A coisa
“Sem a nomear, vou falar dela” (Georges Moustaki). Nunca colheu tanta atenção. Deu azo a uma bolha opinativa comparável à falência do BPN, ao regresso de José Sócrates ou à demissão irrevogável de Paulo Portas. Despoletou tamanha nuvem de palpites que quase eclipsou a agenda política mais os comentários desportivos. Entre socorristas e cangalheiros da coisa, as palavras atropelam-se, pouco informam e muito julgam. Enfática e repetitiva, a troca de opiniões lembra um coro de Wagner em disco riscado: na televisão, nas redes sociais, no correio electrónico. Não há modo de lhe escapar. O que vale é a opinião ser um bem sui generis que se pode dar sem se ter. Um dia, coloco-me a seguinte pergunta: um país com muita opinião publicada é um país com uma opinião pública forte? Há países onde uma tragédia humana merece consternação, respeito e reserva. Noutros, funciona como rastilho de uma verborreia colectiva.
Nem a morte nos separa (Revisto em 07.08.2022)
Neste tempo em que a inteligência anda tão estúpida, urge recuperar a sabedoria. “A gravidade é o escudo dos parvos” (Charles de Montesquieu,1899, Pensées et Fragments Inédits de Montesquieu, publiées par Le baron Gaston de Montesquieu, II, Bordeaux, Imprimerie de G. Gounouilhou, p. 97).
Descobertos no norte de Itália, em Mântua, os Amantes de Valdaro são um caso raro de esqueletos adultos abraçados. Se não fosse um anacronismo, diria que exalam um efeito de hiper-realidade. Apresentam-se, assim, secos, despojados de carne, mais reais do que o real. Lembram Pompeia, essa Sodoma latina em que não é preciso olhar para trás para se ficar petrificado.
Há imagens de morte que arrepiam os neurónios e avariam a fé. Assinalam como é ténue e absurda a fronteira entre a vida e a morte: um campo de concentração, um acidente rodoviário, um atentado terrorista, uma catástrofe natural… No ano 79, as cinzas do Vesúvio sepultaram Pompeia e Herculano. As vítimas, petrificadas, parecem não ter completado a passagem. Ainda comunicam. Duas cidades enterradas vivas, cujas ruínas foram descobertas, pela primeira vez ,em 1599, durante a construção de um canal, mas, por extremo cuidado, desinteresse ou pudor, a escavação arqueológica só foi iniciada em 1748. Formas únicas, assombrosas, submersas durante, pelo menos, 1520 anos. Volvidos mais de dois mil anos, ainda resta muito a escavar e a expor. A tragédia da vida no regaço da morte.
Pompeia não pára de surpreender. Em dezembro de 2020, foi descoberto uma espécie de quiosque de fast-food exepcionalmente bem conservado, numa área não aberta ao público, e cujas escavações tinham sido parcialmente iniciadas em 2019. Neste espaço, constituído por um balcão com vários cantos e decorado com frescos de cores vivas com animais, existiriam diversos recipientes onde era inserida a comida para ser vendida aos transeuntes. Os animais pintados – dois patos e uma galinha – é certo que faziam parte das iguarias existentes nesta espécie de quiosque, assim como outros animais e plantas, cujos vestígios também foram encontrados. Foram igualmente achados diversos utensílios e ossos. Estes espaços, eram conhecidos como termopólios, por fornecerem refeições e bebidas quentes. (João Nunes da Silva, As mais recentes descobertas de Pompeia: https://www.natgeo.pt/historia/2021/03/as-mais-recentes-descobertas-de-pompeia. Acedido em 07.08.2022).
Os Pink Floyd são conhecidos pelas suas extravagâncias. As gravações ao vivo, em 1971, nas ruínas do Anfiteatro de Pompeia não destoam: proporcionaram um filme de um espetáculo sem público num palco improvável (Pink Floyd: Live at Pompeii, dirigido por Adrian Maben, publicado em 1972). Não obstante, a música dos Pink Floyd ecoa à perfeição nesta galeria de fantasmas pálidos e sólidos. Durante séculos, os pintores tentaram, em vão, fixar na tela o momento da morte. O Vesúvio conseguiu esculpi-lo em poucos minutos.










Até à última gota
A última gota escapa, por antecipação feminina, ao clone de James Bond. A última gota, que sobrevive à sede da Mulher Fantástica, apaga o sol. Une goutte, oui, mais de Perrier! A primeira gota, fugitiva, tem a assinatura de Bruno Aveillan; a segunda gota, uma nanogota megahidratada, foi dirigida por Johan Renck.
Há relações, felizes, que se bebem até à última gota.
Marca: Eau de Perrier. Título: The Drop. Agência: Ogilvy. Direção: Bruno Aveillan. França, 2003.
Marca: Eau de Perrier. Título: The Drop. Agência: Ogilvy. Direção: Johan Renck. França, 2012.
OVMI revisitado
Uma equipa de investigação unipessoal associada ao blogue Coisas do Arco da Velha resolveu o enigma do OVMI (Objecto Voador Mal Identificado) apresentado, anteriormente, no blogue Tendências do Imaginário: http://tendimag.com/2014/01/21/ovmi-objecto-voador-mal-identificado/. A solução proposta pode ser consultada no blogue Coisas do Arco da Velha. Para acede,r carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://culturamusica.wordpress.com/2014/02/01/a-revelacao-do-ovmi/.








