Archive | Julho 2013

Meias verdades e explosões

Brain damageHoje deparei-me com o seguinte título do jornal Público: “Os empresários dizem que não têm intenção de investir nos próximos anos” (http://www.publico.pt/economia/jornal/os-empresarios-dizem-que-nao-tem-intencao-de-investir-nos-proximos-anos-26850216). Falta saber onde. Não se assume, nem se comenta, mas os empresários portugueses estão a investir cada vez mais no estrangeiro. Se calhar, é mais um pormenor, como tantos outros, de somenos importância. O panorama é engraçado: quem não tem capital não investe por falta de crédito; quem tem capital investe no estrangeiro (França, Holanda, Angola, Moçambique, Brasil, Polónia, Iraque… Quando penso nos animaizinhos da Páscoa e nos pastéis de nata, com recheio e canela patrióticos, ocorrem-me as explosões dos Pink Floyd.

As explosões são uma marca obsessiva dos Pink Floyd. Em Live at Pompei (1972), o vídeo Careful with that axe, Eugene multiplica as imagens de erupções vulcânicas (http://www.youtube.com/watch?v=AYMyxTFwuz8). Anos antes, o filme Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni, termina com sete minutos de explosões acompanhadas pelos Pink Floyd (vídeo 1). O mesmo cocktail no vídeo Brain Damage/Eclipse (vídeo 2), músicas que fecham The Dark Side of the Moon (1973). Quem não se lembra da explosão do muro em The Wall? E aqueles porcos gigantes que sobrevoam Londres, quem não teve vontade de lhes espetar um alfinete? Explosões em câmara lenta, esteticizadas e intermináveis. Um misto de destruição e libertação… Por uns tempos, não volto aos Pink Floyd. Prometido! Quem dera poder dizer o mesmo dos animaizinhos da Páscoa e dos pastéis de nata.

Michelangelo Antonioni / Pink Floyd. Zabriskie Point. 1970.

Pink Floyd. Brain Damage. 1973.

Tapete

As elites nacionais gostam muito do País. Como tapete!

Rafael Bordalo Pinheiro. O Dia de Reis.

A árvore dos abraços

Visitors in the garden at Speke Hall, Liverpool.

Quando uma criança abraça uma árvore, nem crescem, nem deixam de crescer. Sentem-se. Comungam. Entregam-se à mecânica do abraço: comunicar à flor da pele; dar corpo a um sentir conjunto; respirar fundo com o peito apertado.

Lembranças: Maxime Le Forestier. Comme un arbre. 1973.

Revolução Digital

Orange. Ten Little FingersPor cá, onde andamos a meter os dedos?

Respira uma beleza requintada, mas singela, este anúncio da Orange com o toque de Bruno Aveillan. Por falar nisso, por cá, onde andamos a meter os dedos?

Marca: Orange. Título: Ten Little Fingers. Agência: Marcel (Publicis). DOP: Bruno Aveillan. França, Junho 2013.

Um sorriso vale mil desculpas

trident-total-traffic-policeE quantas lágrimas vale? Às vezes, é de chorar a rir; outras, chora-se e ri-se ao mesmo tempo. Quantas lágrimas são precisas para secar um sorriso? E para o congelar? Há algo mais cativante e mais contagioso do que o riso? O sorriso feminino seduz mais do que o masculino? Por que é a desgraça alheia tão risível? Os anúncios piscam-nos o olho com um sorriso? O absurdo serve-se com humor.

Marca: Trident Total. Título: Traffic Police. Agência: Saatchi & Saatchi Colombia. Direção: Alejandro Carreño. Colômbia, Julho 2013.

Coro Virtual

Eric Whitrake. Coro virtual 3.A dar aulas também se aprende. Tenham os alunos a oportunidade… Uma aluna do curso de licenciatura em Música apresentou, para a unidade curricular de Sociologia da Arte, um trabalho dedicado ao Coro Virtual do compositor norte-americano Eric Whitacre, que lançou um apelo na internet desafiando as pessoas a cantar os seus excertos (soprano, alto, tenor ou baixo) gravando resultado de acordo com o vídeo disponibilizado  (https://www.youtube.com/watch?v=8vPqtu02BXM). Na primeira iniciativa (Lux Aurumque, 2010), Whitacre consegue reunir 185 participantes provenientes de doze países. O primeiro coro virtual adquiriu, desta forma, voz e imagem. A iniciativa mais recente (Virtual Choir 4: Fly to paradise, 2013) juntou 5 905 participantes de 101 países. O vídeo do primeiro coro é mais esclarecedor quanto ao processo. Com o tempo, os vídeos tornaram-se mais sofisticados e mais barrocos. O aparato encobre o ato. Não obstante, todas as versões revelam as potencialidades da internet, nomeadamente ao nível da participação.

Fenómenos como este surpreendem-nos, contanto ainda tenhamos uma folga para o espanto. O concerto para máquina de escrever e orquestra (Leroy Anderson, The Typewriter, 1950: http://www.youtube.com/watch?v=g2LJ1i7222c) também surpreendeu, a seu tempo, os nossos pais e os nossos avós. A Orquestra de iPhones sugerida para um workshop na Casa da Música também gera alguma perplexidade.

Junto o vídeo com o Coro Virtual 1, mais elucidativo, e acrescento o vídeo do Coro Virtual 4, mais monumental. A segunda metade deste último vídeo é tomada pela “vertigem das listas”: como num memorial, regista o nome de todos os participantes. Aconselho, porém, a consulta do artigo da aluna: http://sociologiarte.wordpress.com/2013/06/08/o-coro-virtual-criacao-de-eric-whitacre/. É mais completo, original e preciso.

Eric Whitacre. Virtual Choir 1: Lux Aurumque. 2010.

Eric Whitacre. Virtual Choir 4: Fly to paradise. 2013.

Se emagrecer…

A comunicação é dialógica. Convoca vários interlocutores e respectivas reacções, fruto ou não da imaginação. Esta ideia é banal. A comunicação também é dialógica no sentido atribuído por Mikhail Bakhtin: cada qual é um coro dissonante em fuga. Um autor é uma reconstrução babélica com propensão para a autofagia. O autor não se dá, desfaz-se. Desfaz-se como uma pilha de seixos. Mal se desfaz, logo se alheia e desinteressa. Aquele naco de si transforma-se numa folha à deriva. Soltou-se. Não fossem os outros, os seus sinais, eventualmente fabulados, e tudo se resumiria a nada. Nem diálogo, nem naco, nem folha. O autor não se dá, desfaz-se. Desaparece, aguardando novas do desaparecido. Com o tempo, desfaz-se completamente. Vanitas! Pura ilusão e vaidade. Um discurso, como este, maneirista, é pior que nada, é um abuso, é um squatter da atenção alheia. Parafraseando Fernando Pessoa, um autor é um fingidor, um fingidor que finge que existe, e ninguém dá por isso.

Toda esta verborreia serve para acolchoar o laconismo do presente comentário. A globalização também existe na publicidade. Um anúncio russo aplica-se que nem uma luva a Portugal: se emagrecer, aperte o cinto. Por favor, não mostre o que não tem. Tudo o resto é lenta e duvidosa brejeirice.

Marca: 10FIT. Fitness Centre. Título: Exhibitionist. Agência: Red Pepper. Direção: Ivan Sosnin. Rússia, Julho 2013.

Anomalia

Marcel Duchampl. L.H.O.O.Q. Mona Lisa with moustache. 1919

Marcel Duchampl. L.H.O.O.Q. Mona Lisa with moustache. 1919

Este anúncio admirável da Orange ilustra como os “apanhados” inventivos, simulados ou não, podem desafiar as próprias ciências sociais. Como lidam as pessoas com uma dissonância cognitiva inesperada? Os olhos acreditam no que vêem? Quanta exposição é necessária para se reconhecer um facto anómalo? Para admitir a presença do “impossível”? Como é gerido o conflito entre a razão e a percepção? Quem é anormal? A pintura embuste ou o público estupefacto? Como se desloca esta sensação de anormalidade? Quanto tempo demora a procura de confirmação alheia? O olhar dos outros, a experiência comum, funciona como uma âncora para a travessia cognitiva? Uma dissonância partilhada deixa de ser uma dissonância? A comunicação e o consenso conduzem à verdade? O que justifica o alívio festivo provocado pela “reposição dos factos”? Uma catarse? Uma recomposição? O resgate do “mundo natural”, do conforto da evidência? Pode a reconversão do olhar tornar-se profética? Suspender a ordem? Reconfigurar os dispositivos de acção? E, já agora, até que ponto estes sorrisos e estas piscadelas de Mona Lisa atrevida são estratégicos para a Orange? Por quê a Mona Lisa e não outro quadro qualquer? Este anúncio é da Orange, para a Orange, da Publicis Conseil ou da Publicis Conseil  para a Orange? Aceitam-se respostas múltiplas.

Marca: Orange. Título: Mona Lisa. Agência: Publicis Conseil. Direção: Bo Platt. França, Julho 2013.

Caravelas do século XXI

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

Este país pondera pouco. A palavra parece um arcaísmo eclipsado por estrangeirismos garbosos como o benchmarking ou o empreendedorismo. Portugal espreita para cima e estatela-se em baixo, saltando abruptamente de arqueísmo em neologismo, e de neologismo em neologismo. Ora sai bem, ora sai mal, ora sai péssimo. Entalada entre a lentidão pasmada e a catástrofe inevitável, a mudança é mais esperada do que preparada. Existem, é certo, casos de espécie: a tartaruga da justiça em praia reservada; a lebre da educação em catástrofe permanente. “Se” é uma palavra intrínseca à ponderação. Com duas letras apenas, mas decisiva: “se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra teria mudado” (Blaise Pascal). O “se” é o sal da ponderação. Tirando o bacalhau, o meu país anda insosso. Não basta atender às condições e mobilizar vontades, importa sondar possibilidades e probabilidades. O “se” não é obstáculo, é, antes, um ingrediente para seguir em frente. Num país onde os timoneiros nunca se enganam e raramente têm dúvidas, o se ou é um pária ou é um furúnculo. País que pouco conjectura e ainda menos pondera é um ramo de oliveira no mar da palha, atulhado em metas, directivas, milestones e ajustamentos. Qualquer pirata sabe que, pior do que navegar segundo uma cartilha, só navegar segundo uma cartilha estrangeira que se esqueceu das estrelas. “À barca, à barca, boa gente, que queremos dar à vela” (Gil Vicente). A melancolia é uma salada azeda, disjuntiva e labiríntica. Que tal reler Rudyard Kipling? Ou repetir um Pink Floyd bem velhinho (If, Atom Heart Mother, 1970)? À barca, à barca, que o inferno ainda não está cheio. Costumo estar cansado, hoje estou intragável.

Pink Floyd. If. Atom Heart Mother. 1970. Vídeo não oficial.

Contudo, tu moves-te!

Pink Floyd. One of these days.Estou cansado. Tudo se desfaz em avaliação. Uma interminável incontinência. O mundo anda gasoso. Quero, não obstante, acreditar que há ainda alguma potência no ar. Há músicas que ajudam. Meddle, dos Pink Floyd, consta entre os álbuns cujas notas se fazem carne, osso e nervo. One of these days, primeira faixa, é o despertador. Um despertador longo e ruidoso. O vídeo musical é o original, de 1971. Contudo, tu moves-te! Não és uma lesma que inala poder e se senta em discos voadores. Não brincas aos arquitectos das dinâmicas sociais. Tu moves-te. E isso custa!

Pink Floyd. One of these days. Meddlle. 1971