Archive | Março 2015

Envelhecimento

“Tudo o que era sólido e estável é abalado, tudo o que era sagrado é profano, e os homens são finalmente obrigados a encarar as suas condições de existência e as suas relações recíprocas com olhos desencantados” (Marx, Karl & Engels, Friedrich, 1848, Manifeste du Parti Communiste, trad. por Laura Lafargue, Paris, V. Giard & E. Brière, Libraires-éditeurs, 1897, minha tradução).

Kate Transue. The Old Man. 2012.

Kate Transue. The Old Man. 2012.

O tempo passa inexoravelmente. Tudo envelhece: os ossos, a vista, os ouvidos, os dentes, os rins, o coração, os pulmões, os músculos, a pele, os cabelos, a memória…  Atormentamo-nos com desejos de ontem e recursos de amanhã. Até que um dia, sem dar conta, sentamo-nos num banco do jardim da velhice, a sentir a vida acontecer enquanto acontece. Como nunca.

Gulliver na Academia

Grandeville. Gulliver's travels. Séc. XIX,

Grandeville. Gulliver’s travels. Séc. XIX,

Gosto de livros clássicos que conjugam humor e utopia. As viagens de Gulliver tem passagens de rara sabedoria. O episódio da visita à Academia de Lapúcia é um bom exemplo (Capítulos V e VI, da Terceira Parte do livro; junto o pdf do capítulo V: Gulliver Academia). Creio que faltam dois apontamentos da visita à Academia. Gulliver perdeu-os em Lisboa na viagem de regresso. Foram reencontrados na Feira da Ladra (mentira). Passo a transcrever:

“A seguir ao quarto da cura da cólica, entrei numa divisão cheia de membranas e tubos com fluídos. O responsável era um cientista de topo. A missão era proceder a uma diálise conceptual. A experiência mostra que os investigadores tendem a empregar certos conceitos na investigação empírica e outros na apresentação dos resultados. Uns, operatórios; outros, retóricos. Para maior leveza de espírito, a diálise conceptual visa separá-los. Assim, em vez de um dicionário de conceitos, haverá dois: um para os conceitos operatórios; outro, para os conceitos retóricos.

Capa Gulliver boa

O quarto seguinte, dedicado à pastelaria universitária, é o mais amplo e o mais iluminado. Todas as altas autoridades nele têm assento. Para a confecção do bolo, a cada especialidade corresponde uma medida: 1/21; 1/18, 1/13 e por aí adiante até 1/4. À semelhança dos carros: consoante o número de cavalos, assim o desempenho e o sustento. Misturada e batida, com o corpo docente pesado às postas, a massa vai ao forno. O bolo universitário costuma sair torto e esburacado. Nada a lamentar, o que importa é respeitar o quantum sufficit e a régia vontade”. Em suma, uma fantasia zelosa e repetidamente aplicada chega a parecer verdade.”

Consumo do ridículo

“Já se definiu o homem como “um animal que ri”. Poderia também ser definido como um animal que faz rir”
(Bergson, Henri, O riso, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1983, cap. I)

LOGO-FIAP4Neste anúncio da FIAP, a publicidade parodia-se a si própria. Não é a primeira vez. Ri de si mesmo quem se sente confiante. Dar o peito ao ridículo é um luxo. Como o rei face ao bobo. Há pessoas com máscaras que se colam ao esqueleto. Como se relacionam com o ridículo? O riso desmascara? A máscara engana o riso? O ridículo mata? O ridículo corrói e regenera: a carne, os nervos e a alma. A publicidade não teme o ridículo. Adopta-o.

Anunciante: FIAP 2015 – Festival Ibero Americano de la Publicidade. Título: Roberto Spam. Agência: DKP Miami. Direcção: Andrés el Güero Cruz. USA, Março 2015.

Contracorrente. A barba.

Jovem leitor com barbaO corpo ocupa um lugar chave no “processo civilizacional”, estudado por Norbert Elias. Século após século, o corpo alonga-se, alisa-se e fecha-se. Nesta tendência, valoriza-se a altura e limam-se as saliências. Os pelos acabaram reduzidos a pequenas reservas bárbaras em vias de extinção. As teorias são assim: vulneráveis. Não há nada que o homem possa fazer que, mais cedo ou mais tarde, não faça. O homem entendeu dar uma nova oportunidade à barba, símbolo ostensivo agregador e demarcador. Não me lembro de juventude tão barbuda. Este ressurgimento não é favorável às empresas dedicadas ao ato de barbear, cujos anúncios se dividem em dois tipos: promoção da qualidade extraordinária das lâminas e das máquinas de barbear; ou defesa da suavidade de uma pele bem barbeada. A Wilkinson costuma enveredar por esta última solução.

O primeiro anúncio, acabado de sair, ocorre num dos espaços mais agradáveis de Paris: o jardim do Luxemburgo. Num local onde não sobram assentos, a cadeira “peluda” é rejeitada por todos. O anúncio é longo e bastante relaxante. O segundo anúncio, de 2014, ilustra a pogonofobia (medo das barbas) dos bebés face a pais barbudos. O anúncio é mais curto e algo incomodativo.

Parabéns a todos os jovens com barba que fazem hoje anos!

Marca: Wilkinson. Título: The lonely chair. Agência: J. Walter Thompson Paris. França, Março 2015.

Marca: Wilkinson. Título: First Impression. Agência: Labamba. Direcção: Robert Nylund. Alemanha, 2014.

Objectos que falam

01. Hans Holbein. The Ambassadores. 1533.

01. Hans Holbein. The Ambassadores. 1533.

Costumo abordar Os Embaixadores (1533), de Hans Holbein, nas aulas de Sociologia da Arte. Por vários motivos:
– Trata-se de uma pintura com segredo, à semelhança de O Casal Arnolfini (1434; Figura 2), de Jan van Eyck, e de As Meninas (1656: Figura 3), de Diego Velasquez;
– É um exemplo de uma obra teórica: Hans Holbein, ao pintar, propõe uma arte da pintura;
– Inclui uma das anamorfoses mais bem conseguidas e mais célebres da história da arte;
– Ilustra quão despropositada pode ser uma sociologia de uma obra de arte que não cuide da respectiva interpretação. Por extensão, a sociologia da arte pressupõe o conhecimento da arte.

05. Hans Holbein. Dinteville. Punhal e medalha

05. Hans Holbein. Dinteville. Punhal e medalha

Este texto apoia-se na análise de Os Embaixadores proposta por Omar Calabrese (“A intertextualidade em pintura. Uma leitura dos Embaixadores de Holbein”, in Como se lê uma obra de arte, Lisboa, Edições 70, 1997, pp. 35-68). Limitamo-nos a resumir partes do artigo de Omar Calabrese.  Este resumo não contempla nem a gama de intertextualidade desenvolvida por Calabrese, a partir de Gérard Genette (intertexto, paratexto, metatexto, arquitexto e hipertexto), nem a totalidade dos nove estádios considerados por Omar Calabrese (pode aceder-se ao livro no seguinte endereço: https://pt.scribd.com/doc/89695400/calabrase-omar-como-se-le-uma-obra-de-arte). Se algum contributo existe, reside nas imagens mais nítidas do que as reproduções do livro de Omar Calabrese.

06. Holbein. The Ambassadors. As luvas de Georges de Selve

06. Holbein. The Ambassadors. As luvas de Georges de Selve

Os Embaixadores é um quadro de grandes dimensões (207 cm X 209,5 cm) pintado em 1533, com extrema minúcia, por Hans Holbein. É uma das atracções da National Gallery, em Londres. Durante quatro séculos, a identidade das figuras retratadas permaneceu desconhecida, suscitando inúmeras interpretações e polémicas. Foi preciso aguardar pela alvorada do século XX para reconhecer os franceses Jean de Dinteville (1504-1555; à esquerda) e Georges de Selve (1508-1541; à direita). Ironicamente, a descoberta acabou por revelar que o quadro continha as pistas ou chaves suficientes para a resolução do enigma.

10. Hans Holbein. The Ambassadors. Punhal. Idade

10. Hans Holbein. The Ambassadors. Punhal. Idade

Edward T. Hall escreve que o espaço, tal como o tempo, fala. Pois, os objectos, nas telas de Hans Holbein, também falam. Comecemos com o contexto. Uma sala solene, com cortinados de seda e o chão a lembrar o da Abadia de Westminster, lugar de encontro das elites. Para completar, um tapete oriental, símbolo de luxo e grandeza (Holbein incluiu o tapete em vários retratos, incluindo O Retrato do Mercador Georg Gisze, 1532 – Figura 04).

11. Holbein. The Ambassadors. Selve Age. Book

11. Holbein. The Ambassadors. Selve Age. Book

As figuras retratadas ostentam sinais de estatuto elevado: a pele de arminho, a medalha e o punhal de Jean de Dintville  (Figura 05); o traje e as luvas, de Georges de Selve (Figura 06). As luvas eram, naquele tempo, um símbolo de estatuto. Atente-se, por exemplo, nos retratos com as luvas calçadas, de Albrecht Dürer (Figura 07), com as luvas realçadas na mão, de Jan Gossaert (Figura 08), ou com penas uma luva calçada, de Ticiano (Figura 09).

12.  Holbein. The Ambassadors. Centro alto. Astronomia e Geometria

12. Holbein. The Ambassadors. Centro alto. Astronomia

Estamos, portanto, perante dois membros da alta sociedade, um nobre e um eclesiástico. Neste momento, desconhece-se a respectiva identidade. Holbein esconde e mostra as pistas pelo quadro. No punhal do personagem da esquerda, está gravado “AET SVAE 29”: a sua idade é 29 (Figura 10). No livro em que a figura da direita se apoia, está escrito “AETA IS SVAE 25” (Figura 11). Pode inferir-se que têm 29 e 25 anos de idade. De facto, Jean de Dinteville e Georges de Selve tinham essa idade em 1533. E ambos residiram em Londres nesse ano. O medalhão que Jean de Dinteville traz ao pescoço pertence à ordem de São Miguel, uma condecoração concedida pelo rei de França, Francisco I. Por sua vez, uma posição de relevo na Igreja assumida por uma pessoa tão jovem representava algo de excepcional. George de Selve foi nomeado bispo de Lavour com dezoito anos e era um embaixador papal influente.

13. Holbein. The Ambassadors. Centro baixo. Aritmética, Geografia e Música.

13. Holbein. The Ambassadors. Centro baixo. Aritmética, Geometria e Música.

Os objectos dispostos entre os dois personagens são significativos: em cima, predominam instrumentos ligados à astronomia (Figura 12). Em baixo (Figura 13), um alaúde, flautas, um livro de cânticos, um compasso, um livro de aritmética (Figura 14) e um mapa-mundo. Estes objectos convocam a astronomia, a geometria, a aritmética e a música, áreas que compunham o quadrívio, modalidade de ensino alternativa ao trívio (retórica, dialéctica e gramática). Estes objectos sugerem um elevado apreço pela ciência. Jean de Dinteville estudou quadrívio. Alguns instrumentos científicos foram, provavelmente, emprestados por Nikolau Kratzer, matemático, astrónomo e horologista, amigo de Hans Holbein e Thomas More. Parte dos instrumentos integra o retrato de Nikolau Kratzer, pintado por Hans Holbein cinco anos antes, em 1528 (Figura 15).

17. Holbein. The Ambassadors. Mapa com rota da circum-navegação

17. Holbein. The Ambassadors. Mapa com rota da circum-navegação

Revelados pelos objetos, estes segredos são suficientes para identificar as pessoas retratadas. Mas Hans Holbein não regateia indícios. Em cima, no globo celeste, um galo luta contra outra ave (Figura 16). Uma alusão à proveniência francesa. Em baixo, no mapa-mundo, os barcos seguem a rota da circum-navegação de Fernão de Magalhães (Figura 17). Mais uma alusão à ciência. No mesmo mapa-mundo surge a pista mais subtil. São nomeados apenas os países e as regiões, com a excepção de Polisy, terra natal de Jean de Dinteville (Figura 18). Por último, o livro de cânticos contém dois coros de Lutero (Figura 19). George de Selve, embora católico, era admirador de Lutero, recriminando-o, contudo, por causa do cisma.

18.  Holbein. The Ambassadors. Globo. Polisy.

18. Holbein. The Ambassadors. Globo. Polisy.

Segredo a segredo, caracterizam-se o contexto e os personagens. Falta a acção. Jean de Dinteville, embaixador do rei de França, e George de Selve, embaixador papal, estavam em Londres com a missão de propiciar uma aliança com a Inglaterra contra a Espanha. Uma corda do alaúde está quebrada (Figura 19) e o estojo está voltado para baixo (Figura 20). Desafinação, silêncio.

19. Holbein. The Ambassadors. Alaúde e livro de cânticos

19. Holbein. The Ambassadors. Alaúde e livro de cânticos

A enorme mancha na parte inferior do quadro é, afinal, uma anamorfose. Focada de um ponto à direita do quadro (Figura 21) ou, de frente, através de um copo com água (Figura 22), a mancha transforma-se numa caveira: uma vanitas (Figura 23). Os embaixadores não morreram, mas fracassaram. Não cumpriram a missão. Refira que o tema da morte é recorrente na obra de Hans Holbein: recorde-se, por exemplo, a Dança da Morte, publicada em 1538 (Figura 24).

21. Holbein. The Ambassadors. Anamorfose.

21. Holbein. The Ambassadors. Anamorfose.

22. Holbein. The ambassadors. Anamorfose com copo.

22. Holbein. The ambassadors. Anamorfose com copo.

Numa sociedade rendida ao Código da Vinci e a livros, filmes e videojogos similares, o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, persiste como uma obra-prima mestre no segredo e na aparência.

23. Holbein. The Ambassadors. Vanitas. Anamorfose. Vanitas

23. Holbein. The Ambassadors. Vanitas. Anamorfose. Vanitas

 

 

Contratempo

Orange babiesUma mãe com HIV positivo expõe, sem parar, o bebé às sensações do mundo envolvente. Enquanto é tempo. Presente a presente, bênção a bênção, soma stress e desespero.
“Thank you for watching our Orange Babies’ advert. There’s no reason for another baby to be born with HIV. With the right treatment, education and support the mother-to-child transmission of HIV rate is less than 1.7%. With your donation, Orange Babies can help more children experience the wonder of a very ordinary life. Orange Babies is a Dutch NGO that is dedicated to help pregnant women with HIV and their babies in Africa” (Orange Babies).

Anunciante: Orange Babies. Título: Borrowed Time. Agência: Quirk. Direcção: Cindy Lee. África do Sul, Março 2015.

Luxo

Casino The Venetian. Macau.

Casino The Venetian. Macau.

Na publicidade, como na arte, tudo é susceptível de ser convocado, desde que seja consumível ou apetecível. As sete virtudes não saciam a publicidade, há, ainda, mais sete vícios. Estes anúncios promovem dois espaços dedicados ao luxo e ao jogo, ambos pertencentes ao grupo Sands Las Vegas: o Hotel Casino The Venetian Macao, na zona de Cotai em Macau, o maior casino do mundo, e o “muito luxuoso” Marina Bay Sands, em Singapura. Duas catedrais do prazer. Na verdade, o luxo sempre foi um grande espectáculo. David Beckham faz boa figura, uma espécie de mascote, numa paródia de carnaval veneziano para máscaras cinco estrelas e cinco diamantes.

Marca: Sands Casino – The Venetian Macao. Título: David Beckham, Never settle. Agência: Believe Media AR New York. Direcção: Anthony Mandler. Singapura, Fevereiro 2015.

Marca: Sands – Marina Bay Sands. Título: David Beckham, Never settle. Agência: Believe Media AR New York. Direcção: Anthony Mandler. Singapura, Março 2015.

Uma pitada de sal

Salt-–-Gentleman-Scholar-at-Cap-Gun-Los-AngelesHá verdades que todos conhecem, consensuais. Algumas até justificam, entre impostos e multas, a esmola ao Estado. Os autodestrutivos nunca pagam quanto custam. À margem, dizem-se coisas insensatas, tais como o exercício físico pode ser excessivo e as dietas, desequilibradas… e, segundo este anúncio, uma pitada de sal não faz mal. Duvido, mas não censuro. O melhor é cada um continuar a pensar pela cabeça dos outros. Pode aceder aos argumentos do Salt Institute neste endereço: http://www.saltinstitute.org/news-articles/does-salt-lead-to-longer-life/.

Anunciante: Salt Institute. Título: Salt Longevity. Agência: Grey San Francisco. Direcção: Dave Laden. USA, Fevereiro 2015.

Álvaro Domingues

Fotografia - Álvaro Domingues

Fotografia – Álvaro Domingues

Álvaro Domingues é um autor que se lê com interesse e prazer. Navega por paisagens transgénicas num mundo em perda do rural e do urbano. Atarda-se, com inteligência, humor e generosidade, sobre obras humanas estranhamente expressivas. Os livros A Rua da Estrada (2009) e Vida no Campo (2012) revelam-se ímpares tanto pela escrita como pela fotografia. Vida no Campo venceu o prémio de Edição da revista LER/Booktailors 2012, na categoria de melhor fotografia original. Recomendo a consulta de textos e fotografias de Álvaro Domingues em O Correio do Porto: http://www.correiodoporto.pt/category/rua-da-estrada.

Isto é Angola

Cuca 2Raramente acedo a publicidade angolana. Este anúncio à cerveja Cuca é nacionalista, colorido e alegre. Terra vermelha; ouro negro; pedras brilhantes; beleza imensa; pele reluzente; damas com magia… “Nós não vamos, nós chegamos; somos um povo guerreiro; temos orgulho e amor ao que é nosso. Isto é Angola e em Angola, cerveja é Cuca”.

Marca: Cuca. Título: Em Angola a cerveja é Cuca. Agência: TBWA Angola. Direcção: Lance Kelleher. Angola, Novembro 2014.