Archive | Julho 2014

Porque sim!

Chambord 2

“A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê…” (Angelus Silesius, séc. XVII). Este anúncio da Chambord retoma esta filosofia: “Because no reason”. Gosto deste tipo de anúncio e deste tipo de humor. Porque sim!

Marca: Chambord. Título: #BecauseNoReason – Flamingo. Agência: Wieden+Kennedy London. UK, Julho 2014.

 

O Corredor Tecnológico

ARRISA ARRIS é uma empresa da área da comunicação e da informática. O anúncio Inventing the Future começa num hangar com imenso espaço inocupado. Uma metáfora do presente? Do futuro? Do futuro no presente (Barbara Adam)? O protagonista entra num corredor. Não se vislumbra o fundo. Em jeito de paredes, inúmeros objectos electrónicos empilhados: televisores, computadores, monitores, despertadores, rádios… A disposição não é casual, mas também não é linear, nem geométrica. Há margem para a diversidade e para a originalidade. Este desarranjo na representação da história da tecnologia electrónica constitui uma das características mais relevantes do anúncio. O corredor é o passado no presente (Barbara Adam). Parece um labirinto. Mas não é! Não há modo de se perder. O homem da Arris avança seguro, sem hesitação, maquinal. Sem parar! O avanço no corredor faz lembrar um videojogo. Mas não é. Tem níveis mas não tem conclusão. Trata-se de um passado num presente que tem futuro. Pelo caminho, alguns marcos, por sinal, heterogéneos: a difusão da televisão, os Looney Tunes, a viagem à lua, a MTV, o skate, a queda de Hussein, a câmara de filmar incorporada nos portáteis… Um pouco de tudo. Não se enxergam, pelo menos à primeira vista, imagens disfóricas. Nem Hiroshima, nem Dallas 1963, nem 11 de Setembro! Estamos perante um mundo fantástico, sedeado algures entre o Canadá e o México. À semelhança dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann ou do filme Toys Story, os objectos técnicos têm vida própria. Parecem dispensar mão humana. No início, o comando pousado no solo activa-se sozinho. O mesmo sucede com os ecrãs e demais objectos técnicos durante o avanço no corredor. Arris é artífice e herdeira deste mundo mágico. É uma garantia e uma promessa. Uma promessa garantida.

Marca: ARRIS. Título: Inventing the future. Agência: Story Worldwide. Direcção: Alex Topaller, Dan Shapiro. USA, 2014.

ARRIS is a global innovator in IP, video and broadband technology. We have continually worked with our customers to transform the experience of entertainment and communications for millions of people across the world. The people of ARRIS are dedicated to the success of our customers, bringing a passion for invention that has fueled our 60-year history: We created digital TV, delivered the first wireless broadband gateway and are pioneering the standards and pathways for tomorrow’s personalized, Ultra HD, multiscreen, and cloud services. We are dedicated to meeting today’s challenges and preparing for the tasks the future holds. Collaborating with our customers, ARRIS will continue to solve the most pressing challenges of 21st century communications.
Together, we are inventing the future.

Música para museu

Air. Music for Museum

Novo álbum dos Air! Apenas em vinil. O que não impede a circulação digital. Trata-se de uma encomenda do Palais des Beaux Arts, de Lille, em França, para uma experiência audio+visual. Audível em todo o espaço do museu, a música faz parte da mostra que envolve quatro artistas (Linda Bujoli, fotógrafa; Mathias Kiss, designer; Xavier Veilhan, escultor, fotógrafo…; Yi Zhou, arte multimedia).

Não posso afirmar que este Music for Museum corresponde aos Air que me habituei a apreciar (a minha subjectividade não lhe retira valor). A maior parte das faixas lembram Tangerine Dream e Klaus Shulze, mais de cinquenta anos atrás. Por sua vez, o baixo da faixa Octogum não destoa do baixo de One of These Days, dos Pink Floyd. Não obstante, que saiba, nem os Pink Floyd, nem os Tangerine Dream, nem Klaus Shulze, nenhum deles compôs uma trilha sonora para um museu.

Air. Octogum. Music for Museum. 2014.

Pink Floyd. One of These Days. DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut). 1972.

Partilhar é bom; dar é o máximo

buchanan's. Deviant Art.A amizade quer-se destilada e amadurecida. Como o whiskey, uma bebida social. O álcool tem destas coisas: mostra aos homens que é possível melhorar com o tempo. Segue, em ante-estreia, o anúncio Mephisto, da marca de whiskey Buchanan’s. A história de uma amizade que resiste a sucessos e fracassos. With or without water, there’s no drink as friendship.

Marca: Buchanan’s. Título: Mephisto. Agência: Santo. Direcção: Juan Cabral. Iberoamérica, Julho 2014.

O Soldadinho de Chumbo

christian cross silhouette and the clouds in sepia tone

Totentdanz, Sturm und Drang, Deutschen ExpressionismusHumor alemão secular? Talvez… Certo é que muitos anúncios alemães bebem nas águas de um humor potente, cínico, sinistro e corrosivo. Absurdo e criativo, como que a revelar “o outro lado de Deus”. No anúncio Chewing-gum, da Hdi Insurance, enlaçam-se três pontos de vista: condutor / drama; espectador / humor; e seguradora / resgate. O espectador ri da desproporção das consequências; ri porque acredita tratar-se de um drama e não de uma tragédia (o problema, a anomalia, acabará por se resolver). Esta confiança é, porém, abalada pela suspensão final. A um passo do vazio, o riso gela. A confiança do espectador dá lugar à fatalidade da companhia de seguros, a única âncora passível de salvar objectos, corpos e, porventura, almas. Em caso de morte, convém aviar-se em vida! Uma última palavra sobre o condutor: resume-se, ao jeito do imaginário alemão, a um “soldadinho de chumbo” num pequeno barco de papel a boiar numa tremenda tempestade enfeitiçada (ler o conto de Hans Christian Anderson: http://pt.wikisource.org/wiki/O_valente_soldado_de_chumbo). Para prova de que não se trata de um esquema de humor ocasional, acrescento dois anúncios da mesma marca: Thermos Flask e Dog.

Marca: HDI Insurance. Título: Chewing-Gum. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2005.

Marca: HDI Insurance. Título: Thermos Flask. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2006.

Marca: HDI Insurance. Título: Dog. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2004.

O caviar imaginário

Esturjão

Sobriedade e dignidade num anúncio búlgaro: o esturjão, “peixe de luxo”, está a desaparecer das águas do rio Danúbio. Por causa da poluição, das barragens e da pesca excessiva. Trata-se de uma espécie antiquíssima (mais de 300 milhões de anos) de cujas ovas se faz o caviar. Em risco de extinção, o esturjão é uma espécie protegida em todo o território da União Europeia. Caso esta protecção não resulte, o esturjão será mais um peixe imaginário.

Anunciante: WWF. Título: Nothing to be proud. Agência: Ogilvy Group Sofia. Direcção: Drago Sholev. Bulgária, Maio 2014.

Afrodisíaco de Estado

Natalidade

As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?

Marca: Nestea. Título: Confession. Agência: Zulu Alpha Kilo. Direcção: JJ Adler. Canadá, Julho 2014.

Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.

Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.

Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, http://www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.

O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!

Lavagem de palavras

Na minha juventude, quando um traço cultural característico de um país ou de um grupo de países era inculcado a outros países, acudia logo a palavra imperialismo, eventualmente cultural e inseparável de uma ideia de dominação. Com o tempo, a palavra tornou-se inoportuna. Para a mesma realidade, fala-se, agora, em globalização. Um conceito de conveniência, que se aplica a tudo e, caso disso, a nada. Não há melhor! Como se passou de um conceito para o outro? Não sei! Talvez por lavagem de palavras…

the-pride-of-the-yankees-65th-anniversary-edition-20080122081715758-2260050Mudando de assunto, o anúncio online Re2pect da Nike Jordan, lançado há dias, já é considerado um dos melhores anúncios do ano. Trata-se de uma homenagem a Derek Jeter, jogador dos New York Yankees, a quem todos “tiram o boné” (cap; casquette). O anúncio lembra, fatalmente, o filme The Pride of the Yankees (1942), com Gary Cooper. Se o anúncio fosse da Levi’s, marca igualmente imperial, perdão, global, as pessoas não levantavam a pala do boné mas desabotoavam as calças. Até no anúncio mais recente, bastante contido para o costume, alguém desaperta excitado as calças. Depois de tanto mostrar que as calças servem tanto para vestir como para despir, a Levi’s merecia um prémio pela luta contra o défice de fecundidade.

Marca: Nike Jordan. Título: Re2pect. Agência: Wieden+Kennedy. Direcção: Matt Aselton / Arts & Sciences. USA, Julho 2014.

Marca: Levi’s. Título: Just don’t bore them. Agência: FCB. Direcção: Frederik Bond. USA, Julho 2014.

Todo o mundo à porta; ninguém à janela.

Passa tanta gente à minha porta. E a solidão cá dentro.

A canção francesa, em tempos universal, está em vias de relocalização. Regressa às caves do Boulevard Saint Germain. Entretanto, uma língua e três ou quatro culturas particulares universalizam-se. O resto relocaliza-se, inventaria-se, resiste ou desiste. Hoje, (re)produz-se à moda dos coelhos: vai ser tão bom, não foi? Com tamanha velocidade não há lugar para a solidão. Não? E, contudo… Nos resíduos dos quatro cantos, toca o sino de Wall Street. Sempre há quem se pendure nas calças dos gigantes; e os abutres indígenas, omnívoros, atiram-se a qualquer porcaria com molho de cifrão. A solidão acompanha a dança; faça-se de conta que não é connosco.
O tema da solidão é caro à canção francesa. Escute-se, por exemplo, Georges Moustaki e Léo Ferré.

Georges Moustaki. Ma Solitude. 1969

Léo Ferré. La Solitude. 1971.

The earth is my grave: Don McLean.

americanpieEstreado em 1971, o álbum American Pie, de Don McLean, conheceu um enorme sucesso. Don McLean não é fácil de esquecer. Filmes e covers não param de nos beliscar. Do álbum American Pie, é complicado destacar uma música. As audiências apontam para American Pie e Vincent. Vincent é incontornável, mas American Pie tem concorrentes. Por exemplo, The Grave e Empty Chairs.
Sherlock Holmes acreditava que o cérebro era como uma caixa. Depressa se enchia; cada coisa que nele colocássemos, outra tinha que sair. Era, por isso, avisado filtrar o que se coloca no cérebro. Não acredito nesta teoria do Sherlock Holmes, caso contrário teria mais cuidado com a publicação destas memórias fundidas. Só não está no cérebro o que lá não entra.


Don McLean. Vincent. American Pie. 1971.

He crouched ever lower, ever lower with fear.
“They can’t let me die! They can’t let me die here!
I’ll cover myself with the mud and the earth.
I’ll cover myself! I know I’m not brave!
The earth! the earth! the earth is my grave.”
Don Mclean. The Grave.

Don McLean. The Grave. American Pie. 1971.

And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did I never thought you would
Don Mclean. Empty Chairs


Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1971. Ao vivo.