Archive | Março 2014

Abraço da Alma

Coca cola. AbraçoA Coca-Cola borbulha emoções. Uma história bem contada faz vibrar o diapasão da sensibilidade. Juntando ídolos do futebol (filhos de um Deus maior), um deficiente fervoroso (filho de um Deus menor) mais o público (filho de um Deus banal), temos “um abraço da alma”.

Este anúncio, todo ele, assenta na memória. Houve quem se apressasse a carpir a erosão da memória com o advento do homem digital. Multiplicam-se, pelo contrário, os sinais do reforço da memória no domínio público.

Marca: Coca-Cola. Título: Abrazo. Agência: David. Direcção: Javier Usandivaras. Argentina, Março 2014.

ARE YOU A LIKER OR A DO-ER?

LENOVOARE YOU A LIKER OR A DO-ER? Segue a chamada (vocação). Atende à revelação. “Make your DO come true”. Serás empreendedor, ídolo ou santo. PALAVRA DE EMPRESA! Assim vai a publicidade: interacção, performance, simulação, circo, caridade, responsabilização, intervenção, concurso… Desde que o isco funcione. Trata-se de uma reactualização do espírito do capitalismo. MORDE! CONCORRE! A EMPRESA vela por ti.

Marca: Lenovo. Título: Make your DO come true. Agência: Fitzroy Amsterdam. Holanda, Março 2014.

Os Cães de Pavlov: Qualidade sem Sucesso

Pavlov's Dog

Originários de St Louis (EUA), os Pavlov’s Dog publicam Pampered Menial, em 1974, e At The Sound Of The Bell, em 1975. O insucesso foi de tal ordem que a editora, a Columbia Records, recusa editar, em 1977, o terceiro disco (The Third). A banda desfez-se. O disco acabaria por ser lançado, a partir de gravações desviadas, com o título Has Anyone Here Seen Siegfried. Há muitos casos como este de qualidade sem sucesso, menos, porém, do que os casos de sucesso sem qualidade.

Pavlov’s Dog. Pampered Menial. 1974

Pavlov’s Dog. At The Sound Of The Bell. 1975.

Pavlov’s Dog. Has Anyone Here Seen Siegfried.

 

Santo Cão

Santo Estevão e São Cristóvão. Séc. XVIII.

Santo Estevão e São Cristóvão. Séc. XVIII.

Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão. “Plus je vois les hommes, plus j’aime mon chien” (pensamento atribuído a Blaise Pascal). Este é o lema do anúncio Unloved, da Mayhew Animal Hole.

Anunciante:  Mayhew Animal Home. Título: Unloved. Agência: Direct. Direcção: Dominic Goldman. UK, Março 2014.

Saint Christopher. The icon from Assumption Church from Bogorodskoe village (Lyubimov uyezd of Yaroslav province). First half of XVII century.

Saint Christopher. The icon from Assumption Church from Bogorodskoe village (Lyubimov uyezd of Yaroslav province). First half of XVII century.

São Cristóvão com cabeça de cão, ca 1600.1700.

São Cristóvão com cabeça de cão, ca 1600.1700.

É uma tentação irresistível associar temas que nada aproxima, a não ser uma ponte perversa pendurada num pensamento vadio. Em séculos passados, havia quem acreditasse em santos cinocéfalos (com cabeça de cão), nomeadamente São Cristóvão e São Guinefort. Segue a lenda de São Guinefort tal com foi escrita por Etienne de Bourbon no século XIII.

Sobre a Adoração do Cachorro Guinefort

Em sexto lugar, devo falar de superstições ofensivas, algumas das quais ofensivas a Deus, outras a nossos semelhantes. Ofensivos a Deus são aqueles que honram demónios ou outras criaturas como se fossem divinos: é o que faz a idolatria, e é o que fazem as mulheres miseráveis que lançam sortes, que buscam a salvação adorando árvores de sabugueiro ou fazendo-lhes oferendas; desprezando igrejas e relíquias sagradas, levam seus filhos a essas árvores mais velhas, ou a formigueiros, ou a outras coisas, a fim de que a cura seja efetuada.

Isso aconteceu recentemente na diocese de Lyon, onde, quando eu pregava contra a consulta dos oráculos e ouvia confissões, muitas mulheres confessaram que haviam levado seus filhos para Saint Guinefort. Como pensei que se tratava de uma pessoa sagrada, continuei a  minha investigação e finalmente descobri que se tratava de um galgo, que havia sido morto da seguinte maneira.

Na diocese de Lyon, perto do vilarejo das freiras chamado Villeneuve, na propriedade do Senhor de Villars-en-Dombe, havia um castelo, cujo senhor teve um bebé de sua esposa. Mas um dia, quando o senhor e a senhora, bem como a ama, saíram de casa, deixando o bebê sozinho no berço, uma enorme serpente entrou na casa e aproximou-se do berço do bebê. Vendo isso, o galgo, que tinha permanecido no local, perseguiu a serpente e, atacando-a por baixo do berço, desequilibrou o berço e mordeu a serpente toda, que se defendeu, mordendo o cão com igual severidade. Por fim, o cachorro matou-a e atirou-a para longe do berço. O berço, o chão, o cachorro, a sua boca e a sua cabeça, estavam todas encharcadas com o sangue da serpente. Apesar de gravemente ferido pela serpente, o cão permaneceu de guarda ao lado do berço. Quando a ama voltou e viu a situação, pensou que o cão tinha devorado a criança e soltou um grito de aflição. Ao ouvi-lo, a mãe da criança também acorreu, olhou, pensou o mesmo e também gritou. O cavaleiro, ao chegar, pensou a mesma coisa, desembainhou a espada e matou o cão. Só depois se aproximaram e encontraram o bebé são e salvo, dormindo pacificamente. Prosseguindo a investigação, descobriram a serpente, despedaçada pelas mordidas, jazendo morta. Percebendo, deste modo, a verdade dos factos, embaraçados por terem morto um cão tão dedicado, enterraram-no nu poço em frente à porta do castelo, e cobrindo-o com uma grande pilha de pedras, plantaram árvores ao lado, em memória do sucedido.

O castelo foi, contudo, destruído por vontade divina e a propriedade, reduzida a um deserto, foi abandonada pelos seus habitantes. Os camponeses, sabendo da nobre conduta do cachorro e da sua morte inocente, embora inocente, começaram a visitar o local, a venerar o cachorro como um mártir, rezando-lhe a pedir ajuda quando estavam doentes ou necessitados. Seduzidos e tentados pelo diabo, que costuma conduzir deste modo os homens ao erro. Foram principalmente as mulheres quem, com filhos doentes ou fracos, os levava para este lugar. Iam à procura de uma velha numa cidade fortificada a uma légua de distância que lhes ensinava os rituais que deviam cumprir para fazer oferendas aos demônios e para invocá-los e atraí-los ao local. Quando chegassem, fariam oferendas de sal e outras coisas; pendurariam as roupas das criancinhas nos arbustos circundantes fixando-as nos espinhos. Passavam, então, os bebés nus entre os troncos de duas árvores. A mãe segurava, de um lado, o bebé e atirava-o nove vezes para a velha, do outro lado, invocando, ao mesmo tempo, s demônios para conjurar os faunos da floresta de “Rimite” a levar a criança doente e fraca a quem acreditam pertencer e lhes devolver o seu próprio filho grande, gordo, vivo e saudável. Feito isso, as mães infanticidas pegaram seus filhos e colocaram-nos nus aos no chão ao pé da árvore sobre a palha de um berço; acenderam em cada lado da cabeça da criança duas velas com um polegar de espessura com o fogo que trouxeram com eles e fixaram-nas no tronco por cima dela. Em seguida, enquanto as velas se consumiam, afastaram-se o suficiente para não ver a criança nem a ouvir chorar. Várias pessoas nos contaram que enquanto as velas estavam acesas, queimaram e mataram vários bebés.  

Uma mulher também me disse que depois de ter invocado os faunos, e já se estava a retirar, viu um lobo (ou o diabo em forma de lobo, segundo ela) a sair da floresta em direção ao bebê. Tê-lo-ia devorado, caso, movida pelos seus sentimentos maternais, não o tivesse recuperado. Por outro lado, quando uma mãe voltou para seu filho e o encontrou ainda vivo, pegou nele, o levou para as águas de um rio próximo, chamado Chalaronne [um afluente do Saône], e o mergulhou nove vezes; se ele resistir sem morrer no local. ou logo depois, é sinal de que tinha uma constituição muito forte.

Fomos ao lugar e reunimos as pessoas e pregamos a prática. Em seguida, desenterramos o cachorro morto e cortámos e queimámos o bosque de árvores, junto com os ossos do cachorro. E eu obtive um édito promulgado pelos senhores da terra, ameaçando espoliação e multas de qualquer pessoa que, no futuro, ali se reunisse para tal fim.

Etienne de Bourbon (falecido por volta de 1262): De Supersticione. Fordham University: https://sourcebooks.fordham.edu/source/guinefort.asp).

São Cristóvão. Ícone Russo. Séc. XVIII.

São Cristóvão. Ícone Russo. Séc. XVIII.

Se alguém, porventura, te disser que tens cabeça de cão, pensa duas vezes. Pode ser um elogio ou não.

Pintemo-nos uns aos outros!

Dulux

Na cidade, as cores estão proibidas. As pessoas deambulam sombrias e cabisbaixas. Não há lugar para o outro e, ainda menos, para o amor. Até que um dia, boiões de tinta irrompem de uma luta entre polícias e gangsters. Boião a boião, pessoa a pessoa, a cidade volta a colorir-se. Regressam os laços, a emoção e o amor.

Este anúncio da Dulux é uma paródia da América dos anos vinte, famosa pela Lei Seca e correspondente proliferação de gangs.  Lembra, em menor grau, o filme Equilibrium: as emoções são “anestesiadas” com fármacos e a arte é severamente proibida.

Histórias como esta têm o condão de revelar alguns tópicos do nosso imaginário, por exemplo, a violência ser parteira da libertação.

Em suma, uma história bem contada num anúncio de qualidade.

Marca: Dulux. Título: Colour Prohibition. Agência: BBH London. Direcção: Patrick / Christian. UK, Fevereiro 2014.

Homem muito Homem

Old Spice. O Chamado

Quem disse que o homem muito homem estava em extinção? Old Spice é o segredo, a chave, da sobrevivência do Homo Erectus macho. “Vocês são os sobreviventes de uma espécie em extinção: o homem homem”. A embalagem de Old Spice é o menir do futuro.

“O futuro da Homenidade está nas mãos e axilas de pessoas como você: o homem Homem. Homens que são seguros, admirados, que sabem o que querem, que respeitam e são respeitados. Homens que conquistam qualquer pessoa com um olhar, mesmo estando de costas. Nossa missão é resgatar o orgulho de ser homem. Juntos? Atenda ao chamado de Old Spice, o desodorante do homem homem.”

Marca: Old Spice. Título: O chamado. Agência: MatosGrey Brasil. Direção: Fabio Soares. Brasil, Março 2014.

Os pássaros quando morrem caem no céu

ELB.Os amigos são assim: sente-se de longe o bater das asas. Músico e compositor de jazz francês, Nguyên Lê, de origem vietnamita, nasceu em Paris em 1959. Integrou vários grupos, entre os quais o ELB.
Abre, com a ponta de um dedo, a porta da floresta. O prazer ainda não é crime. Não tenhas medo de voar, voa, amigo meu! “Os pássaros quando morrem caem no céu” (José Gomes Ferreira). Mesmo quando a asa é pequena…

Ngyên Lê. Eleanor Rigby. Songs of Freedom. 2011

Elb: Peter Erskin, Nguyên Lê, Michel Benita. SigZag. ACT: E_L_B. 2004.

Pensamentos fluviais

Se o mundo fosse cão, dava para uivar. Como é liquido, dá para molhar pensamentos.

Description of a dalmation sea monster. Poggio bracciolini, ca 1460.

Description of a dalmation sea monster. Poggio bracciolini, ca 1460.

O rio tanto vai ao mar que um dia há-de voltar.

“A água corre tranquila quando o rio é fundo” (William Shakespeare, Henry VI, Part 2, 1591).

Da Costa Hours, Bruges, c. 1515.

Da Costa Hours, Bruges, c. 1515.

O rio brota da montanha, desce encostas, salta cascatas, abranda nos vales, para, no fim, se salgar no mar. Os sábios e os santos aspiram o percurso inverso: afastar as ondas, trepar vales, cascatas e encostas, e, no topo da carreira, contemplar, do cume seco da montanha, o encanto longínquo das encostas, dos vales e dos reflexos do mar.

“As virtudes perdem-se no interesse como os rios se perdem no mar” (François de La Rochefoucauld, Reflexões ou sentenças e máximas morais, 1ª ed. 1554).

“É preciso sentar-se nestes rios, nem por baixo nem por dentro, mas por cima, e não de pé mas sentado, para ser humilde estando sentado, e em segurança estando por cima” (Blaise Pascal, Pensamentos, edição póstuma 1670).

Iluminura do “Livro de Horas de D. Manuel “, Séc. XV.

Iluminura do “Livro de Horas de D. Manuel “, Séc. XV.

Burla assistida

YesMuitas agências de publicidade apostam numa história com final inesperado, desconcertante e com uma subversão de valores. No respeito, porém, das regras da realidade e da razão. Este anúncio israelita é um must. Sugere-nos que uma velhinha em apuros e um jovem adulto são, respectivamente, o isco e o lorpa perfeitos.

 

Marca: Yes. Título: Old Lady. Agência: McCann Erickson, Tel Aviv. Direção: Shahar Segal. Israel, Março 2014.

 

Leilão da alma

Mercedes. SoulNão é a primeira vez que a Mercedes convoca as figuras da morte e do diabo. Neste anúncio, alguém está prestes a vender a alma ao diabo, para, pressupõe-se, adquirir um Mercedes. Nada que Judas não tenha feito, exceptuando o Mercedes. Mas uma espécie de epifania salva o desgraçado: a aparição do preço do automóvel, uns furos abaixo do valor da alma.

Especialmente  interessantes são os longos segundos dedicados à antecipação da felicidade. Não deixa de ser um privilégio ver como a Mercedes, a The Mill, a Mercley+Partners e Dante Ariola representam a felicidade.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Soul. Agência: Mercley+Partners. Direção: Dante Ariola. USA, Janeiro 2013.