Archive | 2013

Feliz Natal

WWF. Wonder World Fur. 2013

WWF. Wonder World Fur. 2013

Para todos os amigos, em especial para os que estão no estrangeiro, votos de Feliz Natal e de um óptimo Ano Novo!
Seguem dois vídeos de boas festas. São muito diferentes: um é o de cima e o outro é o de baixo. Para visualizar com boa resolução o de baixo, carregar no canto superior direito em HD.

Marca: Atresmedia. Título: Mucha televisión, mucha navidad. Agência: Swing, Swing. Direção artística: Gabriel da Silva. Espanha, Dezembro 2013.

Marca: Théâtre de la Bastille. Título: Edgar & Kelly. Agência: Leo Burnett France. Direção: Jean-Marc Gosse. França, França, Dezembro 2013.

ISI Riders. A ciência na era da comunicação generalizada

“Demasiada luz ofusca”
Blaise Pascal

ScienceComecei uma crónica que ficou obesa. Adquiriu dimensão de artigo. Por cautela, cortei-a às postas para a publicar num formato amigável. Estou a ficar alérgico à palavra artigo: causa-me urticária e, às vezes, gastroenterite. Na modernidade retardada, um artigo que se preze deve aspirar à honra de uma revista com fator de impacto. Assim ditam os categóricos. Acodem-me algumas imagens insidiosas: o cientista como mendicante, como homem-sanduíche ou como funcionário do espírito.

Escrevo artigos sobre temas que me interessam, em revistas que aprecio, normalmente por convite. Apego-me a estes pequenos nadas: autonomia, escolha e colaboração. Não deixo de ponderar que, num blogue razoável, um texto meu colherá mais leitores em cinco dias do que um artigo, também meu, numa revista com fator de impacto em cinco anos. Continuo a ruminar: por que motivo um artigo publicado numa revista portuguesa vale quase nada e a sua tradução numa revista estrangeira com fator de impacto vale quase tudo? Anda aqui mão de Conde Andeiro.

Os donos do poder e da ciência estão a transformar a investigação num espécime sem corpo, só cabeça, a modos como o bilionário do romance I Will Fear No Evil, de Robert A. Heinlein. Um cientista parece cada vez mais um jogador de basquetebol. É um encestador de papers. É o gesto, a arte, que define o artista.

Porquê tamanha fixação em organizações como a ORCID ou em bases de dados como a SCOPUS? Será que alguém quer filtrar e acelerar a informação na comunidade científica? Ontem sonhei com a Nova Jerusalém da ciência: vi tribos de cientistas a convergir em filas para a cidade sagrada: o mercado global do saber hiper-normalizado. Uns entusiasmados, outros calados, outros recalcitrantes. Adivinha-se algum ranger surdo de dentes, mas, deste jeito, só sofrem os maxilares.

Em Portugal, há um ditado novo: se queres semear, começa pela cúpula. Para promover alguns, desvaloriza-se o resto. O poder é um bom fertilizante. Faz crescer dependências. E os jogos do poder são uma seiva mais viciante do que as máquinas dos casinos. O mocho já foi símbolo da sabedoria, a honra cabe agora ao cuco. À semelhança da maçã de Prévert, a ciência não é para pintar, é para fazer. O contrário é uma falácia.

O Passeio de Picasso

Numa base bem redonda de porcelana real
posa uma maçã
Face a face com ela
um pintor da realidade
em vão tenta pintar
a maçã tal como ela é
mas
ela não vai deixar

e o pintor atordoado perde de vista seu modelo
e adormece
É então que Picasso
enquadrando-se ali como em toda oportunidade
cada dia como em sua casa
vê a maçã e o prato e o pintor adormecido
Que ideia de pintar uma maçã
diz Picasso
e Picasso come a maçã
e a maçã lhe diz Obrigado
e Picasso quebra o prato
e sai dali sorridente
e o pintor arrancado de seus sonhos
como um dente
se encontra só novamente diante da sua tela inacabada
com os terríveis caroços da realidade
bem no meio da sua louça despedaçada.

Jacques Prévert, 1949

A maldade compensa

Jaguar vs chickenNem tudo é fé, esperança e caridade na quadra natalícia. Há anúncios que parodiam a marca rival e, num assomo de malvadez, comem-lhe a mascote, a célebre galinha com controlo corporal mágico. Good to be bad! A maldade compensa.

Marca: Jaguar. Título: Jaguar vs chicken. USA, Dezembro 2013.

Pedagogias

Uma citação, uma gravura e um poema.

“Contrariado, o pai [Grangousier] apercebeu-se que [Gargantua], embora estudasse muito bem e nisso empregasse todo o tempo, não obtinha nenhum aproveitamento e, pior ainda, estava a ficar doido, néscio, completamente aturdido e decrépito.”
(François Rabelais, Gargantua, capítulo XY).

Francisco de Goya. Ni mas ni menos. Los Caprichos (41). 1799.

Francisco de Goya. Ni mas ni menos. Los Caprichos (41). 1799.

O Cábula

Com a cabeça diz não
mas diz sim com o coração
diz sim àquilo que ama
e ao professor diz não
está de pé
é interrogado
e todos os problemas se colocam
de súbito tem um ataque de riso
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as ratoeiras
e apesar das ameaças do mestre
e sob as vaias dos meninos-prodígio
com paus de giz de todas as cores
desenha no quadro negro da dor
o rosto da felicidade

Jacques Prévert
Tradução: Manuela Torres

Anda tudo do avesso!

Acabei de dar uma entrevista a uma jornalista sobre a emigração portuguesa. Fiquei com uma sombra no pensamento: nos anos sessenta, os emigrantes partem com o regresso no horizonte; agora, despedem-se! Há famílias que, antes de partir, vendem tudo. Não deixam amarras. Quem fica também se despede: da crença de que a sociedade portuguesa é previsível, digna de confiança, onde se constrói o futuro, sem fazer rir os macacos do jardim zoológico. O que se destruiu não foi o sonho, destruiu-se o sentido de realidade.  Nem no tempo de Salazar e Caetano, os portugueses tiveram tamanha lavagem de princípios e convicções. Já não somos obreiros do futuro, mas fiadores do passado presente. Conheço duas canções, amargas, intituladas “sem eira, nem beira”. Uma circulava entre os emigrantes nos anos oitenta, a outra é esta dos Xutos e Pontapés.

Xutos e Pontapés. Sem eira, nem beira.

O corpo fala!

Manos Unidas. Efectos de la pobrezaO corpo é o nosso “banco de símbolos”. Mais do que um banco, é uma “charneira de símbolos”. O corpo diz o que somos, pelo corpo dizemos o mundo. Parodiando a dialéctica, com o corpo fazemos o mundo, pelo corpo o mundo nos faz. Não me acode identidade que não encarne, nem corpo que não identifique. O corpo fala, mesmo quando está calado. Muitas vezes, fala por nós, como neste anúncio aparentemente tão simples. A simplicidade não é fácil, mas costuma ser clara, clara até doer. “La vida pasa para todos, pero no para todos pasa igual, experimenta tú también los efectos de la pobreza Entra en http://www.efectosdelapobreza.org y da la cara por los más desfavorecidos del planeta con Manos Unidas”.

Anunciante: Manos Unidas España. Título: Efectos de la pobreza. Agência: Maxus. Direção: Pablo Robles. Espanha, Dezembro 2013.

Jesus, a Internet e as Crianças

unicef-dinner-partyOs tempos são de ascensão e bondade, mas vai ser difícil igualar a Unicef. Uma ceia com Jesus, Madre Teresa e Gandhi, que, para salvar as crianças, vão ter que aprender a fazer donativos na Internet. Grandes causas, grandes embaixadores!

Anunciante: Unicef. Título: The Dinner Party. Agência: Forsman & Bodenfors.  Suécia, Dezembro 2013.

Anunciante: Unicef. Título: Jesus goes online. Agência: Forsman & Bodenfors.  Suécia, Dezembro 2013.

O arredondamento do mundo

Pepsi cola. Cristiano RonaldoO futebol atingiu uma nova dimensão. A TyC Sports da Argentina convoca o Papa para a seleção. A Pepsi Cola apoia a selecção da Suécia recorrendo a magia negra sobre Cristiano Ronaldo. Agora, a cerveja Cristal “mete miedo”, por artes ocultas, aos holandeses que vão jogar contra a  selecção do Chile. Existem réplicas para os australianos e para os espanhóis. Com o arredondamento do mundo, os valores andam irreconhecíveis. E a procissão ainda não chegou ao estádio…

Marca: Cristal. Título: Chile vs Holland. Agência: Porta. Direção: Gaspar Antillo. Chile, Dezembro 2013.

Não somos perfeitos, mas sonhamos

Primitiva. No tenemos sueños baratosEste anúncio inspira-nos: não somos perfeitos, mas sonhamos (vídeo 1)! Se os espanhóis contam com Don Quixote e Salvador Dali, por cá, o nosso subconsciente está encravado: temos uma neurose obsessiva, uma fixação em portas e roedores (vídeo 2).

Marca: Loteria la Primitiva. Título: No tenemos sueños baratos. Agência: Publicis. Direção: Alex Juliá. Espanha, Novembro 2013.

Ynf. Free Doors.