Emancipação
Na publicidade, o cabelo é um oásis feminino (ver anúncio da L’Oréal). Em anúncios como os da Petrole Hahn, a publicidade masculina transpira, à imagem de Sansão, robustez: “A força está nos vossos cabelos” (ver http://www.ina.fr/video/PUB3784060005). Multiplicam-se, entretanto, alternativas, tais como o anúncio Envy, da Svenson. Os cabelos querem-se tonificados, mas também volumosos e embelezados. As personagens aparecem aos pares: os homens que são tratados pela Svenson são exuberantes e dinâmicos; os outros, pasmados, roídos de inveja, carecas, estereótipos fósseis do macho vulgar. O anúncio da Svenson subverte a tradição? O homem já não é o que era? Estaremos perante uma nova viragem, a viragem capilar, rumo à emancipação do homem pelo couro cabeludo?
Marca: Svenson. Título: Envy. Agência: Young & Rubicam Tapsa (Madrid). Espanha, 2016.
Marca: L’Oréal. Título: Le Secret Préférence Dévoilé. Direcção: Paul Gore. França, 2012.
Genesis
Lembra-se dos Genesis? Sofreram um apagão? Não sei, acontece. Para ouvir os Genesis, enfio os auscultadores e fecho os olhos. Para afastar o ruído. A solidão pode ser boa companheira. Nestas condições, não dá para saber se houve apagão. Os Genesis foram um caso à parte na história da música. O álbum The Lamb Lies Down on Broadway subiu, em 1974, o escadório das sete virtudes. E abriram caminho por entre os Rolling Stones, os Pink Floyd, os Deep Purple, os Moody Blues, os The Who, os Yes…
Nesta interpretação ao vivo de I Know What I Like, uma canção “fácil de entender”, os Genesis ainda incluíam Peter Gabriel, conhecido pelas suas bizarrias, sobretudo, no início das músicas. Receio que esta canção, contanto popular, não faça justiça aos Genesis. Acrescento The Carpet Crowlers (The Lamb Lies Down on Broadway, 1974), que também não lhes faz justiça.
Em 2010, apresentei a comunicação “A diabolização da experiência: O trágico e o grotesco nos vídeos musicais”, no Colóquio Internacional Do Sagrado na Arte: Música Sacra Contemporânea. Escolhi quatro vídeos: Air – How does it make you feel; Damien Rice – 9 crimes; Gotye – Hearts a mess; e, por último, Peter Gabriel – Mercy Street (So, 1986), uma obra subtilmente trágica.
Genesis. I know What I Like. Selling England By The Pound. 1973. Ao vivo, entre 1973 e 1975.
Genesis. The Carpet Crowlers. The Lamb Lies Down on Broadway. 1974.
Peter Gabriel. Mercy Street. So. 1986.
Guerras a brincar
Estamos mal de balas cá em Ranholas. Tanto que nas últimas manobras já tivemos que disparar com supositórios. Não, é que os supositórios além de não matar ainda curam por cima (Raul Solnado, Chamada para Washington, 1966).
No anúncio Trench, a guerra era, afinal, de faz de conta! E nós tão imersos a ouvir a morte nas trincheiras. A técnica ilude-nos, a nós, amadores de realidades técnicas.
Marca: Cinemex. Título: Trench. Agência: CDMX, Épica, Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Junho 2016.
De guerras a brincar ocupou-se Raul Solnado. Recorde-se A Guerra de 1908 (1962) e É do Inimigo (1963). Segue Chamada para Washington (1966).
Raul Solnado. Chamada para Washington. 1966.
O peso das coisas
Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés (João Negreiros. O Manual da Felicidade. 2015).
Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango. Fácil de dizer, mas difícil de ilustrar. Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.
A carrinha Ford aguenta a violência dos gorilas, mas é um brinquedo na sua mão. A Toyota enfrenta a fúria do mar, mas flutua como uma boia de pesca. A Dodge perfura o planeta, num voo caído, sem fundo.
No anúncio da General Motors, os automóveis, pesados, levitam. Não existe uma via única para conjugar leveza e levitação. Até as ilhas levitam ou voam, como nas viagens de Gulliver, nas pinturas de Magritte ou nos vídeos dos Gorillaz. Na Idade Média, gordos e magros desafiaram a gravidade. Gostava de te sussurrar ao ouvido que para voar não é preciso ter asas, mas peso. Para voar, importa começar. E não te esqueças de fazer um sinal, “um bom sinal, um sinal de que não estamos fixos” (ao jeito de Jacques Prévert). Estende-me um tapete e descolarei, como São Bento, rumo aos céus.
Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.
Marca Toyota Tacoma. Título: Tide. Agência: Saatchi & Saatchi (Los Angeles). Direcção: Baker Smith. USA, 2006.
Marca: Daimler Chrysler Dodge Nitro. Título: Planet. Agência: BBDO (New York). Direcção: Acne. USA, 2006.
Marca: General Motors. Título: Elevation. Agência: Deutsch (Los Angeles). Direcção: Phil Joanou. USA, 2007.



Estamos mal de balas cá em Ranholas. Tanto que nas últimas manobras já tivemos que disparar com supositórios. Não, é que os supositórios além de não matar ainda curam por cima (Raul Solnado, Chamada para Washington, 1966).