ela não teve nada a ver, nem geográfica, nem cronológica, nem mentalmente, com a figura do galo cerâmico que o turismo lançara e tanto desenvolveu. Naquele ano, F. Pires de Lima publica um livro sobre A Lenda do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado (Lisboa, 1963) a que se seguiu uma conferência local, onde o autor ensaiou o estudo comparativo dessa narrativa e afirmou a possibilidade de ter havido uma relação entre o galo da lenda e o da cerâmica. Poderá parecer, mas, até esse momento, não havia qualquer ligação. Mas tanto bastou para que pessoas locais o passassem a acreditar e os agentes e guias de turismo o divulguem mais. E o galo que era já um númen da cidade de Barcelos e tinha uma ascendência muito curta e até envergonhada por ser um simples fenómeno de quadro da feira de Barcelos e do turismo ficou com uma apetecida origem religiosa. E assim nasceu um mito (ALMEIDA, Carlos, 1990, Barcelos. Cidades e Vilas de Portugal, Lisboa, Presença, pp. 99-100).

O testemunho de Carlos Basto recolhido por Elisabete Muga Rodrigues (2008, O galo de Barcelos. Do Mito, do Símbolo e do ícone, dissertação para a obtenção do grau de mestre, Universidade Lusíada, Lisboa, p. 32) aponta no mesmo sentido: “que esta união entre Lenda e Galo terá acontecido no meio de uma conversa entre este e Simplício de Sousa ao qual Pires de Lima também assistia. Carlos Basto terá achado a ideia ridícula e assegurado que a Lenda e o Galo não tinham qualquer relação ou fundamento histórico, mas Simplício de Sousa (forte impulsionador das primeiras feiras de artesanato realizadas em Barcelos) terá afirmado que, independentemente de não ter fundamento histórico, havia muito interesse turístico”.

 

Para que dois fenómenos culturais se associem, não é necessária uma relação objectiva, basta que se ergam pontes entre ambos. Basta uma “autoridade” assegurar que a ligação existe e haver quem acredite. A ligação passa a existir e torna-se viva. Os interesses comandam, as comunidades imaginam-se, as tradições reinventam-se e as identidades são como o barro, moldam-se.

Segue “a mais antiga e mais completa versão escrita da Lenda do Senhor do Galo” (Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877). Está acessível na página do projeto maisBarcelos: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/

Lenda do Senhor do Galo

“Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, talvez no mesmo sítio do Senhor do Galo, havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo (e quem senão ele!) que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de um galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. Ver a estalajadeira ao mancebo e ficar enfeitiçada com ele, foi o momento, posto que o filho do galego não fosse acometido da mesma paixão que levou aquela até aos pontos que o leitor vai ver. Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida.

Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:

– Em nome d’El-rei, estás preso.”

Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça.

O peregrino prosseguiu imperturbável a sua visita a Santiago, depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor.

Nesse dia e na mesma hora em que deveria ser executada a sentença valeu-se o galego pai da sua peregrinação e, cheio de pesar com a notícia do que se passava, foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudir a salsa e começar a cantar foi um abrir e fechar de olhos.

Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!… O réu via-se dependurado da viga fatal… Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado.

… eis a tradição, transmitida ao longo dos anos, que deu origem ao cruzeiro do Senhor do Galo.”

(Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877)

 

Originalidades

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O anúncio Original is never finished chapter3, da Adidas, arrisca tornar-se num marco no mundo da publicidade. Tema arrojado, imagens primorosas e intertextualidade subtil. Ironicamente, a originalidade é declamada com citações. A originalidade não acaba, recria-se. Por exemplo, a canção do anúncio, My Way, associada a Paul Anka e Frank Sinatra, é, afinal, uma originalidade francesa: Comme d’habitude (1967), com autoria e interpretação de Claude François. Nada como ser original graças à originalidade dos outros. Ser original em segunda mão. Reoriginalidades.

Marca: Adidas. Título: Original is never finished chapter3. Agência: Johannes Leonardo New York. Estados Unidos, Agosto 2017.

O romantismo atribui a originalidade ao indivíduo e ao génio. Esquece que a originalidade requer poder. Para ser original, a inteligência e a criatividade não bastam. Sem posição, alavanca e recursos, resulta improvável o reconhecimento como original. A originalidade é cada vez mais um luxo da academia dos Balnibarbos (Swift, Jonathan, 1726, As Viagens de Gulliver, Terceira Parte, Capítulo V). Não tarda a originalidade ser instituída por decreto. “Segundo publicação no Diário da República (…), está aberto concurso para originais (…) O júri é composto por clones especialistas na padronização do espírito”.

Não se deve brincar com coisas sérias! Caminhamos para um mundo que não sabe distinguir entre originalidade e repetição. Receio que as tendências actuais na organização da actividade científica (infografias, concursos, avaliação, financiamento) concorram para um menosprezo crescente do valor da originalidade.

 

 

Exorcismos

O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)


  1. A Fuga dos demónios


01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV
01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387
02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714
03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).

 

Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.

 

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.

2. Esqueletos vampiros

O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII.
09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII

Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI
10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII
11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI
12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi decepada e colocada ntre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI
13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:

“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas ​​para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Sec XIII
14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Séc XIII

A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).

Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.

National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002 [Recuperado em 05.08.2026]

O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.

Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.

O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. [Vienna Philharmonic & Zubin Mehta. Summer Night Concert 2015. Recuperado em 12.08.2028]

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.

A solidão como companhia

Edvard Munch. Melancolia, 1894-6

Edvard Munch. Melancolia, 1894-6

O melancólico sente-se menos só sozinho.

Black Mountain Blues Band. Green Onions. Rock this place. 2001

O melhor tempero

Nandos_logo.svgEsta estância balnear tão recatada encheu-se de centenas de jovens vestidos de preto! Ouvem-se as carpideiras electrónicas. Apetece-me despistar.
A cadeia Nando’s, com cerca de 30 000 restaurantes em 35 países, tem ADN português: o engenheiro de som Fernando Duarte foi fundador. O símbolo, o galo de Barcelos, não engana! A Nando’s aposta em anúncios burlescos, se não brejeiros. Quinze anos separam os anúncios Toilet Roll (1996) e Last Dictator Standing (2011). Em 2010, a Advertising Age colocou a Nando’s no top 30 mundial das hottest marketing brands. Mereciam o top 10 se a música fosse portuguesa. O anúncio Last Dictator Standing ganhava com a companhia do Quim Barreiros e do Bacalhau à Portuguesa. É “melhor tempero”.

Marca: Nando’s. Título: Toilet Roll. Agência: TBWA. África do Sul, 1996

Marca: Nando’s. Título: Last Dictator Standing. Agência: Black River FC  Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. África do Sul, 2011

Quim Barreiros. Bacalhau à portuguesa. Ao vivo em Setúbal

A Cadeira de patinhar

É no vazio do pensamento que o mal se instala” (Hannah Arendt).

Nós somos bons a fazer o mal. O Marquês de Sade não é um caso isolado. Qualquer dúvida evapora-se com uma visita a um museu, ou exposição, de instrumentos de execução ou tortura. Por exemplo, o Museu da Tortura de Amesterdão. Saimos estarrecidos com tanto engenho, imaginação e requinte em matéria de sofrimento e morte.

Ducking Stool. Tortura por imersão na água. Séc. XVII

Ducking Stool. Tortura por imersão na água. Séc. XVII

Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, durante os reinados de Isabel I e Jaime I, a bruxaria foi severamente perseguida. Recordem-se, do outro lado do oceano, as “bruxas de Salém (1692). Além da fogueira e da forca, pontificavam inúmeros recursos disciplinares. Por exemplo, the ducking stool, a “cadeira de patinhar”. Sentada e suspensa numa cadeira, a mulher acusada de bruxaria, de prostituição ou de outros crimes era mergulhada, repetidamente, na água. Tratava-se de um teste que, devidamente interpretado, pode resultar no seguinte dilema: se a mulher afogar, é inocente; se não afogar, é culpada e castigada em conformidade. Tratava-se, também, de mais um método de execução e humilhação pública. Em local exposto, o público não se fazia rogado. Constituía um espectáculo! Um espectáculo do poder! De quem detém a responsabilidade e legitimidade de vigiar, julgar e punir.

17th century punishment for 'disorderly women' in #Manchester. The ducking stool at the Daub Holes

17th century punishment for ‘disorderly women’ in Manchester. The ducking stool at the Daub Holes

O francês François Maximilien Misson, viajante por terras de Inglaterra no final do século XVII, faz a seguinte observação:

“Na Inglaterra, a maneira de castigar as mulheres desordeiras e depravadas é bastante engraçada. Atam uma cadeira de braços à extremidade de duas traves, de quatro ou cinco metros de comprimento, paralelas uma à outra, de modo a que estes dois pedaços de madeira abracem, nas duas extremidades, a cadeira, que se encaixa entre eles sobre uma espécie de eixo, o que significa que se movem livremente permanecendo a cadeira sempre na posição horizontal, o que permite que a pessoa esteja convenientemente sentada nela, tanto a subir como a descer. Erguem um poste na margem de um lago ou de um rio, e, sobre este poste, põem em equilíbrio os dois pedaços de madeira, sendo que numa das extremidades a cadeira fica suspensa sobre a água. Colocam a mulher na cadeira e submergem-na na água, o número de vezes que a sentença o estipular, de modo a arrefecer o seu calor imoderado” (Misson, François Maximilien, 1698, Memoires et observations faites par un voyageur en Angleterre, La Haye,Henri van Bulderen,Marchand Libraire,p.41).

The ducking stool

Leominster Ducking Stool, Last Used 1809

Algumas vezes o “calor imoderado” da vítimas arrefecia definitivamente.

“Em alguns casos, o castigo era levado ao extremo de causar a morte. Um antigo texto, sem data, intitulado “Strange and Wonderful Relation of the Old Woman who was Drowned THE DUCKING-STOOL. 5 at Ratcliff Highway a fortnight ago”, relata que “a pobre mulher foi mergulhada demasiadas vezes; concluída a operação, foi encontrada morta”” (Andrews, William, 1890, Old-Time Punishments, London, Simpkin, Marshall, Hamilton, Kent & Co., p. 5).

Nestes sobressaltos de crime e castigo, de efervescências e “calores imoderados”, de tanto aparato, não cabe o demónio? Desencante-se quem pensa que o diabo não anda nos corredores da polícia e da justiça. Estes actos sacrificiais configuram ritos de esconjuração. Atente-se no seguinte testemunho:

“A duckingstool mantinha-se permanentemente pendurada no seu lugar e na parte de trás, junto às acusações, estavam gravados diabos, etc. Algum tempo depois, uma nova cadeira foi erguida no lugar da antiga, com os mesmos apetrechos esculpidos, bem pintados e ornamentados. Quando a nova ponte de pedra foi erguida, em 1754, a cadeira foi retirada” (Hole citado por Willam Andrews (1890. Old-Time Punishments, op. cit, p. 9).

Charles Stanley Reinhart. The Duckingstool. 1896

Charles Stanley Reinhart. The Duckingstool. 1896

E nós, (pós)modernos, pioneiros do terceiro milénio e herdeiros de séculos de civilização, declinamos ou não o espectáculo da violência, do crime e do castigo? Na verdade, já não acorremos, a toque de tambor, às execuções públicas. E se for a toque de ecrã? Porventura, um telejornal indignado ou uma série CSI? Talvez não sejamos multidão apinhada à volta do patíbulo, mas somos opinião pública, audiência, que não dispensa nem o “sofrimento à distância”, nem as emoções confortáveis. Violência, carrascos e vítimas, cada vez mais alheios, cada vez menos estranhos.

“Paralelamente à eliminação do espectáculo dos actos de tortura, assistimos, por compensação (…), à proliferação de imagens mediatizadas de cenas de violência. Estas, longe de nos tocarem como pretende ser por vezes o seu propósito explícito, levam-nos a pactuar de modo crescente com a sua banalidade e com uma indiferença que a imagem introduz (…) ao interpor-se entre nós e o real, distanciando-o” (Carvalho, Adalberto Dias de, 2010, “Da violência como anátema à educação como projecto antropológico”, in Henning, Leoni & Abbud, Maria (orgs.), Violência, indisciplina e educação, Londrina, online, 19-25, p. 21).

O funeral do website

NOSSA. Funeral de Website. 2017

NOSSA. Old website funeral. 2017

Eis uma bela autopromoção da NOSSA, eleita agência criativa digital do ano pelos prémios Sapo. Tudo tem o seu tempo. A NOSSA entendeu celebrar a morte do seu último website com honras de um funeral sentido. Uma espécie de luto de remição. Este anúncio vem a preceito: estou a separar uma série de artigos numa categoria intitulada “a morte das coisas”.

Marca: NOSSA. Título: Old Website Funeral. Agência: NOSSA. Direcção: Nuno Maltez. Portugal, Fevereiro 2017.