Archive | Setembro 2013

A Sombra do Lobo

Isabelle Anglade. Le Petit Chaperon Rouge.

Isabelle Anglade. Le Petit Chaperon Rouge.

 

 

 

 

“Demasiado ruído ensurdece-nos, demasiada luz ofusca-nos” (Blaise Pascal)

A avaliação alastrou que nem um incêndio de verão. Como vinga tal fenómeno num país mais dado à ética da convicção do que à ética da responsabilidade (Max Weber)? Num país de confrarias e amigos de amigos (Jeremy Boissevain)? Mestre no jogo das aparências (Georges Balandier)? Quando não existe uma cultura de avaliação, o que a substitui? Quais são as funções latentes da avaliação (Robert K. Merton)? Qual é o objectivo? E o uso? Transparência, ideologia ou ideologia da transparência? Predomina a racionalização ou a justificação (Luc Boltanski)? Suporte ou álibi? Mais ou menos poder ao poder?

Gustave Doré. Le Petit Chaperon Rouge

Gustave Doré. Le Petit Chaperon Rouge

Amor molhado

Zurich Assurance. True LoveEste anúncio da Zurich Assistance apresenta um momento de amor significado por objectos. Sem fetichismo. Não há Casablanca que resista. E se fosse ao contrário? O tamanho da roupa conta… Seja como for, gestos tão cavalheirescos quem os não tem? Em sonhos hiper-reais. Primeiro, canta-se e dança-se à chuva; depois, uma vez que “o amor é fogo que arde”, dá-se a roupa encharcada à companheira. Não há nada como o quixotismo amoroso!

Marca: Zurich Assurance. Título: True Love, Warmth. Agência: McCann. Direção: Augustin Alberti. Setembro 2013.

A Arte e o Lixo

Rafäel Pividal

Rafäel Pividal

Eu faço lixo, mas não me lixo; tu fazes lixo, mas não te lixas; ele faz lixo, mas não se lixa … Todos nos desfazemos em lixo. Navegamos e mergulhamos em lixo. Estamos lixados! Em 15 segundos mudos, a WWF e o Vancouver Aquarium apelam, de um modo original, a uma reciclagem mental.

Rafael Pividal. Este ó Este. 1977.A estética destes anúncios releva da arte? Vi menos e pior em exposições de arte contemporânea. Sobre o lixo e a arte, versa um capítulo fabuloso do romance Pays Sages (1977), de Rafael Pividal (tradução castelhana: Este ó Este, 1977): um artista soviético, incumbido de conhecer a arte ocidental, explica como esta faz arte com lixo. Fica por explicar como se faz lixo com arte. Prémio Goncourt, Rafael Pividal consta entre os lbons professores que tive na Sorbonne: ensinava Sociologia da Arte e Sociologia das Instituições Psiquiátricas. Pividal está agora, com outros mestres e amigos de grata memória, a saborear, nos Campos Elísios, uma tímida cerveja. Tinha esta minha idade quando foi meu professor (ver https://tendimag.com/2012/03/06/bisbilhotice-de-massas-comum-online/).

Anunciante: WWF / Vancouver Aquarium. Título: Paddle.  Agência: McCann Erickson. Canadá, Setembro 2013.

Anunciante: WWF / Vancouver Aquarium. Título: Breach.  Agência: McCann Erickson. Canadá, Setembro 2013.

Anunciante: WWF / Vancouver Aquarium. Título: Dive.  Agência: McCann Erickson. Canadá, Setembro 2013.

O Banal e o Singular

Onitsuka. My Town My TracksEste anúncio da marca Onitsuka Tiger desconcertou-me (vídeo 1). Entrei no anúncio sem sombra de Gps e estive prestes a desistir. Ainda bem que resisti, porque vale a pena chegar ao fim. Esta campanha (ver também anúncio 2) merece atenção. Inscreve-se numa tendência emergente. O cerne são as pessoas comuns e o enfoque incide sobre a vida corrente: actividades, interacções e contextos quotidianos. A exemplaridade radica na não exemplaridade. As pessoas, qualquer um de nós, são exemplares de si mesmas. Nem mais, nem menos. Esta proximidade apostrofada (Alfred Schutz) é minuciosa e pacientemente preservada durante todo o anúncio. Pelos vistos, a marca Onitsuka Tiger faz parte de nós e das nossas vidas banalmente singulares.

Marca: Onitsuka Tiger. Título: My Town My Tracks. Agência: Blast Radius, Amsterdam. Direção. Laurence Ellis. Holanda, Setembro 2013.

Marca: Onitsuka Tiger. Título: My Town My Tracks. Agência: Blast Radius, Amsterdam. Direção. Laurence Ellis. Holanda, Setembro 2013.

Qu’est-ce qu’elle a ma gueule?

Gustave Doré. Pantagruel. 1873

Gustave Doré. Pantagruel. 1873

Canções cáusticas, de afrontamento, são relativamente raras. Predominam as glicodoces, as bem pensantes e as inconvenientes por medida. Cantores como Jacques Brel ou José Afonso são excepções. O que é que a minha cara tem de errado? Sei gritar, mas não cantar. Recorro ao Johnny Hallyday como testa de ferro mágico. A canção tem rugas. Remonta a 1979. Recentemente, foi alvo de alguns liftings. Controversos:  Éric Lapointe foi acusado de violação dos direitos de autor. Deux gueules c’est trop.

Johnny Hallyday. Ma Gueule (1979).

Éric Lapointe. Ma Gueule. 2000.

O Louco e a Morte

Dança da Morte. Alemanha. Séc. XVI

Figura 1. Dança da Morte. Alemanha. Séc. XVI

Por estas bandas, está a passar um enterro de vontades, bom pretexto para este artigo.

A morte e a loucura, se não andam de braço dado, andam, frequentemente, de mãos dadas. Ao nível do imaginário, naturalmente. Numa dança macabra alemã, do séc. XVI (Figura 1), o louco não dá, contra o costume, a mão à morte. As demais figuras dão a mão a dois esqueletos, um de cada lado da fila de dança. Exceptuando o homem de armas que, em vez de dar a mão direita à morte a dá ao louco. O louco não dá qualquer mão à morte, nem a direita, nem a esquerda. É o primeiro da fila, visivelmente, a contracorrente. Como compreender este estatuto excepcional? Poderá o louco ocupar o lugar da morte? Em determinadas circunstâncias, até parecem intermutáveis. Acresce que a posição do louco observada nesta dança macabra não é um caso isolado: na Dança e Canção da Morte, publicada por John Audelay, em 1569 (Figura 2), o louco é apresentado numa situação similar: no início da fila, sem dar a mão à morte.

Figura 2- The Daunce and Song of Death’, published by John Audelay in 1569

Figura 2- The Daunce and Song of Death’, published by John Audelay in 1569

A figura do louco é caracterizada pela liminaridade. Marginal, nem aqui, nem além, num rodopio excêntrico, sem pouso nem sentido fixos, a nave dos loucos não tem cais onde arrimar, nem destino a cumprir. Os territórios e os caminhos baralham-se, mesmo na última travessia, a da hora da morte.

“Voltando, pois, à felicidade dos loucos, devo dizer que eles levam uma vida muito divertida e depois, sem temer nem sentir a morte, voam direitinho para os Campos Elísios, onde as suas piedosas e fadigadas almazinhas continuam a divertir-se ainda melhor do que antes” (Erasmo, Elogio da Loucura).

“Sem temer nem sentir a morte”, os loucos não têm barca nem trânsito predefinidos. Como o parvo do Auto da Barca do Inferno, peça de Gil Vicente que lembra as danças da morte.

Figura 3. Hans Holbein, Dance of Death Alphabet, 1523

Figura 3. Hans Holbein, Dance of Death Alphabet, 1523

Esta ligação entre o louco e a morte emerge em muitas imagens. O louco e a morte envolvem-se, por vezes, numa luta grotesca (Figura 3), como na letra R do Alfabeto da Dança da Morte, de Hans Holbein (1523). Escusado será dizer que só um louco ousa lutar com a morte. Noutros casos, a morte adopta a roupa e os adereços típicos dos loucos (bobos). Na Dança da Morte de Heinrich Knoblochtzer (c.1488), a morte, trajada de louco, dá a mão a um capelão (Figura 4). Esta figura da morte travestida em louco repete-se na Dança da Morte de Wilhelm Werner von Zimmern (c. 1600), com a morte a conduzir um franciscano, bem como na gravura A Mulher e a Morte de Hans Sebald Beham (1541), em que a morte, trajada como um louco, incluindo o bastão de ar, abraça uma donzela (Figura 5).

Dança da Morte, Heinrich Knoblochtzer, c. 1488

Figura 4. Dança da Morte, Heinrich Knoblochtzer, c. 1488

Figura 5. Hans Sebald Beham. The Lady and Death. 1541

Figura 5. Hans Sebald Beham. The Lady and Death. 1541

Será esta ligação entre a loucura e a morte exclusivo da fantasia medieval? Talvez não. Hugo von Hofmannsthal escreve, em 1893, a peça dramática O Louco e a Morte. Raul Brandão retoma o título numa farsa publicada em 1923: O Doido e a Morte. Eis a sinopse:

“O Governador Civil, Baltazar Moscoso, dramaturgo frustrado, tenta escrever mais uma das suas peças medíocres. O contínuo Nunes avisa-o que o Senhor Milhões o vem visitar com uma carta de recomendação do ministro. Ao ser recebido, o Senhor Milhões liga a campainha eléctrica da secretária a uma caixa que transporta consigo, comunicando que acaba de activar uma bomba, a qual rebentará daí a vinte minutos. Perante o desespero do Governador Civil que se vê abandonado por todos, inclusive a sua mulher, D. Ana, o Senhor Milhões faz a crítica demolidora das convenções sociais e a defesa de um sentido último para a Vida; o próprio Governador Civil admite ter sido a sua uma mentira. E, na iminência da explosão, chegam dois enfermeiros, que vêm buscar o Senhor Milhões, o doido. Afinal, a bomba era apenas algodão em rama e não o temido peróxido de azoto, o que leva o Governador Civil a soltar um palavrão entre a raiva e o alívio” (O Doido e a Morte, Edições Colibri).

Tal como o Auto da Barca do Inferno, O Doido e a Morte, de Raul Brandão, bebe na matriz das danças macabras. A vítima é reduzida à sua condição miserável, não pela morte, mas por um louco. A arte de desmascarar tanto está associada à morte como à loucura. É, talvez, o atributo mais temível do bobo da corte.

Figura 6. James Ensor. Esqueletos disputando um arenque fumado. 1891

Figura 6. James Ensor. Esqueletos disputando um arenque fumado. 1891

A modernidade encerra, no entanto, alguma particularidade. Com tanta razão, tanto espírito positivo, tanta promessa de salvação, tanto juízo, a morte descompensou. Para além de vestir a roupa do louco, a morte, ela própria, endoideceu. Encontramo-la assim, louca, nos quadros de James Ensor (Figuras 6 e 7), Otto Dix e George Grosz. A morte anda à solta, mais maluca do que nunca: zombies, Halloween, death metal, Tim Burton… Para nossa perdição no “julgamento das almas”. Conduzidos por um louco ou por um esqueleto, estamos condenados a caminhar para a morte sem nos enganar no caminho.

Figura 7. James Ensor. Esqueletos disputando um cadáver. 1891

Figura 7. James Ensor. Esqueletos disputando um cadáver. 1891

Notas de rodapé:

Sobre o tema do louco e da morte, aconselho a leitura do artigo de Sophie Oosterwijk, “Alas, poor Yorick”. Death, the fool, the mirror and the danse macabre”, acessível no seguinte endereço: http://www.academia.edu/665091/Alas_poor_Yorick._Death_the_fool_the_mirror_and_the_danse_macabre.

Existem dois livros notáveis sobre a história do tratamento da loucura no Ocidente: a História da Loucura, de Michel Foucault, e L’Ordre Psychiatrique, de Robert Castel.

No vídeo O Desconcerto do Mundo, os primeiros minutos são preenchidos com imagens de danças macabras, acompanhadas com uma canção sobre o Triunfo da Morte. Está acessível no seguinte endereço: https://tendimag.com/?s=desconcerto+do+mundo.

Depilação

philips-norelco-smoothDesde a sociedade de corte, temos vindo a civilizar os nossos costumes (Norbert Elias). Refreamos as pulsões e a violência. Endireitamos os corpos e as vontades. Em suma, autodisciplinamo-nos. Esbatem-se protuberâncias e reentrâncias. Tapam-se os orifícios. Reduz-se tudo quanto é intercâmbio entre o corpo e o mundo: excreção, secreção, ingurgitação, transpiração, respiração… Há actividades fisiológicas que quase desapareceram como a expectoração. Este processo continua nos nossos dias. Continuamos, por exemplo, a polir o corpo: ajustamos os seios e as barrigas, endireitamos os dentes e declaramos guerra aos pêlos, a nossa floresta amazónica. Neste momento, não há pelo que escape! Acabaram-se os santuários do pêlo. Só a barba, pêlo sisífico, teima em renascer todos os dias. Embarcado na tendência,  este anúncio da Philips mostra subtilmente como sem pêlos, o encanto é outro.

Marca: Philips. Título: Smooth. Direção: Brendan Beachma. USA, Setembro 2012.

Crianças graúdas

TalkTalk Date NightApetece-me pensar leve! Como um floco de neve que se recusa a aterrar. Não conheço sociedades que não tenham heróis, ou que, pelo menos, não os sonhem.  Quanto à publicidade. ela é um imenso jardim onde passeia o nosso imaginário. Dá para o sentir à distância.

Quem são os nossos heróis? Aqueles que nos empolgam? O anúncio da Toyota, My Dad My Hero, é claro: um super-herói com superpoderes, à maneira da Marvel; um cowboy; um guerreiro; e… um astronauta (vídeo 1).

Marca: Toyota. Título: My Dad My Hero. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Simon Willows. França, Agosto 2013.

A campanha Apollo, da AXE, resgata mais dois heróis: o bombeiro (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8) e o salva-vidas (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8). Não chegam, porém, aos calcanhares do… astronauta!

No anúncio da TalkTalkTV (vídeo 2), o protagonista é, de novo, um astronauta, acompanhado pela sua amada, num ternurento desenho animado itinerante, ao jeito do anúncio Graffiti, da Aides (2010).

Marca: TalTalkTV. Título: Date Night. Agência: Chi and Partners London. Reino Unido, Setembro 2013.

Em suma, quem são os nossos heróis? O astronauta, o astronauta, o astronauta, o Superman, o cowboy, o guerreiro, o bombeiro e o salva-vidas.

Estou a pensar leve demais. Os anúncios têm um toque tão infantil! Mormente, os anúncios da Toyota e da TalkTalkTv. Estes heróis são os heróis das crianças… Duvido! São os heróis das crianças que fomos. Destinam-se aos papás que compram popós e contratam operadores de televisão. São as crianças graúdas que se desodorizam para cheirar a macho. Mas estes heróis não são intemporais? Não pertencem a todas as gerações? É possível… Os cowboys caíram em desuso; os super-heróis e os guerreiros tendem a falar japonês; quanto ao Buck Rodgers, não sei por que nome o tratar na pós-modernidade.

Concluindo, quem pensa leve, escreve pesado.

Namorar a vontade sem pedir licença à consciência

Do caudal de informação proveniente do ecrã, filtramos apenas uma ínfima parte. O que não impede a restante de chegar ao cérebro. A alguma desta informação furtiva, responde o próprio corpo, “sem pensar” (Derrick de  Kerckhove), Estas margens são propícias à sementeira de influências. A publicidade viral insinua-se, por sua vez, nos interstícios da internet. Um vídeo partilhável pode alcançar uma propagação espantosa. Resumindo, é possível namorar a vontade sem pedir licença à consciência. Sobre estas tendências da actividade publicitária, Jorge Palinhos escreveu hoje, no Público, “A Publicidade Real”, uma crónica lúcida e oportuna. Para aceder, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://p3.publico.pt/actualidade/media/9167/publicidade-real.

main-pirslybosJorge Palinhos. A Publicidade Real. Público P3, 09.09.2013.

Galeria de Imagens de Salvação

Há semanas, no artigo com o vídeo Imagens de Salvação (https://tendimag.com/2013/08/23/imagens-de-salvacao/),  não anexei a respectiva galeria de imagens. Faço-o agora.