Pornografia mecânica
Apresentado na 21ª edição do SIHH – Salon International de la Haute Horlogerie, dias 17 a 21 de Janeiro de 2011, em Genebra, este anúncio da Cartier suscita três apontamentos. 1) A Cartier desafia a força da gravidade, desígnio reafirmado com a citação da Relativity, de Escher, no anúncio Mechanics of Passion Episode II. 2) Contra a tendência de a publicidade se concentrar cada vez menos nos produtos, este anúncio focaliza-se exclusivamente no relógio, encarado como uma obra-prima da arte e da técnica. 3) Esta obra-prima é filmada por fora e por dentro, em repouso e em movimento, com tal sensibilidade cinética e estética que lembra uma pornografia mecânica capaz de rivalizar com as estrelas carnais de Hollywood.
Margens em trânsito
O processo criativo é um rizoma que se furta ao escalpelo da razão. Em que caravela navega a realidade? Onde pára o cais do sonho? Em que momento a criatura se apodera do criador? Os elementos e os mundos, o sólido e o líquido, a terra e o mar, são margens de contrabando, como em A Pequena Sereia, de Anderson, A Menina e o Mar, de Sophia de Mello Breyner, ou a Silka, de Ilse Losa. A agitação das águas é prenúncio de mergulho, e o mergulho, de “renascer das águas”. Nesta ondulação de estranha luminosidade, vagueiam silhuetas indecisas, ao sabor do orientalismo barroco da música electrónica dos Air. Este vídeo musical, Painted Love, foi produzido exclusivamente para a campanha “How Far Would You Go For Love”, da Cartier.
Cartier / Air. Painted Love by Air. Marcel (Publicis). Waverly. França, 2011.
A mecânica da paixão
Acabou de sair um anúncio de Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade preferido. Em L’Odyssée de Cartier, Aveillan confirma que, não obstante uma obra vasta e variada, ainda é capaz de inovar, sem, no entanto, prescindir de um piscar de olhos a anúncios anteriores. Este anúncio, que celebra os 160 anos da casa Cartier, é também uma homenagem a Jeanne Toussain, mais conhecida por Coco Chanel. Aproveito o ensejo para repescar este Mechanics of Passion, um anúncio muito escheriano da Cartier, realizado, desta vez, por Christophe Hewitt.
Marca: Cartier. Título: L’Odyssée de Cartier. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direção: Bruno Aveillan. França, Março 2012.
Marca : Calibre de Cartier. Título: Mechanics of Passion Episode II. Produção : Moonwalk. Direcção: Christophe Hewitt. França, 2011.
Palavras
Anunciante: International Alert. Título: Peace talks. Agência: Hmdg Rushes. Reino Unido, Março 2012.
Aguaviva. 1971
Me Queda la Palabra
(Blas de Otero)
Si he perdido la vida, el tiempo, todo
lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
me queda la palabra.
Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.
Si abrí los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abrí los labios hasta desgarrármelos,
me queda la palabra.
O telemóvel indiscreto: Tecnologia e relações conjugais
As novas tecnologias interferem na interacção social, em particular, nas relações conjugais alargadas. É que aos homens custa-lhes dominar tecnologias tão simples como o telemóvel. São como os peixes de Brueghel: pescadores pescados.
Produto: Comviq. título: Leonard. Agência: The Mills Forsman & Bodenfors. Direçao: Kevin Thomas. Suécia, 2002.
Produto: Uol. Título: Caracas. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2002.
Portugal fora de si
Soa estranha a actualidade de algumas canções anteriores ao 25 de Abril. Até parece que o País troca as tintas e repete o quadro: “mães sem filhos” atoladas nas águas da amargura (Adriano Correia de Oliveira, Cantar da emigração, 1971) e “vampiros” empoleirados na fatalidade alheia (José Afonso, 1963).
Adriano Correia de Oliveira, Cantar da emigração, 1971 / Albertino Gonçalves, “Portugal fora de si. A experiência da emigração na segunda metade do séc. XX”, Agrupamento Vertical de Escolas de Briteiros, 21 de Maio de 2010.
José Afonso, Vampiros, 1963.
