Archive | Julho 2016

A Árvore dos Tamancos

A Árvore dos Tamancos é um belíssimo filme italiano-francês realizado por Ermanno Oldi em 1978.

A árvore dos tamancos“The life inside a farm in Italy at the beginning of the century. Many poor country families live there, and the owner pays them by their productivity. One of the families has a very clever child. They decide to send him to school instead of make him help them, although this represents a great sacrifice. The boy has to wake up very early and walk several miles to get to the school. One day the boy’s shoes break when returning home, but they do not have money to buy other. What can they do?” (IMDB). A música do filme é de Johann Sebastian Bach.

 

A Árvore dos Tamancos. Banda sonora. Johann Sebastian Bach. 1978.

Super-humanos

We're the Superhumans

“O indivíduo estigmatizado pode, também, tentar corrigir a sua condição de maneira indireta, dedicando um grande esforço individual ao domínio de áreas de atividade consideradas, geralmente, como fechadas, por motivos físicos e circunstanciais, a pessoas com o seu defeito. Isso é ilustrado pelo aleijado que aprende ou reaprende a nadar, montar, jogar tênis ou pilotar aviões, ou pelo cego que se torna perito em esquiar ou em escalar montanhas” (Erving Goffman, Estigma, 1963).

Há várias formas de lidar com o estigma. Por exemplo, ultrapassar os limites. O indivíduo estigmatizado, portador de deficiência, excede-se num gesto que o aproxima do estatuto de um herói ou de um semideus. É uma forma não vitimizadora de lidar com o estigma.

O anúncio, excelente, da Channel 4, para os Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, convoca atletas, músicos e artistas que superam as suas próprias limitações: We’re the Superhumans. O anúncio apresenta seres humanos extraordinários. Recuando no tempo, insinuam-se os fantasmas dos circos e das galerias dos séculos XIX e XX. Atente-se, por exemplo, no filme O Homem Elefante (1980), de David Lynch, inspirado no caso de Joseph Merrick (1866-1890). De deriva em deriva, o anúncio aproxima-se de uma galeria da era digital.

Marca: Channel 4. Título: We’re the Superhumans. Agência: Channel 4 Blink Productions. Direcção: Dougal Winson. UK, Julho 2016.

Havemos de ir a Viana

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Desfile da mordomia. Maria Emília Vasconcelos. Fotografia: AG.

Quem investiga, algo encontrará. Nem que seja vinte anos depois. Tirei esta fotografia em Viana do Castelo, em 1998, no dia do desfile da mordomia. O cortejo aprontava-se nas imediações do Governo Civil. Maria Emília Vasconcelos possuía uma colecção ímpar de “trajes à vianesa” (sobre a vida e a obra de Maria Emília de Vasconcelos, ver Autores de Viana. Maria Emília Sena Vasconcelos). Fazia questão de acompanhar as mordomas antes do desfile. Para ajudar e aconselhar a forma de trajar. Ajudou-nos, generosamente, na pesquisa associada ao livro A Romaria da Srª d’Agonia – Vida e Memória da Cidade de Viana (http://www.comunicacao.uminho.pt/cecs/content.asp?startAt=2&categoryID=722&newsID=1908). Era coleccionadora. Reuniu documentação vasta e rara, que incluía, por exemplo, bilhetes para as touradas do início dos anos cinquenta. Uma memória nobre. Viana do Castelo tem uma rua com o seu nome.

Pois, Havemos de ir a Viana, poema de Pedro Homem de Mello, música de Alain Oulman e voz de Amália Rodrigues.

Amália Rodrigues / Pedro Homem de Mello / Alain Oulman. Havemos de ir a Viana.

Havemos de ir a Viana

Entre sombras misteriosas,
Em rompendo ao longe estrelas.
Trocaremos nossas rosas
Para depois esquecê-las.
Se o meu sangue não me engana,
Como engana a fantasia.
Havemos de ir a Viana,
Ó meu amor de algum dia.
Ó meu amor de algum dia,
Havemos de ir a Viana.
Se o meu sangue não me engana,
Havemos de ir a Viana.
Partamos de flor ao peito,
Que o amor é como o vento.
Quem pára perde-lhe o jeito,
E morre a todo o momento.
Se o meu sangue não me engana,
Como engana a fantasia.
Havemos de ir a Viana,
Ó meu amor de algum dia.
Ó meu amor de algum dia,
Havemos de ir a Viana.
Se o meu sangue não me engana,
Havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos,
Deixai-me com esta crença.
Os pecados têm vinte anos,
Os remorsos têm oitenta.

Pedro Homem de Mello

Psico

Psico

Psico

O mais tardar em 1975, assisti a um concerto dos Psico junto à Sé de Braga. Com o Álvaro e o John. Fugimos do colégio. Ainda o concerto ia no início, avisaram-nos que o director andava à nossa procura. Pernoitámos na casa de uma “tia” fictícia, que nos devolveu ao colégio, de madrugada, com uma história insustentável. Na verdade, o importante não era a história, mas o desfecho.

Os Psico, do Porto, criados em 1968, editaram um único single com as músicas: A. Als e B. Epitáfio. Uma raridade!

Psico. Als & Epitáfio. 1978.

Fogo e chuva

tabaco pulmões

Com a indignidade no bolso.

Ando, há alguns dias, com a indignidade no bolso. Artes da besta civilizacional. Uma cruzada dos Fdp: Filhos do poder! Sugam o dinheiro e devolvem o asco. Alguém ensine a diferença entre razão técnica e razão política. Sempre que os homens as confundiram, o mundo entrou em colapso.

Quando a estupidez redentora me aflige, recorro à música. No cantinho dos discos de vinil, três álbuns do James Taylor. Escolho duas canções:  You’ve Got A Friend, ao vivo, e Sweet Baby James, ambas do álbum Sweet Baby James (1970).

James Taylor. You’ve Got a Friend. Sweet Baby James. 1970. Ao vivo, em 2009, quase quarenta anos após a primeira edição.

James Taylor. Sweet Baby James. Sweet Baby James. 1970.

Respirar debaixo de água

Masque Easybreath

Quando um anúncio publicita um produto novo, é realmente um anúncio. Quando o produto é inovador e acessível, o anúncio é notícia. Acontece com Easybreath, da Tribord, uma nova máscara de respirar debaixo de água.

Marca: Tribord. Título: Easybreath. Agência: Rosapark. Direcção: FleurandManu. França, Julho 2016.

Ilusão sobre rodas

“A vida não é excogitação da moral: ela quer ilusão, vive da ilusão” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1886)

Há imagens reais graças à imaginação. A ilusão no anúncio da Nur Die não é bem uma ilusão. É imediatamente decifrável. A ilusão radica no modo como é fabricada. Neste caso, mais relevante do que a ilusão, é a maneira de a produzir. Ao jeito dos quadros de Arcimboldo. Distintas são as ilusões propostas por Escher. Mergulham-nos  em mundos impossíveis sensorialmente plausíveis. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem.

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Marca: Nur Die. Título: The look of love. Agência: Jung von Matt. Alemanha, 2000.

A engenharia da imagem

É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem (Friedrich Nietzsche, Considerações Extemporâneas, 1873-1876)

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

The Marmalade é uma empresa, conceituada, de criação de vídeos, particularmente exímia ao nível da pós-produção. Showreel reúne excertos de vídeos produzidos pela empresa até 2016. A técnica ao serviço da estética. A técnica e a estética ao serviço do cliente e do consumidor.

“É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem”, escreve Nietzsche, a partir de Arthur Schopenhauer. Existem correntes na Sociologia que se concentram nos sujeitos colectivos em detrimento dos sujeitos individuais. Por exemplo, Lucien Goldmann e o estruturalismo genético. Não me ocorrem abordagens da arte que tenham logrado esta suspensão do artista. De qualquer modo, nada de mais social, histórico e cultural do que uma pessoa, artista ou não.

The Marmalade. Showreel. 2016.

O Oráculo das Boas Causas

Rafael Sanzio. Madona Sistina. 1512-1513. Dresden. Detalhe.

Rafael Sanzio. Madona Sistina. 1512-1513. Dresden. Detalhe.

“Bater-se por uma causa justa é já uma vitória” (Anónimo).

A imagem, o som, a estética, a técnica, a história, a criatividade e o envolvimento, quando são bons, contribuem para a qualidade de um anúncio publicitário. Mas existe um trunfo com importância crescente: uma boa causa. As boas causas movem montanhas. No anúncio Not just pictures, a Nikon refreia por uma boa causa, os indígenas das florestas, santuários da natureza e da humanidade: “Stop. They are not just pictures. Stop killing the forest!”. Resta convencer os anjos de Rafael Sanzio.

Marca: Nikon. Título: Not Just Pictures. Produção: Quad. Direcção: Alejandro Toledo. 2004.

Discriminação

Desconversemos! Vejo, todos os dias, dezenas de anúncios publicitários. É um vício. A amostra não é representativa, mas dá para ensaiar conjecturas. Normalmente, os anúncios incidem sobre determinadas categorias sociais. Por exemplo, as mulheres, as crianças e os velhos.

GoALS

As mulheres destacam-se. Maior presença com tendência para discriminação positiva. Caracterizam-se, ainda, pela autodeterminação. São promovidas, muitas vezes, por associações, ONGs e comissões estatais vocacionadas para a defesa dos direitos da mulher. O anúncio #WhatIReallyReallyWant…, da Global Goals, é um exemplo.

As crianças também são um alvo importante da publicidade. Menos, porém, do que as mulheres. A discriminação é, frequentemente, ambivalente e a promoção, heterodeterminada, iniciativa de outras categorias sociais. O anúncio Meninos, da Avon, é elucidativo: as crianças são um meio para a discriminação positiva do sexo feminino. O enredo não é a idade, mas o género.

Os velhos, há escassas décadas, pouco surgiam nos anúncios publicitários. A sua presença tem, porém, aumentado significativamente.  À semelhança das crianças, a publicidade tende a ser heterodeterminada com discriminação ambivalente. Observe-se o anúncio Feel Young Again, da Centrum. Os velhos aparecem, mas o valor é a juventude.

Já agora, qual é categoria social muito publicitada com discriminação invariavelmente negativa?

Anunciante: The Global Goals. Título:  #WhatIReallyReallyWant… Produção: Moxie Pictures. Direcção: Mj Delanay. UK, Julho 2016.

Marca: Avon. Título: Meninos. Agência: Soho Square. Direcção: Edu Cama. Brasil, 2010.

Marca: Centrum. Feel Young Again. Produção: Plum productions. Direcção: Eric Heimbold. USA, 2008.