Archive | Abril 2017

O aguilhão da inteligência

AbelhaConcentração! Muita concentração… O teste é manhoso. Na sala, nem um murmúrio. Apenas o zumbido de uma abelha, que pousa no ombro. Veio para ficar. Longos minutos, pele contra patas, braços contra asas. Estaremos perante uma nova técnica de alavancagem de testes? Algo como um aguilhão à inteligência? Vinte garantido. Esta experiência, recente e verídica, lembra o anúncio, antigo, da companhia de seguros Centraal Beheer, protagonizado por um funâmbulo e uma abelha.

Marca: Central Beheer. Título: Wasp. Agência: Result/DDB. Direcção: Paul Vos. Holanda, 1999.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

A resposta está no fundo

NBFF

A resposta, meu amigo, não está no vento, está no fundo! Perto do museu de cera dos esqueletos. Tu, que vagueias à deriva, não desperdices garrafas. A resposta está no fundo, junto ao cemitério da ambição humana.

Bob Dylan escreveu, em 1962, a canção “Blowing in the wind”, publicada em 1963 no álbum Free Wheelin’. No mesmo ano, surge uma versão cantada pelos Peter, Paul & Mary. Um prémio Nobel dispensa uma micro divulgação; Peter, Paul & Mary talvez sim, talvez não.

Marca: 2017 NBFF. Título: Go Deeper. Agência: RPA. Direcção: Jed Hathaway. USA, Abril 2017.

Peter, Paul & Mary. Blowing in the wind. In the Wind. 1963. Ao vivo em 1965.

Surreal: o homem piano

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Encontrei no sapatinho das maravilhas este anúncio do Banff Center for Arts and Creativity, do Canadá. Estranho e delirante, vibra nos meus sentidos com uma invulgar ternura surreal. Discute-se nas redes sociais se é ou não arte. Afirma-se mais original, criativo e impactante do que muita arte que tive o privilégio de observar. Mas, se é ou não arte, que o ponderem os juízes da estética. Lembra-me arte. Arte da melhor! Por exemplo, Hieronymus Bosch (ver https://tendimag.com/2016/12/19/hieronymus-bosch-death-metal/) ou François Desprez (ver https://tendimag.com/2012/04/21/criaturas-pantagruelicas-1/).

A lembrança é amiga da vadiagem do espírito. Lembrei-me dos Ban (Irreal Social, Surrealizar, 1988). Conquistaram um apreciável sucesso nacional no final dos anos oitenta. É um grupo com música identificável. Uma das qualidades para ser digno de memória. No Tendências do Imaginário, os visitantes portugueses estão em minoria. Não admira. O blogue fala do mundo em língua portuguesa. Podia falar de Portugal, ou do mundo, em língua estrangeira. Sempre seria mais friendly! Seja como for, Portugal, embora nem sempre pareça, faz parte do mundo. Venham os Ban! Pim-Pam-Pum!

Marca: Banff Center. Título: Things you can’t unthink. Agência: Cossette Toronto. Direcção: Rodrigo García Saiz. Canadá, Abril 2017.

Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias. Instrumentos musicais.

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Hieronymus Bosch. Jardim das delícias. Inferno. Detalhes. 1503-1504.

François Desprez. Songes Drolatiques. Homens instrumentos musicais.

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François Desprez. Songes Drolatiques. 1565.

Ban, Irreal Social, Surrealizar, 1988.

Por um nome

Reggiani

Serge Reggiani

Acaba de sair o anúncio “El nacimiento de un nombre”, da revista Hahora Mamá. É longo, lento e fala ao coração. Confrontada com costume de atribuir o nome das bisavós às bebés, a bisavó Haydée muda o nome para Matilda, o nome por todos desejado. Pela duração, pela lentidão e pelo enredo, “El nacimiento de un nombre” lembra alguns anúncios orientais. Certo é que a imaginação dos publicitários não tem limites.

A canção francesa tem particular apetência pelo tema da velhice e do envelhecimento. Retenho a Sarah de Serge Reggiani (Album nº2, 1967).

Marca : Ahora Mama. Título : El nacimiento de un nombre. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direcção: Los Clan. Argentina, Abril 2’017.

Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

Labirinto de cegos

The Blind Leading the Blind, Pieter Brueghel the Elder, 1568.

Pieter Brughel. O Cego Conduzindo Cegos. 1568

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Jean Martin. Os Cegos. 1937. Lyon, Musée des Beaux Arts.

Há anúncios orientais, como este da Top Charoen Optical, que me ultrapassam. Que ligação existe entre quatro ladrões pitosgas e um banco de esperma? Uma empresa óptica. Nada como o absurdo para converter um deficiente visual. O disgusto pede óculos. O resto é imaginação desinibida. Apenas uma perplexidade: por quê o esperma como figura da desgraça?

Este anúncio tailandês lembra-me algumas obras de arte. Com mais de quatro séculos, o quadro de Pieter Brueghel, “um grupo de cegos conduzido por um cego” (1568), permanece actual. O quadro de Jean Martin, “os cegos” (1937; Lyon, Musée des Beaux Arts), condiz com a arte da desventura característica do Período entre as Duas Guerras Mundiais.

Marca: Top Charoen Optical. Título: The Bank. Agência: J. Walter Thompson Bangkok. Tailândia, 2003.

A pauta e as teclas

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É rara a junção de três génios da música: a introdução de Leonard Bernstein, a composição de Bach e a interpretação de Glenn Gould. Não sabia que as pautas no tempo de Bach davam tanto lugar à interpretação. É interessante presenciar o início da carreira de Glenn Gould e da sua dedicação à obra de Bach. Pode não se gostar, mas não se deve subestimar.

Glenn Gould e Leonard Bernstein: J. S. Bach, Concerto para piano nº 1 em Ré Menor (BMW 1052).

Máquinas desejantes

Convém ouvir baixinho, que a cruz ainda não recolheu.

Mordillo. Virgílio

Mordillo. “Cada um é arrastado pelo seu próprio desejo” (Virgílio).

José Gonzalez. Heartbeats. Veneer. 2003.

Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

Apolo e Dionísia

monica batendo cebolinha

Turma da Mónica. Mónica bate em Cebolinha.

Videojogos, anime, bullying e artes marciais. Acresce a inversão dos papéis de género: a irmã mais nova luta pelo irmão mais velho, todo ele bondade e virtude. Estes temas são caros às novas gerações. Confluem alegoricamente num carro not more nice, o “juvenil” Nissan Micra.

O anúncio da Nissan lembra a antropóloga Ruth Benedict, que, na esteira de Friedrich Nietzsche, opõe culturas dionisíacas, mobilizadas para a guerra, e apolíneas, apostadas na paz (Padrões de Cultura, 1934). Num estudo dedicado à cultura japonesa, por encomenda do governo norte-americano durante a Segunda Grande Guerra Mundial (O Crisântemo e a Espada, 1946), Ruth Benedict retoma, de algum modo, a mesma tipologia: a sociedade japonesa é percorrida por dois modelos culturais opostos, simbolizados pelo crisântemo e pela espada.

Não será um exagero convocar Friedrich Nietzsche e Ruth Benedict a pretexto da publicidade? O anúncio ilustra a relação entre o dionisíaco e o apolíneo, num contexto de inversão das relações tradicionais de género, designadamente em termos de violência.

Marca: Nissan. Título: No more nice car. Agência: In the Compagny of Huskies (Dublin). Direcção: Dermote Malone. Irlanda, Abril 2017.