Archive | Maio 2015

Sociologia sem palavras 20. Religião e Infância

Marcelino EspanholLadislao Vajda (1906-1965), realizador húngaro, dirigiu filmes em Portugal (por exemplo, “O Diabo são elas”, 1945, e “Três espelhos”, 1947) e em Espanha, onde filmou “Marcelino Pan y Vino” (1955), um dos seus maiores sucessos, ao nível do público e da crítica. Marcelino, abandonado ainda bebé pela mãe, é criado num mosteiro. Neste excerto, Marcelino escapa à vigilância dos frades para se dirigir a uma arrecadação no sótão onde se encontra uma imagem de Cristo crucificado.

Ladislao Vajda. Marcelino Pan y Vino. 1955. Excerto.

Espinafres

8916-popeye-the-sailor-cartoons-spinach_1920x1080A leveza não é o único valor relevante na sociedade contemporânea. A potência, associada eventualmente à energia, à velocidade e ao sexo, também é um valor apreciável. O valor da potência destaca-se na publicidade em segmentos tais como os automóveis, as sapatilhas e as bebidas energéticas. Nos anúncios da NOS e da Burn (censurado), temos duas versões dos efeitos da “poção mágica”.

Marca: NOS. Título: With This NOS I Will. Agência: Mistress UK. Direcção: Ryan Hope. UK, Maio 2015.

Marca: Burn. Título: The morning. Agência: Fullsix. Direcção: Murat Gomullu. Itália, 2007.

Anjos negros

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“Les inventions des hommes de siècle en siècle vont de même, la bonté et la malice du monde en général en est de même” (Blaise Pascal, Pensées).

A publicidade encarrega-se de nos lembrar regularmente que a maldade perdura no tempo.

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Marca: Canal Sony Brasil. Título: Garage. Agência: Publicis São Paulo. Direcção: Lucas Fazzio. Maio 2015.

https://vimeo.com/124664300

Marca: Canal Sony Brasil. Título: Hospital. Agência: Publicis São Paulo. Direcção: Lucas Fazzio. Maio 2015.

Animais

pedigree_first-days-outAssusta-me, mas assusta-me mesmo, o modo como o Estado e as organizações para-estatais se insinuam na privacidade das famílias e na intimidade das pessoas. Não sei se é doença infantil do totalitarismo ou biopolítica (Michel Foucault; Giorgio Agamben). Será que há quem olhe para as pessoas e veja animais? Não cheira a cravo, nem a canela, cheira a Hitler e a Estaline. Este azedume decorre do anúncio de novas imagens nas embalagens de tabaco? Talvez… De notícias de almas boas que corrigem almas más está o inferno cheio. No Jornal Público, de hoje, 12/05/2015, junto ao título “Maços de tabaco vão ter imagens de caixões de crianças”, destaca-se a notícia “Comportamento: Projeto aposta na parentalidade positiva para combater perturbações logo na infância”. No corpo do jornal, na página 8, o título é mais sugestivo: “E se houvesse uma “vacina” para os problemas de comportamento?”

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Por falar em animais, há animais, em fábulas, filmes e anúncios, com efeito mais humano do que os humanos. Este anúncio brasileiro alonga-se (3:51) a contar a história de dois reclusos, acabados de sair da prisão, que se reintegram na sociedade graças à adoção de dois cães. Ao contrário da emoção sobressaltada, esta é tranquilamente garantida.

Marca: Pedigree. Título: First Days Out. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Ricardo Mehedff. Brasil, Maio 2015.

Sem limites

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“Here the white-coated doctor replaces the black-robed priest as arbiter of death and immortality. The medical figure, the biological soldier, becomes in fact a biological general in the campaign to kill death” (Lifton, Robert Jay, The Nazi Doctors, Basic Books, 2000, p. 473).

Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: The Message from the Lungs. Agência: BBDO Proximity Thailand. Tailândia, Maio 2015.

Homo Hierarchicus

John Smith'sPrezamos os concursos, os rankings e os prémios. O Homo Hierarchicus, propenso a hierarquias (Dumont, Louis, Homo Hierarchicus, Essai sur le système des castes, Paris, Gallimard, 1971), desforra-se do Homo Aequalis (Dumont, Louis, Homo Æqualis I: genèse et épanouissement de l’idéologie économique, Paris, Gallimard, 1977), propenso à igualdade. Como chegamos a esta inflexão? O capitalismo liberal, associado à igualdade e ao individualismo, conheceu melhores dias. Os Estados, os grandes grupos económicos e o sector financeiro não ajudam. Após a crise de 2008, o sector financeiro revigora-se. Os dispositivos que nos governam são tudo menos reféns da democracia. E o autoritarismo tecnocrático ergue-se como a principal alternativa a si próprio.

Por estes lados, as democracias, em avulso (nações) ou por atacado (comunidades), andam musculadas. Ajustam os cidadãos. Mas nada que se compare aos rebanhos humanos das utopias disfóricas da ficção científica. Quer-me parecer, mesmo assim, que nos últimos anos me puseram mais brincos nas orelhas do que às vacas do contrabando. Com o regresso do Homo Hierarchicus, o olhar refocaliza-se nas hierarquias, de preferência certificadas. Os concursos, os rankings e os prémios são procedimentos de hierarquização. Procedimentos humanos. Imagine-se um jogo em que os “favoritos” podem ditar as regras e decidir o que é trunfo e o que é palha. Só se forem péssimos favoritos é que não serão grandes campeões…

Este anúncio, Diving Contest, para a marca de cerveja John Smith’s, é uma caricatura dos dispositivos de competição. Segundo as regras, com júris isentos e resultados inequívocos.

Marca: John Smith’s. Título: Diving Contest. Agência: TBWA (London). UK, 2003.

O lugar do morto

Lorsque l'amour sera mortHá anúncios que lembram o realismo mágico. O anúncio Lorsque l’amour sera mort é extenso. Uma espera de cinco minutos coroada por uma emoção desprevenida. O início  parece uma denúncia das desigualdades de género. No supermercado, ela ocupa-se de tudo, ele fala sem parar. Mas, na verdade, ele não pode ajudar, limita-se a contar os últimos momentos de vida antes do acidente fatal. Sobram memórias nas pontes da ausência. A sequência final contém a chave: no automóvel, ela não se habitua ao lugar do condutor, o lugar do morto, que, em travessia, não está cá, nem lá. Este anúncio, uma curta-metragem sem exibição de acidentes nem de vítimas, não choca, nem pontifica. Aposta na emoção. Fala ao coração.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Lorsque l’amour sera mort. Agência: Publicis Consultants. Direcção: Erick Zonca. França, Maio 2015.

Correr ao ritmo da vida

pursue-desert-01A era digital alterou o trabalho, desenraizou-o. Perdeu local, horário e fronteira. As plataformas eletrónicas impõem-se como dispositivo de agenda e disciplina. São para a organização do trabalho atual o que a cadeia foi para o fordismo. Não há modo de desligar! Vêm estes desvarios a propósito de um anúncio a uma universidade: The University of Western Australia. Destaco dois eixos. Primeiro, a ideia, corrente, de que a luta pelo sucesso reside, principalmente, numa competição consigo próprio (a protagonista corre sozinha). Não se mover é parar o mundo. Segundo, a universidade deve estar em concomitância com o seu tempo (a protagonista corre no mundo actual). Nem atrás, nem à frente. Em sincronia. O impossível mora no presente à espera de ser conseguido. Há universidades que se querem à frente do seu tempo, tentadas a surfar muito à frente das ondas, porventura, no areal. Não desfazendo, este ímpeto visionário tem proporcionado um truculento caldo de asneiras. De tanto erguer a cabeça, descura-se onde pôr os pés. A University of Western Australia ocupava, em 2014, a posição 88 no Academic Ranking of World Universities (a Universidade do Porto situava-se entre 301 e 400). Estar no seu tempo não significa estar parado. O anúncio, com a ajuda da música, tem, aliás, um ritmo alucinante.

Marca: The University of Western Australia. Título: Pursue Impossible. Agência: The Brand Agency Perth. Direcção: Grant Sputore. Austrália, Maio 2015.

O papel dos videojogos

ChangyouQuando o senso comum se torna ciência e a ciência, senso comum, todos os argumentos são verosímeis. Estes anúncios chineses explicam, a pais e a filhos,que quando existem problemas comportamentais em casa, a razão pode não decorrer dos videojogos.

Marca: Changyou. Título: Mother. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nico Perez Veiga. China, Maio 2015.

Marca: Changyou. Título: Little Girl. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nici Perez Veiga. China, Maio 2015.

Deste lado da lua

Roberto Chichorro. Sonho circense com lágrimas. 2006.

Roberto Chichorro é um pintor moçambicano radicado, a partir dos anos oitenta, em Portugal.

Nos seus quadros, aluados, a vida não adormece, prolonga-se pela noite dentro, morna e mágica.

Lembra Marc Chagall, mas em versão mais colorida e mais voluptuosa.

Álvaro Lobato de Faria caracteriza bem a pintura de Chichorro no seguinte texto: http://defesesfinearts.com/2011/01/mac-lisboa-agua-de-cheiro-po-de-arroz-em-tempo-de-beija-flor-e-papagaio-de-papel/, que passo a citar:

“Chichorro não representa. Cria mundos. Abre-nos frestas de portas. E acorda em nós o desejo de espreitar. Vermos sem sermos vistos. Sermos de novo meninos, em noite escura de insónia ou de bicho papão, à procura de um mundo de luz e cor que não é nosso, para espantar o medo. / O nosso reino de fantasia, denso e subtil, realista e fantástico, onde os homens ensinam os bichos e os bichos aprendem a ser homens, na festa das cores da vida. / Aqui tudo se passa à noite. Nunca amanhece. Mas não existe tristeza, só nostalgia…” (Álvaro Lobato Faria).

A página Movimento Arte Contemporânea contém cerca de uma centena de imagens de quadros de Roberto Chichorro. Segue um pequeno documentário e uma galeria de imagens.

Exposições Roberto Chichorro no Porto e Lamego @ Canal 180.

Galeria com imagens de quadros de Roberto Chichorro.