Fidelidade ao objeto
Noam Murro é um veterano da publicidade. É um realizador bastante versátil. Um anúncio novo justifica interesse e atenção. Neste The Choice, para a Volkswagen, a história, com imagens a condizer, é bem contada. Entre o teletransporte e o carro, que preferes? O prazer sobre rodas. O homem é fiel aos seus objetos.
Marca: Volkswagen. Título: The Choice. Agência: DDB (Paris). Direcção: Noam Murro. França, Abril 2015.
Viver envelhece
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela (Fernando Pessoa, Bernardo Soares, Livro do Desassossego, São Paulo, Centauro, 2013, p. 178)
Viver envelhece! Cansa! Já desconfiava. A não ser que aconteça um milagre comercializável. Já imaginava.
“Viver sempre também cansa”, escreve José Gomes Ferreira, poeta que brilha na minha noite de todas as luas. Trago na minha pobre memória um dos seus versos: “Os pássaros quando morrem caem no céu” (Poesia I).
A testomania é um conceito criado por Pitirim A. Sorokin, grande sociólogo do séc. XX que, pelos vistos, não cabe na nossa inteligência. Testomania, o apego excessivo aos testes (estatísticos). Pois, a testomania está a passar pela publicidade. Engendram-se testes e mais testes para justificar pela experiência aquilo que a razão não consegue argumentar pela lógica.
Marca: Garnier. Título: Into a woman’s skin. Agência: Publicis Conseil (Paris). França, Março 2015.
Viver Sempre também Cansa
“Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…”José Gomes Ferreira, viver sempre também cansa, 1931.
Falsidades
Ontem, Tendências do Imaginário encarou a hipótese de o anúncio Selfie Shoes ser falso. Na realidade, a marca existe, mas o produto, não! It’s a fake.Vai-se tornando um jogo diagnosticar anúncios falsos. Há um ano, Tendências do Imaginário esteve entre as três primeiras páginas a conjecturar a falsidade do anúncio Set Yourself Free.
Deve-se ao treino de visualização de anúncios publicitários? Talvez. Mas outro treino maior se alevanta. Um treino invertido. Há países onde tanta coisa parece falsa e, afinal, é verdade! Artes da câmara escura. Para acompanhar estas (in)falsidades, três pinturas a óleo do artista hiper-realista arménio Tigran Tsitoghdzyan.
Selfie Shoes
Grandes problemas, pequenas soluções. Eis o ovo de Colombo da reflexividade na era da modernidade avançada. O triunfo dos pés. Os pés são a parte do corpo mais distante da cabeça. O que comporta vantagens. Sobretudo quando a cabeça parece um vegetal: nabo, coco, abóbora, alho chocho, batata, cebola, grelo…Voltando ao anúncio. Parece falso (fake), mas, se calhar, não é: a marca parece existir. Por outro lado, nos vários sites que pesquisei, não é mencionado nem o nome da agência, nem o nome da direção. O que pode acontecer: algumas marcas asseguram essas funcionalidades. Mas é raro. Foi publicado um ou dois dias antes do dia 1 de Abril! Há quem tenha sentido de humor. Se for o caso, tiro o chapéu. Não sei que diga: o melhor é esperar para ver.
Marca: Miz Mooz. Título: Selfie Shoes. USA, Março 2015.
Vertigens a baixa altitude
Há muito que namoro o tema da levitação e não há modo de ir ao altar. Existem diversas soluções para sugerir a ausência de gravidade: captar um momento de suspensão, filmar em câmara lenta um movimento de desprendimento ou multiplicar os planos de gravidade (e.g, E.M. Escher, na gravura, e Philip Halsman, na fotografia).
O anúncio chinês OK Go, da Red Star Macalline, desmonta várias ilusões de perspectiva e multiplica os planos de gravidade, provocando uma sensação de vertigem.
O anúncio neozelandês Muscle, da Anchor, recorre ao slow motion para criar uma sensação de flutuação no espaço e no tempo. Em câmara lenta, os movimentos de dança logram um efeito estético apreciável.
Marca: Red Star Macalline. Título: OK Go. Agência: 25hours Xangai. Direcção: Damian Kulash JR. China, Março 2015.
Marca: Anchor. Título: Muscle. Agência: Colenso BBDO. Direcção: James Solomon. Nova Zelândia, Março 2015.
Anúncios de risco
O mundo não é geométrico. Tem pregas. Em 2011, estranhei o zelo na proibição de dois anúncios britânicos: um com uma adolescente sentada na via férrea, o outro com três raparigas a dançar, sem cinto de segurança, no banco de trás de um automóvel! Ambos os anúncios expunham crianças a situações de risco: “hazardous or dangerous situations”( Zelai por nós).
A Dacia acaba de publicar um anúncio com crianças de dez anos a conduzir um automóvel. Exemplo arriscado? O mundo tem pregas. Surpreende. A ideia é simples: até as crianças conseguem conduzir um Dacia. Mas a ideia do anúncio da Rexona, proibido, também era simples: em certas circunstâncias, como, por exemplo, na dança, um desodorizante vem a preceito.
E qual é a ideia deste artigo? Não é, decerto, defender a proibição de qualquer anúncio. A ideia é outra: importa estar atento à dualidade de critérios. É o pão da arbitrariedade, e a arbitrariedade é o vinho do poder.
Marca: Dacia. Título: French Kids Driving Car. Agência: Marcel (Paris). França, Abril 2015.





