Archive | Maio 2012

Desgravitar: O Gato e a Torrada

Esta “Gatorrada” surpreendeu-me, o que é raro. Deixei-a a marinar para me habituar. Assenta num paralogismo: os gatos caem sempre sobre as patas e as torradas, segundo a “lei de Murphy”, com a parte barrada para baixo; se colocarmos no dorso de um gato uma torrada com a parte barrada para fora e os deixarmos cair, estes acabam por ficar suspensos no ar, uma vez que o gato nunca cai de costas, nem a torrada cairá com a parte barrada para cima. (http://uncyclopedia.wikia.com/wiki/Murphy%27s_law_application_for_antigravitatory_cats). Esta anti-gravidade, associada ao movimento giratório perpétuo, constitui uma fonte de energia inesgotável.

A publicidade é, porventura, a mais predadora das artes. Inspira-se a torto e a direito. Pega as ideias onde estiverem. Para ilustrar a popularidade do caso do gato e da torrada, acrescento um vídeo publicado em 2006.

Marca: Flying Horse. Título: Gatorrada / Cat-toast. Agência: Ogilvy. Direção: Tomat. Brasil, Maio 2012.

Vencidos da vida

Quem faz o simples, também é capaz de complicar. Os comportamentos e as feições dos animais deste anúncio produzido pela Albiñana Films espelham um desânimo encurralado. Estamos perante os novos “vencidos da vida”. De que sofrem? Do mal da cidade. Pelos vistos, o Audi Allroad V8 Quatro, também não. E as oportunidades, Senhor! As oportunidades! O maná contemporâneo dos desvalidos…

Marca: Audi Allroad. Título: Zoo. Agência: DDB Barcelona. Direção: Ramses. Produção: Albiñana Films. Espanha, 2004.

Uma vez que convoquei os “vencidos da vida”, gostava de lhes gritar, à distância de mais de um século, que a realidade não vence as ideologias. Mas o mais avisado é calar-me: a realidade não vence as ideologias, mas a vida, talvez…

Vencidos da vida. Da esquerda para a direita. De pé: Conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Luís de Soveral, Guerra Junqueiro, Conde de Arnoso. Sentados: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Conde de Ficalho e António Cândido.

“Os Grandes Alquimistas do Nosso Tempo”

Em Portugal, também há ideias simples com impacto. Este anúncio, Predictable, da WWF (2009), é um exemplo: a água transborda com o degelo. Atendendo ao nosso calendário, ao mesmo tempo comprimido e saturado, trata-se de um anúncio que “já tem alguns anos”. Entretanto, a mobilização contra o aquecimento global parece ter sofrido algum arrefecimento. A produção deste anúncio coube à Albiñana Films, empresa com sede em Barcelona, Madrid, Lisboa e São Paulo, cujo vídeo de apresentação é todo um programa de reencantamento do mundo (Peter L. Berger), sintonizado, aliás, com algumas das tendências que temos vindo a investigar. Vale a pena prestar atenção ao discurso em voz-off.

Anunciane: WWF Vote Earth! Título: Predictable. Agência: Ogilvy, Lisbon. Direção: Ricardo Albiñana. Produção: Albiñana Films. Portugal, Dezembro 2009.

Albiñana Films. Vídeo Presentation.

Um reparo adicional. Os anúncios publicitários são tantos e contêm tantas dimensões que é difícil um anúncio não lembrar algum outro. No caso deste vídeo de apresentação da Albiñana Films, a solução adoptada para a voz-off aproxima-o bastante de um anúncio da BBC digital: Heads (2005):

 

Cuidado com os coelhos!

Meio século depois de “Os pássaros”, chegou a vez dos coelhos! São ferozes e deslocam-se em bandos. Se vir um coelho, esqueça-se de tudo o que aprendeu. Só o vai prejudicar. Em caso de roedura, dirija-se ao veterinário mais próximo. “Nothing you have witnessed before has prepared you for such sheer stabbing shock!” (Alfred Hitchcock, 1963). Mas não digam que não fomos avisados. Quem não se lembra do Bugs Bunny? Um adversário temível… .

Alfred Hitchcock. The Birds. 1963

Marca: Ken’s Salad Dressing. Título: Guard rabbit / Heist. Agência: McCarthy Mambo Bertino, Boston, MA, USA. Direção: Mike Maquire. EUA, Maio 2012.

A redenção dos Pés

Física e simbolicamente dominados, os pés são ímpares no que respeita a abnegação e sacrifício. Parece ser sua vocação, e nossa também, suportar os outros e o mundo, andar com a altivez às costas. “Pés de todo o mundo, uni-vos!” Dai um pontapé aos vossos fardos! Rexonem-se!

Marca: Rexona Efficient. Título: Acknowledgement. Agência: Ponce, Buenos Aires. Direção: 300 ml. Argentina, Maio 2012.

Amizade sobre rodas

Há anúncios que não mostram o produto. Já se sabe! Há anúncios que convocam maus sentimentos e péssimos valores (e.g, anúncios do Ford Sport Ka). Já se sabe! Há anúncios que em vez do produto mostram maus sentimentos e péssimos valores. Fica a saber-se! Mas contam uma história, entranham-se e vendem!

Marca: Toyota Yaris. Título: Friends. Agência:  Saatchi & Saatchi, Puerto Rico. Direção: Cali Ameglio. Porto Rico, Maio 2012.

Marca: Ford Sport Ka. Título: Bird/Cat. Agência: Ogilvy & Mather. UK. 2004.

Doação de órgãos

Última exalação. Hoje como ontem, a alma deixa o corpo para uma nova demanda. Mas a salvação também mora no corpo que fica, no cadáver. A doação de órgãos tem tido boa publicidade. Este anúncio brasileiro constitui um exemplo. A música é um achado.

Anunciante: ABTO. Título: Soul. Agência: DDB Brasil. Brasil, Maio de 2012.

Anamorfose

Quando uma imagem à primeira vista estranha e deformada se torna nítida e significativa sob determinado ângulo ou mediante determinado instrumento, estamos perante uma anamorfose. Um dos casos mais célebres é a caveira do quadro Os Embaixadores (1533), de Hans Holbein. Este vídeo, “Qui Croire” (2011), de François Abélanet, apresenta uma anamorfose grandiosa, feita à escala da Place de l’Hotel de Ville, em Paris.

Dior. Secret Garden. Versailles

Glória a Versalhes, glória à mulher magra, glória ao jato de água! A Dior no seu esplendor. O luxo e a luxuria num piscar de olhos obsessivo. Com a Daria Strokus a correr na Galeria dos Espelhos do jeito que os anjos voam quando encolhem as asas. Um belíssimo anúncio com exímia combinação entre a cor e o preto e branco. Ainda bem que há quem saiba o que sabe fazer.

Marca: Dior. Título: Secret Garden – Versailles. Direção:  Inez VAN LAMSWEERDE. França, Abril 2012.

Dignidade

Iwaki, no Japão, foi vítima do tsunami e do acidente nuclear. Os habitantes, um ano depois, não esquecem; rezam em silêncio de olhos fechados. A seguir ao vídeo, um texto que escrevi há um ano, duas semanas após a tragédia.

Iwaki City. Pray together with us. Agência: Dentsu Tokyo. Direção: Futoshi Takashima. Japão, Março 2012.

Flor de cereja amarga

Ao quinto terramoto mais severo de que há registo, segue-se um tsunami com ondas de 13 metros que provoca um acidente nuclear difícil de controlar. Os novos cavaleiros do Apocalipse passaram pelo Japão.

Abundam as notícias e as imagens do tsunami e das sequelas do acidente nuclear. Já a reacção da população suscita perplexidade. Nem desacatos, nem vitimação pública. Em vez da expressão dramática do sofrimento, a contenção trágica da dor, imune a qualquer intrusão.

Esta postura estóica integra, há séculos, a cultura japonesa. No livro O Crisântemo e a Espada, publicado em 1946, a antropóloga Ruth Benedict observa: “Quando as águas inundam uma aldeia japonesa, qualquer pessoa que se respeite a si mesma recolhe os haveres que quer levar consigo e procura as terras mais altas. Não há gritos, nem correrias tresloucadas, nem pânico (…). Tal comportamento faz parte do respeito que uma pessoa tem por si própria no Japão, incluindo quando sabe que não vai sobreviver.”

Afigura-se-nos que o sofrimento da população japonesa não granjeou mesma cobertura mediática que outros povos igualmente castigados. Será por contenção? A um primeiro momento de estranheza, seguiu-se um segundo de compreensível pudor? Será por relevância? Poderá o olhar táctil das nossas extensões técnicas alcançar a dor oculta dos japoneses? Propensos ao “sofrimento à distância” (Luc Boltanski), serão os “ocidentais” mais permeáveis à retórica da dor do que à pragmática da dignidade?

Entretanto, com ou sem radioactividade, florescem as cerejeiras no Japão.

01 de Abril de 2011

Albertino Gonçalves