Requiem desportivo
Eis um anúncio que não aspira à santidade. O protagonista é viciado em futebol. Não se enxerga! Confunde uma urna com uma claque e o cemitério com um estádio. Somos contemplados com dois minutos de equívoco. O que é obra! Raia o incómodo. Sem belas almas, mas com boa gente, o ser humano dança o tango no humor argentino. “Nem anjo, nem demónio”, oscila, pardo, entre a graça e o pecado. De vez em quando, cai bem um anúncio dissonante que não prega fé, esperança e caridade.
Marca: T&C Sports. Título: Requiem. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.
A Unilever e a Natalidade
A Ana enviou-me este anúncio extra longo (4:25) da Unilever, uma multinacional que reúne várias marcas: Axe, Lipton Ice Tea, Knorr, Alsa, Olá, Calvé, Maizena, Hellmann’s, Skip, Cif, Omo, Vasenol, Lux, Rexona, Pepsodent, Dove, Azeite Gallo… Este anúncio é “mais um exemplo da escalada, na publicidade, da auto-proclamação de responsabilidade social, do coro da consciencialização social e da reciclagem da figura do bom samaritano” (http://tendimag.com/2013/12/14/o-bom-samaritano-na-comunicacao-viscosa/). Acrescente-se a este cocktail o simulacro da participação e da interacção! É pelo coração que se cativam os seres humanos. Se pela boca morre o peixe, pelo coração engolimos os anzóis. As grandes causas e altos valores são a nossa perdição. Neste anúncio, a grande causa é a natalidade, o valor, a paternidade, e a promessa, a criação de um mundo melhor. Why bring a child into this world é um anúncio bem concebido e bem produzido. Na vanguarda da moda, permanece clássico. Sustenta-se que os tempos nunca estiveram tão bons para ter filhos. Hoje melhor que ontem e pior que amanhã… E no País do azeite Gallo?
Marca: Unilever. Título: Why bring a child into this world. Agência: Ogilvy & Mather London / David Latin America. Direção: Errol Morris. UK, Novembro 2013.
O mundo é cómico e a vida é bela…
Os amigos não se cansam de me mimar com prendas digitais. Sou um homem de sorte. A Germana acabou de me enviar uma apresentação com fotografias de René Maltête (1930-2000) focalizadas no insólito das coincidências e das incongruências fortuitas que animam a experiência banal. Já tinha visto, mas é à segunda que se gosta de verdade. Por acréscimo, vale a pena ouvir Jean Ferrat (1930-2010). O mundo é cómico e a vida é bela. Dizem eles…
Para descarregar a apresentação (5 MB): René Maltête. Fotografia.
O Bom Samaritano na Comunicação Viscosa
Recebi vários anúncios enviados por amigos. Começo pelo John, um amigo de longa data: “E esta? Uma companhia gigantesca como a Coca-Cola com um reclame a dizer que te faz mal, destrói-te os dentes, causa envelhecimento, e diminui saúde e atletismo no corpo humano.” O anúncio é, tanto quanto sei, falso e capaz de enganar muita gente (ver https://www.youtube.com/watch?v=bHhCP5ad-zM)
Segue um anúncio original da Coca-Cola. Por sinal, mais um exemplo da escalada, na publicidade, da auto-proclamação de responsabilidade social, do coro da consciencialização social e da reciclagem da figura do bom samaritano.
Marca: Coca-Cola Great Britain. Título: Coming Together. UK, 2013.
A Nova Jerusalém
Deus criou o mundo em seis dias. Obra perfeita. Ao sétimo, descansou. Mas a perfeição não era perfeita. Ao oitavo dia, Deus quebra o repouso e regenera a criação, iniciada a um domingo e a um domingo ultimada.
Houve tempos em que a promessa de salvação era apanágio da Igreja. Seguiu-se a política. Entretanto, as esferas celestiais rolam nos estádios e a Nova Jerusalém adquire foros de cotação na bolsa. Mas ainda não acordamos do sonho do Apocalipse de João. Os anjos brancos e os anjos negros continuam a defrontar-se perante os nossos olhos impotentes. E os anjos negros parecem cair não no inferno mas num enorme trampolim.
O anúncio brasileiro A Grande Transformação, do Banco Itaú, é uma obra-prima de comunicação. Soberbo! Quando o poder financeiro coloca maravilhas ao peito apetece entoar glórias e hossanas. Mas a experiência ensina-nos que sempre que travestimos seres humanos em deuses, São Bartolomeu solta o diabo.
Marca: Banco Itaú. Titulo: A Grande Transformação. Agência: Africa, Brazil. Direção: Cláudio Borrelli. Brasil, Dezembro 2013.
“Vi também a cidade santa, a Nova Jerusalém (…) Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim (…) Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro, e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus. Tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas, nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Três portas se achavam a leste, três, ao norte, três, ao sul, e três, a oeste. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro. Aquele que falava comigo tinha por medida uma vara de ouro para medir a cidade, as suas portas e a sua muralha. A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios. O seu comprimento, largura e altura são iguais. Mediu também a sua muralha, cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, isto é, de anjo (…) As suas portas nunca jamais se fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite. E lhe trarão a glória e a honra das nações.”
(Apocalipse 21:1 – 22:5)
O sexo e o género
A desigualdade na repartição das tarefas domésticas não é uma questão de sexo, mas de género. Não radica na biologia mas na cultura. O anúncio da Magistral mostra o que já sabemos: lavar pratos não atenta contra a integridade do homem. Não deixa de ser interessante esta vaga de anúncios que convocam causas sociais, independentemente do produto. Agora um detergente, logo uma lima para os cornos do diabo.
Marca: Magistral. Título: Hospital. Agência: Grey Argentina. Direção: Andrés Salmoyraghi / Julieta García Casalia / Matías Gutierrez. Argentina, Dezembro 2013.
Bendita Bola
Este anúncio de TyC Sports, um canal de televisão argentino, selecciona passagens do discurso do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro e compõe uma exortação à selecção de futebol da Argentina. O teor desta descontextualização revela a margem de manobra da publicidade actual. Poucas esferas de actividade, incluindo a política, gozam deste à vontade face aos limites da conveniência. Embora mudando de contexto, o discurso mantém-se na esfera da religião. Desliza, apenas, do catolicismo para o futebol. Com a atenuante de, exceptuando Cristiano Ronaldo, serem todos argentinos: o papa, a selecção, a agência de publicidade e o canal de televisão. Na Argentina, a religião e o futebol entrelaçam-se. Quem não se lembra da “mão de Deus”, decisiva na vitória na final entre a Argentina e a Inglaterra (2-1) no campeonato do mundo de 1986 no México?
Marca: TyC Sports Argentina. Título: Jogo bendito. Agência: Young & Rubicam Argentina. Argentina, Dezembro 2013.
Este esquema de anúncio, que raia o pecado (“não invocar o santo nome de Deus em vão”), não é inédito. A pretexto da campanha do Campeonato do Mundo de Futebol de 2010, na África do Sul, a Quilmes lança um anúncio semelhante em que Deus prega um sermão aos argentinos sobre as prestações da selecção azul celeste e branco nos diversos mundiais. Passe a subjectividade, embora produzidos ambos pela agência Young & Rubicam, considero o anúncio de 2010 mais bem conseguido.
Marca: Cerveceria Quilmes. Título: Dios. Agência Young & Rubicam Argentina. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 2010.
We Believe in entertainment!
O homem é um animal de convicções! Os franceses não destoam. Durante a crise de 1973, lembraram-se do seguinte lema: “Os franceses não têm petróleo, mas têm ideias”. Ao contrário dos romanos, que são malucos, os franceses são experts em ideias fantásticas.
A BEPC Paris, uma das melhores agências de publicidade a nível mundial, confirma esta vocação nacional. O anúncio The Wise Man surpreende com um dos desfechos mais espantosos e irreverentes de que há memória. As figuras do presépio rendem-se aos encantos da televisão. Eis uma inspiração digna de quem lhe está a cair o céu na cabeça.
A França tem ideias! Mas não tem petróleo. O que é incómodo. Talvez um ajustamento desse jeito… Para começar, um programa ambicioso de benchmarking externo e interno… Por exemplo, apostar em converter ideias originais em porcaria de série. De preferência, porcaria de alta qualidade. Existem alguns casos de sucesso que podem servir como referência: no século XIX, os franceses ergueram uma ideia colossal, a Torre Eiffel; desde então, reproduziram milhões de miniaturas. A multiplicação do mesmo sempre rende petróleo.
Marca: Canal+. Título: The Wise Man. Agência: BEPC Paris. Direção: Gary Freedman/The Glue Society. França, Dezembro 2013.
A Alcoviteira Pós-moderna
Este anúncio não esconde a marca de origem: conta, de fio a pavio, uma história emocionante bem ao jeito do cinema indiano. Uma história com enredo tecnicamente assistido. A técnica não só faz corpo, como se insiste, continua a fazer sentido, como, por vezes, se esquece. Dois idosos amigos reencontram-se graças à iniciativa de um terceiro elemento, a neta. O quarto elemento, o Google, é o facilitador, ou seja, a alcoviteira pós-moderna. Um belo anúncio que lembra que as relações entre gerações não têm por que não ter o tamanho do arco-íris.
Marca: Google. Título: Reunion. Agência: Ogilvy & Mather, Mumbai. Direção: Amit Sharma. Índia, Novembro 2013.




