O eterno e o infinito
Nem sempre se proporciona confrontar dois anúncios excelentes e recentes. A qualidade é rara e nem sempre comparável.
O anúncio da Nokia aposta no encadeamento de fragmentos. Cada fragmento, contanto breve, concentra informação que o público consegue identificar, apreciar e assimilar. Em cada fragmento, prevalece a ideia de performance, a marca do extraordinário e a sensação de vertigem. O ritmo é acelerado. Adivinham-se homologias entre os fragmentos, o que não os impede de permanecer únicos e distintos. A ponte, ilusória, é providenciada pela própria aceleração. A ligação só se concretiza no fim do anúncio: os fragmentos desencontrados convergem para as oito teclas do telemóvel.
Anunciante: Nokia. Título: The amazing everyday. Novembro 2011.
O anúncio da John Lewis é também composto por uma longa série de fragmentos. Mas a sua variação é contida pela repetição: sempre o mesmo miúdo com ansiedade expectante. Alteram-se, apenas, os cenários. O ritmo, ao sabor da música, é lento e compassado. O desfecho é discreto. Resume-se a um pequeno texto: “For gifts you can’t wait to give” e “John Lewis in store / online / mobile”. Tudo, neste anúncio, respira espera.
Anunciante: John Lewis. Título: The Long Wait. Agência: Adam & Eve. Direcção: Dougal Wilson. Novembro 2011.
Em The amazing everyday, assisti-se a uma cavalgada no piano. As notas atropelam-se numa sucessão de instantâneos que percorrem o teclado. Em The long wait, os dedos obstinam-se a percorrer as mesmas sequências, o que proporciona uma sensação de duração. A multiplicidade instantânea cede o passo à continuidade, a um ensimesmamento melódico. Este tipo de duração é, paradoxalmente, uma quase eternidade, uma eternidade que se presentifica. Em suma, a cadeia de estabelecimentos comerciais John Lewis está, aqui e agora, sempre connosco. No caso de The amazing everiday, o instante, a cavalgada de instantâneos rumo ao telemóvel, torna-se, graças às novas tecnologias, infinito, uma plataforma de possibilidades sem fim.
Fofura com picos
Tenho a felicidade de ter amigos que, como eu, gostam de ouriços-cacheiros. Entretanto, parece que me estou a converter à zoosofia, a sabedoria metanóica dos animais. No baú das memórias prazenteiras, desencantei estas “Investigações de Clorofila”, uma série animada franco-canadiana muito ecológica, produzida em 1992, para miúdos e graúdos. Mistura bonecos com animais. A caracterização das personagens é primorosa. Este excerto começa, bem a propósito, com o Punky, um ouriço-cacheiro.
Para mais informação sobre As Investigações de Clorofila, consultar Desenhos Animados.
A arte na publicidade é arte?
Alguns anúncios da BMW apresentam um requinte estético notável. A música, a imagem e o texto conjugam-se num encadeamento de formas originais e espectaculares. Publicado há alguns dias, este China Dark Light Theatre é um bom exemplo. Lembra outros anúncios da BMW, mais antigos mas não menos apurados do ponto de vista estético: o Aesthetics, de 2006, e o See How It Feels , de 2007. Pelos vistos, para a BMW a beleza ainda é a qualidade que mais seduz.
Anunciante: BMW. Título: China Dark Light Theatre. Agência: Leo Burnett Beijing, China. Direcção: Matthias Zentner. China, Novembro 2011.
Anunciante: BMW. Título: Aesthetics. Agência: IRELAND/DAVENPORT, Johannesburg. Direcção: Adriaan de Sa Garcias. República da África do Sul, Novembro 2006.
Anunciante: BMW. Título: See How It Feels. Agência: WCRS, London. Direcção: Warren Du Preez & Nick Thornton Jones. Reino Unido, Fevereiro de 2007.
Fábula das formigas sabichonas
A versão original desta fábula foi publicada no jornal ComUm online: Fábula comUM. Este texto apenas lhe acrescenta as ilustrações e um ou outro pequeno complemento.
FÁBULA DAS FORMIGAS SABICHONAS
Naquele tempo, as formigas gostavam de maçãs, o fruto da ciência. Eram formigas sabichonas. Um dia, estavam no pomar, nos ramos das árvores, quando soou uma voz de trovão: “Chegou a hora de pôr termo ao caos original, de vos distinguir e hierarquizar”. Quem assim falava era o Grande Manitú Fórmico: “Aquelas que, neste momento, estão a comer maçãs pequenas valem menos (1/40) do que aquelas que estão a comer maçãs médias (1/20) e ainda menos do que aquelas que estão a comer maçãs grandes (1/10). Esta nova nomenclatura de castas (n.c.) ditará o sustento que providenciarei a cada grupo. Se o orçamento for de 700 moedas, 400 moedas serão pelas formigas das maçãs grandes, 200 pelas formigas das maçãs médias e 100 pelas formigas das maçãs pequenas”. E as formigas acataram a vontade do Grande Manitú Fórmico. Passaram-se anos e anos, os formigueiros, entretanto, mudaram, mas a palavra manteve-se, cada vez mais abstracta mas com a força simbólica acrescida de uma letra viva de uma língua morta.
As formigas eram trabalhadoras e organizadas. As formigas sabichonas assumiam várias missões: ensinavam as formiguinhas aprendizes, exploravam os arredores, apoiavam a comunidade e desempenhavam tarefas administrativas. Sempre no respeito da nomenclatura de castas fixada pelo Grande Manitú Fórmico. Ensinavam as formiguinhas por turmas. Numa dada turma, por exemplo, com quarenta aprendizes, se a formiga sabichona pertencesse à casta das maçãs pequenas, justificava-se apenas uma formiga mestre. Mas, para ensinar o mesmo às mesmas 40 formiguinhas, já eram necessárias duas formigas mestres maçãs médias, número que subia para quatro no caso das formigas mestres maçãs grandes.
Não era raro as diferentes castas de formigas sabichonas colaborarem na educação de uma mesma falange de um mesmo carreiro de formiguinhas aprendizes ou, para ser mais técnico, partilharem a mesma unidade de sabedoria fórmica. Do ponto de vista das formiguinhas aprendizes, era uma experiência estranha. Consoante a casta do mestre (grande, média ou pequena maçã), assim as formiguinhas assumiam valores distintos. Pareciam pisca-piscas. Ora inflacionavam, ora deflacionavam. Quando a formiga mestre era uma formiga sabichona maçã pequena, a falange de formiguinhas aprendizes encolhia-se que nem um caracol. Quando a formiga mestre era uma formiga sabichona maçã grande, a mesma falange nem cabia na paisagem. Lembravam a Alice no País das Maravilhas a mingar e a crescer consoante os efeitos da mezinha do Grande Manitú Fórmico. Destes prodigiosos efeitos dependia o sustento das diversas castas das formigas sabichonas, bem como o provimento dos tão prezados lugares cativos no quadro da sabedoria fórmica. Por outro lado, as formiguinhas aprendizes adquiriam consciência de que o seu peso no universo da sabedoria dependia da origem das respectivas formigas mestres. O que muito as confundia. Parecia uma espécie de milagre da multiplicação condicional dos mestres. E os milagres não se explicam, sobretudo quando não se vêem. E muitas formiguinhas aprendizes não os viam nem sequer imaginavam. Desconheciam quanto valiam no rateio da sabedoria fórmica.
A nomenclatura de castas é um prodígio permanente. As formigas praticavam desporto, o que as ajudava a manter a forma. Era um regalo assistir aos jogos de futebol entre clubes de diferentes castas. Quando jogavam as formigas maçãs pequenas contra as formigas maçãs médias, alinhavam 11 contra 22; no caso das maçãs grandes, alinhavam 11 contra 44. E se, competição por competição, em vez de futebol fossem eleições? As formigas sabichonas teriam inventado a democracia em plano inclinado.
As formigas eram racionais. Quando os preceitos da nomenclatura de castas previam duas ou, até, quatro formigas sabichonas para uma unidade de sabedoria fórmica, nem todas a ministravam, dedicando-se as sobrantes a outras tarefas tais como explorar os arredores, apoiar a comunidade ou ocupar-se da gestão. Todas estas actividades eram alvo de avaliação, sendo corrente o ensino não ser a dimensão mais relevante. O que significa que a desigualdade inerente à nomenclatura de castas se alastrava, como um fractal que se avoluma, aos vários domínios de missão das formigas sabichonas.
Os tempos eram de rigor e exigência. Quando alguém não sabia que dizer, proclamava “excelência”, e logo tinha o entusiasmo do auditório garantido. Estava em voga um novo ofício: o dos avaliadores, mais conhecidos no formigueiro como Xamãs de Pele de Alpaca. Tinham e seguiam critérios que aplicavam a todos por igual. Como afirmou uma célebre formiga sabichona, “conseguiam a medida de quase tudo e a relevância de quase nada”. Pouco importava que as entidades avaliadas se diferenciassem no que respeitava a condições, recursos ou oportunidades. Tais contingências não cabiam na imparcialidade burocrática. Uma equipa tem oitenta formigas sabichonas de maçã grande? Outra tem vinte formigas sabichonas de maçã pequena? Pois, em termos ideais, rezam os parâmetros que devem render o mesmo com a mesma qualidade. Que se penitencie a formiga sabichona que sustentava que “sem igualdade de condições, não há igualdade de oportunidades”! E sem igualdade de oportunidades, não há igualdade de resultados. Aplicar a todos por igual a insuspeita grelha arbitrária. Cortar a direito com o gládio da certeza. Hierarquizar o que já está hierarquizado. Ser profeta criador. Separar o trigo do joio, as maçãs grandes das maçãs pequenas. Alimentar o fogo da ilusão e da violência simbólica. O que estava em causa era indiscutível: a reputação de todos os formigueiros do reino. As conclusões e as recomendações consubstanciadas nos relatórios dos Xamãs Pele de Alpaca eram, assim, tão taxativas quanto previsíveis. Começavam e terminavam com as seguintes sentenças: 1) para a consolidação e a competitividade do formigueiro, importa que as formigas sabichonas de maçã pequena emagreçam tornando-se formigas sabichonas de maçã ainda mais pequena; 2) as formigas sabichonas de maçã ainda mais pequena devem juntar-se umas às outras para parecerem maiores. A avaliação promovida pelos Xamãs de Pele de Alpaca era a cereja no cimo do bolo da nomenclatura de castas concebida pelo Grande Manitú Fórmico.
Foi uma velha formiga sabichona de maçã pequena quem me contou estas maravilhas do formigueiro. Consta que, uma noite, após as aulas da formação pós-laboral, enrolou o cansaço nos lençóis e apagou a esperança.
O ouriço-cacheiro: a road movie
Gosto de ouriços-cacheiros. Os agricultores, também. Porque os ouriços se alimentam de animais nocivos, tais como lesmas e escaravelhos. Um ouriço atropelado representa uma falha na protecção das colheitas. Gosto deles, mas não lhes toco, numa espécie de encontro mediato do 4º grau. Os ouriços não disfarçam, têm os espinhos à vista. Deus não estava cansado quando os criou, ao contrário de certos humanos que, se fossem transparentes como os ouriços, ninguém abraçaria. Retomando o anúncio. Os carros Volkswagen são quase como os ouriços-cacheiros. A gente, em princípio, pode tocar-lhes, mas, na prática, não consegue. Faz sentido a sugestão do anúncio: contentarmo-nos, como os ouriços, com a contemplação do símbolo, do logótipo pendurado na nossa impotência.
Anunciante: Volkswagen. Título: Hedgehogs. Agência: Agence.v.Paris, Saint-Ouen. França, Novembro 2011.
Quem fala de ouriços-cacheiros também pode falar de toupeiras. Acrescento um anúncio, com animação 3D, já antigo mas bem humorado, com a particularidade de recuperar a música de um filme de Jacques Tati.
A insustentável leveza da compra
Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento das amarras da vida e do mundo. A realização aposta nesta leveza eufórica, por sinal partilhada, confinando-a, porém, a uma espécie de não lugares, ao interior de bolas de neve. Que bolas de neve? Aquelas onde cabem a Nossa Senhora de Lourdes, os nossos sonhos, mas não os nossos pecados. Por exemplo, as lojas Matalan, nem mais, nem menos! O que me recorda um velho texto dedicado ao imaginário e à suspensão da experiência nos hipermercados e nos centros comerciais.
Anunciante: Matalan. Título: Christmas Advert 2011. Reino Unido, Novembro 2011.
Lenços animados
São fascinantes estas animações monocromáticas a tinta, mormente quando o suporte ajuda, como é o caso dos lenços de papel dobrados. Parecem talhadas para o formato dos anúncios publicitários. Trazem à memória as canetas de aparo, com os seus borrões, dedos sujos e roupas com graffitis espontâneos. Este anúncio é italiano, como italiana era a série de animação La linea, de Osvaldo Cavandoli.
Anunciante: Tempo. Título: Bike ‘As Life Unfolds’. Agência: Publicis London. Direcção: Vida Vega. Reino Unido, Novembro 2011.
La Linea, de Osvaldo Cavandoli.
Iniciativas Culturais do Mosteiro de Tibães
Convite
Percursos Profissionais na Área da Cultura é um ciclo de sessões de trabalho organizado pelo curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho. Em cada sessão, profissionais com currículo relevante na área da cultura são convidados a partilhar a sua experiência. Duas das preocupações do curso são a interacção da universidade com o meio envolvente, assim como a facilitação de condições para a geração de ideias e capacidades inovativas e empreendedoras nos domínios de intervenção nas áreas da comunicação, da arte e da cultura. Nestas sessões, os participantes são incentivados a reflectir, com base em experiências concretas, sobre as competências exigidas aos profissionais cujas actividades se desenvolvem em torno de projectos culturais.
Iniciativas Culturais do Mosteiro de Tibães é o tema da próxima sessão de trabalho, que terá lugar no dia 15 de Novembro, às 18 horas, na Sala das Cavalariças do Mosteiro de Tibães. A Dra. Aida Mata, Responsável pelo Mosteiro de Tibães entre 1987 e 2009, é a pessoa convidada. A sessão conta também com a participação do Dr. Mário Brito, Coordenador do Mosteiro de Tibães, e do Prof. Doutor Miguel Bandeira, Presidente do Instituto de Ciências Sociais.
Está prevista uma visita guiada ao Mosteiro de Tibães pelas 16:30.
As sessões do ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura são abertas ao público. Será bem-vindo!
O Director do Curso
Albertino Gonçalves
A prova dos três
A Beldent está a promover um novo produto composto por três camadas: duas iguais, e uma distinta. Como funcionam estas três camadas? Dois anúncios, com animação 3D, elucidam-nos: no caso dos pombos, se, de três, tiras um lagarto, ficam dois pombos. No caso das lagartas, se de três, tiras duas, fica um sapo. Estas pastilhas com duas camadas iguais e outra distinta têm um sabor incrível, um sabor fantástico!
Produto: Beldent Sensations. Títulos: Pichones / Orugas. Agência: JWT Argentina S.A. Direcção: Damián Pala Palleiro. Argentina, Novembro 2011.







