Pinturas limpas
Somos poliédricos, irisados e camaleónicos. Assim nos pintam os sábios da pós-modernidade. Mas a mistura de tantas cores pode terminar numa enorme mancha cinzenta. Felizmente há ideias capazes de trazer alguma brancura a esta policromia noturna. O Service Civique (http://www.service-civique.gouv.fr/) é um organismo oficial francês que mobiliza os jovens entre 16 e 25 anos para a intervenção social. A TBWA/Paris associou-se à campanha do Service Civique com um anúncio que filma a aplicação de “clean tags” nos muros de Paris. O “clean tag” é uma modalidade de arte de rua que consiste em lavar os muros com água fluvial através de um estêncil, resultando uma marca ou uma figura. Este procedimento coaduna-se com os objetivos ecológicos do Service Civique. Colocadas em locais chave, as silhuetas brancas em tamanho natural retratam as principais atividades desenvolvidas pelos voluntários: apoio aos sem-abrigo, restauro do património histórico, proteção do ambiente… Posto isto, e não desfazendo, quer-me parecer que resulta mais fácil retirar uma marca suja de um muro limpo do que uma marca limpa de um muro sujo.
Anunciante: Service Civique. Título: Clean Tags. Agência: TBWA Paris. França, Março 2012.
Asas de Ícaro
Segundo a agência australiana The Monkeys, este anúncio para o UBank aborda com humor as grandes questões da vida. Pelos vistos, as quedas são os melhores momentos para refazer contas à vida. E os bancos são os oráculos e o purgatório do nosso tempo, sempre dispostos a exceder-se em generosidade e a proteger-nos de lobos e abismos. Primeiro, a queda, depois, a salvação. À semelhança do caçador do conto do Capuchinho Vermelho, um bom banco não caça, resgata as criaturas carenciadas. Empresta-lhes umas belas asas de Ícaro para sobrevoar as chamas do pesadelo!
Anunciante: UBank. Título: Since Today. Agência: The Monkeys, Australia. Direção: Christopher Riggert. Austrália, Março 2012.
Grotesco maneirista: Christophe Jamnitzer
“Já no maneirismo, o mundo às avessas se manifesta com frequência na desorientação dos labirintos, de modo que, nesse ponto, o grotesco maneirista se aproxima do romântico, visto que se pauta pela confusão da perspectiva e falta de referência apresentados pelo olhar do indivíduo inserido em um mundo incerto, aberto ao hostil e cujos suportes parecem desmoronar” (Santos, Fabiano Rodrigo da Silva, Considerações sobre aspectos do grotesco na poesia de Bernardo Guimarães e Cruz e Sousa, São Paulo, Editora UNESP, 2009, p. 122).
O livro de gravuras (Neuw Grottessken Buch, 1610) do ourives alemão Christophe Jamnitzer (1563-1618) constitui um bom exemplo de grotesco maneirista. As linhas curvas desdobram-se instáveis, tensas, em movimento. A criatividade subjectiva exacerba-se numa artificialidade sofisticada. Os fenómenos mais desencontrados cruzam-se e abraçam-se, como ocorre no sonho e na loucura. E a ausência de enquadramento concorre para dispensar a perspectiva e suspender a gravidade.
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 1
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 2
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 3
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 4
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 5
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 6
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 7
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 8
A liberdade é poder escolher as amarras
Quando o cansaço mental apanha o corpo, o melhor é dormir ou ouvir música. Mas há músicas que não deixam descansar. Não param de dançar com a memória. É o caso de “Ma liberté”, cantada quer por George Moustaki, quer por Serge Reggiani. A liberdade é poder escolher as amarras. Por isso, lhe somos tão infiéis.
Trio bocal
O grotesco tem possibilidades insuspeitas. Está sempre a adquirir novas feições. Sendo desconcertante, não deixa, porém, de ser apelativo. Tão apelativo que a publicidade não o larga.
Produto: Atlanta St. Patricks Parade. Título: Irish Eyes. Agência: Fitzgerald & Company Craig Miller Productions. Direção: Craig Miller. EUA, Março 2012.
Tendências do Imaginário: Um balanço
Passados seis meses da criação do blogue Tendências do Imaginário, convém fazer um breve balanço.
Primeiro dado, surpreendente: “Tendências do Imaginário” é quase tão consultado no Brasil como em Portugal: na última semana, ocorreram 268 visitas de Portugal e 233 do Brasil (ver Gráficos 1 e 2).
Segundo dado, expectável: crescimento sustentado do número de visitas, passando de uma média de 30 visitas por dia em Setembro de 2011 para uma média de 84 visitas por dia em Março de 2012 (ver Gráfico 3). No total, somam-se 8 628 visitas e 260 artigos.
Terceiro dado, curioso: entre os dez artigos mais visitados, predominam, contanto mais raros, os textos e os vídeos criados pelo responsável do blogue (ver Gráfico 4).
Porque a vida é um sonho um pouco menos inconstante
“Se todas as noites sonhássemos com a mesma coisa, isso afectar-nos-ia tanto como os objectos que vemos todos os dias. E, se um artesão estivesse certo de sonhar todas as noites, durante doze horas, que era rei, creio que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era um artesão (…).
Mas, porque os sonhos são todos diferentes e um mesmo se diversifica, o que neles se vê afecta muito menos do que o que se vê acordado, por causa da continuidade, que não é, no entanto, tão contínua e igual que não mude também, mas menos bruscamente, se não raramente, como quando se viaja. E diz-se então: «Parece-me que estou a sonhar». Porque a vida é um sonho um pouco menos inconstante “ (Pascal, Blaise, Pensamentos, 386).
Pascal, um surrealista? Não, apenas um sábio.
Marca: Pelephone. Título:Dream/Speed. Agência: Adler Chomsky & Warshavsky GREY. Direção: Eli Sverdlov. Israel, 2012.
Marca: Pelephone. Título: Wedding. Agência: Adler Chomski & Warshavsky Mulla Productions. Direção: Eli Sverdlov. Israel, Março 2012.
Bisbilhotice de Massas (ComUM online)
Este anúncio de The Guardian (Three Little Pigs; BBH London, UK, Fev. 2012) dedicado à cobertura do “caso dos três porquinhos” constitui um bom preâmbulo a um ensaio sobre a bisbilhotice de massas.
No meu tempo de criança, a bisbilhotice era uma actividade vital da aldeia. Dispunha dos seus locais predilectos: o lavadouro, a taberna, o barbeiro, o alfaiate, a modista. Mas qualquer lugar se prestava ao mexerico. Até o cemitério. Na própria estrada, se procedia à actualização dos repertórios. A bisbilhotice era o principal devaneio lúdico dos meus conterrâneos. Como diria Durkheim, constituía uma das poucas fontes de efervescência local. Nesta “dança da vida”, a informação corre, vertiginosa, de “boca em orelha”. Goza quem conta, mas também quem ouve para logo contar. Goza-se no acto e por antecipação. Um autêntico frenesi apodera-se do portador de um “segredo”. Não descansa enquanto não o dissemina. Mas, como enfatiza Norbert Elias, a bisbilhotice, além de divertimento, também é controlo social, um processo orquestral implacável que visa manter “cada macaco no seu galho”. Fala-se, com alguma oportunidade metafórica, de “corte e costura”: limam-se os excessos e os desvios; remendam-se as rupturas e os rasgões do tecido social. É por receio desta censura colectiva que as pessoas evitavam “andar nas bocas do mundo”.
Os actuais meios de comunicação social colocam-nos a todos nos olhos, nos ouvidos e nas bocas do mundo. Com a internet, a bisbilhotice muda de dimensão, de corpo e de alma. A internet torna-se o principal foco de bisbilhotice e esta transforma-se, paradoxalmente, numa bisbilhotice de massas. Os mexericos ganham em velocidade, alcance e imaterialidade, numa espécie de caixa de ressonância sem fundo, pródiga em mensagens tecnicamente reprodutíveis. Num ápice, uma mensagem espalha-se por uma infinidade de destinos. Logicamente, a informação transita de mensageiro para mensageiro, mas, de modo algum, de boca em boca. Não há interacção face a face. O que faz bastante diferença. Por um lado, o envolvimento e o comprometimento pessoais não são os mesmos; por outro lado, altera-se o próprio contexto da comunicação. Quando recebo uma mensagem no e-mail, no Youtube ou no Facebook, não obstante as ferramentas de interactividade disponibilizadas, a minha capacidade de diálogo com o emissor assevera-se limitada. Em contrapartida, bombardear o mensageiro com dúvidas e questões faz parte do ritual da bisbilhotice tradicional, a expressão de incredulidade valorizando, aliás, o mexerico. O mundo da internet é outro. O intercâmbio raramente apela à ruminação da mensagem, à análise profunda e ao zelo da validação. As trocas tendem a ser instantâneas, fragmentárias e erráticas. Em jeito de brincadeira, permito-me ilustrar esta propensão para a “escrita criativa” com uma paródia do teatro do absurdo. Em palco, um chat entre dois internautas portugueses, um no Porto, o outro na Patagónia:
“Porto: A rádio diz que a VCI está um caos.
Patagónia: Hoje, passou um avião.
Porto: E os transportes vão continuar a aumentar. Estes tipos são uns bananas.
Patagónia: Estão a chegar os primeiros pinguins. Andam muito activos.
Porto: O avião era da TAP?
Patagónia: Não dava para ver, mas talvez fosse.”
Chegados a este ponto da conversa, o português da Patagónia estimou que a matéria carecia partilha: “Avião da TAP sobrevoa a Patagónia”; 534 521 cliques depois, pode ler-se nos jornais do dia seguinte: “Segundo fonte local, um avião da TAP carregado com bananas radioactivas sobrevoou a Patagónia. Desconhece-se o destino.”
A bisbilhotice de massas possui características próprias. Se a bisbilhotice tradicional está vocacionada para o controle social, a bisbilhotice de massas não enjeita processos de descontrolo social, facilitados pela desterritorialização, pela instantaneidade e pela desmaterialização típicas da internet. Os acontecimentos recentes do Norte de África evidenciam a potência dos murmúrios de massas sustentados pelos novos media.
A internet contribui para o recrudescimento da bisbilhotice. Os rumores entopem as caixas dos correios, são tops no Youtube e percorrem as redes sociais, graças a mensagens relativas a agressões filmadas com telemóveis, a Chineses que não morrem, a ladrões de rins e a motoristas de não sei quem que ganham não sei quanto. Como sublinhava Edgar Morin, a propósito do boato, esta turbina de notícias alimenta-se de medos, fantasmas, preconceitos, ressentimentos e cruzadas redentoras. Esta mudança tem consequências. Por exemplo, a tendência para a diminuição do protagonismo do “fait-divers” começa a inverter-se. Por outro lado, se é natural que as redes sociais sejam notícia, não deixa de ser inquietante que essas mesmas redes surjam cada vez mais como fonte da notícia. Mau presságio a comunicação social vir um dia a andar a reboque das redes sociais.
Um último apontamento. Este texto coteja sociologia e ficção. Mais do que dar a ver, pretende dar que pensar. Apanhei este vírus desalinhado com um professor da Sorbonne. Chamava-se Rafäel Pividal, era argentino e, com este jeito, escreveu vários livros e ganhou o Prémio Goncourt, a maior consagração literária em língua francesa. Escrever assim, baralhando estilos e linguagens, é uma arte de lhe prestar memória.
Sonho em traje menor
Desliguem o ar condicionado! A emancipação masculina tardou, mas convence. Fora os atavios, fogo à última peça opressora. O quê? Não? O anúncio tem a ver com o ar condicionado? Abaixo o ar condicionado! Viva o ar livre! Viva a emancipação! Viva este sonho em traje menor.
Marca: bgh. Título: Dads in briefs. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi Buenos Aires. Direção: Nico & Martin. Argentina, Março 2012.




















