Archive | 2013

Não fazer compras dá azar

Sears. The Denskies. MediumEvitar fazer compras dá azar. Os Denksies são uma família que anda sempre à cata de esquemas alternativos às compras. O resultado é uma série de catástrofes. Medium é um dos anúncios da campanha da Sears. Foi publicado por altura do Halloween, com bruxas, monstros, feitiços e metamorfoses a condizer. Registe-se, por último, a ascensão da galinha no ranking mediático.

Marca: Sears. Título: Medium. Agência: mcgarrybowen, Chicago. Direção: Martin Granger. USA, Novembro 2013.

Não há dois sem três

delta-push-up-che-guevaraNa cultura indo-europeia, o número três goza de um estatuto especial (Emile Benveniste, Le Vocabulaire des Institutions Indo-européennes, Paris, Ed. de Minuit, 1969). Georg Simmel (The Sociology of Georg Simmel, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1950) releva, a propósito da composição quantitativa dos grupos, que quando se passa de uma díade para uma tríade ocorrem alterações decisivas. O que é impossível numa díade torna-se frequente numa tríade: a criação de coligações, ou seja, a disposição de dois contra um (Theodore Caplow, Two Against One: Coalitions in Triads, Englewood Cliffs, nj, Prentice-Hall, 1968). Esta fractura conflitual não é, porém, uma fatalidade. Existem trios com relações harmoniosas, ou seja, dois com um e um com dois. Esboçado este breve enquadramento teórico, podemos entregar-nos à observação empírica deste anúncio israelita da Delta Lingerie.

Marca: Delta Lingerie. Título: Mix&Relax. Agência: ACW Grey Tel Aviv. Direção: Ohav Flantz. Israel, Novembro 2013.

Papel Digital

Digital Insurance. BrazilEm turismo no Brasil, um casal de pombos depara-se com a destruição da floresta. Não revelo mais para não ser spoiler. Pode carregar em HD no canto superior direito do vídeo.

Marca: Digital Insurance. Título: Brazil. Agência: BBR Saatchi & Saatchi, Israel. Direção: Rani Carmeli. Israel, Outubro 2013.

Tecnocracia assertiva

Pais fumadores vão ter cadastro

Governo quer mudar lei do tabaco. Cadastrar os pais que fumam é uma das decisões mais polémicas.

No próximo ano, os hábitos tabagisticos dos pais devem passar a ficar registados por escrito no Serviço Nacional de Saúde e no boletim infantil das crianças. Saber se os pais fumam em casa, no carro e quantos cigarros por dia são algumas das questões que vão ser colocadas, numa nova orientação defendida por vários especialistas em saúde pública.

Segundo o semanário Expresso, outros médicos consideram estas propostas muito radicais por responsabilizarem os pais pelas doenças dos filhos. A par do cadastro, diz o jornal, o Governo decidiu que as campanhas publicitárias sobre os ‘perigos’ de fumar em casa ou no carro vão ser muito mais assertivas (Diários de Notícias, 23.11.13).

Há masoquistas que ajudam quem os persegue. O governo da República prepara-se para cadastrar os pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Uma medida profilática que só peca por tardia! Sobretudo quando, em Portugal, a mortalidade infantil aumentou de 2,5 em 2010 para 3,1 em 2011. Cadastrar é pouco! Obriguem-se os pais fumadores a andar com uma beata luminosa ao peito! Houve casos semelhantes na história da humanidade. Estigma por estigma… O mais ajustado seria exterminá-los! Em câmaras de fumo… Os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória.

A Comunidade Europeia é o primeiro espaço de cidadania em que a tecnocracia substituiu a política. Portugal integra a Comunidade Europeia, em bicos de pés e com a corda ao pescoço, bom aluno entre os piores. Importa contribuir com euros e com ideias. Junto um anúncio de sensibilização Plain Packaging, do Cancer Research UK. Falha inadvertidamente o alvo: visa as tabaqueiras e as embalagens em vez dos pais fumadores. Nem tudo pode ser perfeito. A cada um os seus santos e os seus demónios. Invade-me uma melancolia às avessas: voltam os velhos espectros…

Anunciante: Cancer Research UK. Título: Packaging. Agência: BBDO. Direção: Rob Chiu. UK, Novembro 2013.

Virando o bico ao prego

Quando escrevi que “os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória” não estava a ser irónico. Poucas decisões são mais estúpidas do que começar ou continuar a fumar. Pouco se ganha e perde-se imenso. Trata-se de um suicídio lento com um fim provavelmente doloroso. Um fumador sente-se a morrer aos poucos. Vai perdendo faculdades e somando problemas. Nas nossas sociedades, o fumo de cigarro tornou-se efetivamente incómodo. Biológica, psicológica e socialmente. Comporta riscos de saúde pública. O primeiro cigarro começa, muitas vezes, como um ritual de adesão a uma tribo de pares. Neste momento, afasta as pessoas. Dificulta a interação social. É repelente, centrífugo. Em casa, no trabalho e na rua. Incómodo transversal, cola-se como uma segunda pele. Trata-se de um hábito caro, que empobrece o fumador, a família, a sociedade e o Estado. O fumador é uma miniatura contemporânea do imperador Nero: à sua escala, queima riqueza e esfuma saúde.

Não sei por que escrevinhei este parágrafo. Toda a gente sabe! Escrever o que toda a gente sabe é tontice ou vaidade. Detesto desperdiçar letras. Se calhar, trata-se de um variante de penitência. Só tamanho acto de contrição pode demover a família do propósito de comprar uma grua para me pendurar a fumar nas alturas.

Machinarium

Chevrolet BeatboxPara apreciar este anúncio tailandês, uma versão do inesquecível Humanity (Toyota, 2006), convém esquecer as anedotas de mau gosto sobre limpa-pára-brisas interiores. As posturas e as mímicas parecem ridículas? Sobretudo quando são vistas com olhos quadrados.

Marca: Chevrolet. Título: Beatbox. Agência: Commonwealth. Direção: Luci Schroder. Tailândia, Novembro 2013.

Marca: Toyota. Título: Humanity. Agência: Hakuhodo. Direção: Ne-o. Japão, 2006.

Provocação

Classic movies_V2Há anúncios que, mais que convencer ou seduzir, provocam. Abusam da alusão e da paródia, focalizadas no sexo. Gozam com assuntos sérios. São aguardente pura: aquecem, primeiro, o estômago e, depois, o espírito, rumo à embriaguez total. A provocação é um catalisador de relações, centelha e cimento da interacção social. A antropologia sabe isso. A provocação publicitária não é novidade. Lembram-se das campanhas da Benetton? E do anúncio da Perrier com uma garrafa que cresce à medida que é acariciada por uma mão feminina? A provocação abre caminho. E o insulto? Ainda não. Alguém testou? Os antropólogos também sabem disso, a não ser mais a propósito dos rituais. Se calhar, tinha alguma piada um anúncio que nos insultasse: “Sua besta adiposa! Sim, tu, papa-pixeis, desperdício sem reciclagem! Vai passear um burro às costas! Vota em quem te albarde! Pões  o ecrã doente! Tem-te alergia, basta a tua sombra para se cobrir de urticaria, desdigitaliza-se. És um novo híbrido: o para-raios da estupidez. Um arroto da criação. Pior, só a histerese do habitus, a glocalização, a sociedade invisível e a liquidez do amor”. Era giro, não era?

Marca: Valformosa.  Título: Valformosa cava wants Belgians to make more babies. Agência: Duval Guillaume Modem. Direção: Koen Mortier. Bélgica, Novembro 2013.

David Bowie, a máscara e o barroco em Veneza

Louis Vuitton. L'Invitation au voyage 2

A Louis Vuitton renova o convite à viagem. O primeiro destino foi Paris (http://tendimag.com/?s=invitation+au+voyage), agora é Veneza, num anúncio vincadamente barroco caracterizado pelo jogo das máscaras,numa turbulência colectiva onde nem sequer falta um esboço de levitação. Neste quadro, David Bowie é uma figura natural. O anúncio é de um belo efeito estético; não ofusca, porém, o anterior.

Marca: Louis Vuitton. Título: L’invitation au voyage. Agência : Direct. Direção : Romain Gavras. Novembro 2013.

Só sobe o que tem peso

Santiago ‘Bou’ Grasso, El EmpleoEstou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos.

A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão.

A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso.

Santiago ‘Bou’ Grasso é um realizador argentino admirável. Não falta quem escreva poemas com imagens. Simultaneamente, sóbrios e generosos, são obra rara. A primeira curta-metragem é dedicada à leveza; a segunda, ao peso de chumbo da existência. As nossas vidas em poesia e em prosa.

Santiago ‘Bou’ Grasso. El Pájaro e el Hombre. Argentina, 2005

Santiago Bou Grasso. El Empleo. Argentina, 2011

Azul e vermelho

takis-windshield-wipeAzul e vermelho, água e fogo, fogo por dentro, fogo por fora, o que é? Pelo sim, pelo não, não deite água insalubre no automóvel. Pode ter calores que requeiram resfriamento urgente. Em suma, um bom anúncio cómico e disparatado.

Marca: Takis. Título: Windshield Wiper. Agência: Publicis Dallas. Direção: Nicolas Lyer. USA, Novembro 2013.

Nina Simone. Beautiful land.

Apelo sanitário

WaterAid. Thank you toilet.Água e saneamento faltam em boa parte do planeta. “It’s 2013 and yet 2,000 kids a day die from lack of sanitation. WaterAid have a mission to bring clean water and sanitation to everyone, everywhere by 2030”. Ponha os olhos no papel higiénico e oiça solidariamente a canção da sanita. “A child dies every minute because they don’t have a toilet.”

Anunciante: WaterAid. Título: Thank you toilet. Agência: Now, London. Direção: Glue Society. UK, Novembro 2013.