A Mãe da Humanidade

Ao entardecer, vou falar no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Gostaria de encontrar as palavras azúis, aquelas que apaziguam os corações.
Não vou ter tempo para introduzir a figura do Michelangelo, nem de fazer uma digressão sobre a noção da idade no imaginário medieval. Tão pouco será possível culminar com um vídeo musical de um excerto da Sinfonia No. 3 do Gorecki.
Para compensar, será distribuido à entrada um pequeno texto sobre o Michelangelo. A digressão fica para mais tarde. Quanto ao vídeo, coloco-o aqui e agora.
A pomba, o menino e a cruz

Ao analisar imagens com a Anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem, deparei com um pormenor curioso numa pintura do Museu Nacional de Varsóvia: a pomba não só toca o corpo de Maria, como vem acompanhada por Jesus bebé, nu e a carregar uma cruz. Além da fecundação por obra e graça do Espírito Santo, este detalhe prefigura a incarnação e a crucificação, portanto, o início e o fim do divino feito homem. Uma sincronização engenhosa!


Uma vez advertido, detetei meia dezena de pinturas em que este detalhe se repete, ora quase impercetivelmente, como na Anunciação do Tríptico da Crucificação do cónego Peter von Wartenberg, ora tão ostensivamente, como na Anunciação do Museu Nacional Suíço, que tive, paradoxalmente, alguma dificuldade em identificar.
Imagem: Anunciação a Maria. Painel do interior do altar. Ca. 1470. Museu Nacional Suíço, Zurique


Para concluir, um regresso à música com um excerto do Inverno, das Quatro Estações do Vivaldi, interpretado por Nigel Kennedy. Com a vista cansada, preciso jejuar da escrita e da análise de imagens.
O humano nas alturas

Ontem, socializei! Visitas ao almoço e ao lanche. Ao entardecer, o magnífico concerto na Igreja dos Congregados dedicado às “Lamentações para a Semana Santa”, do compositor belga Joseph-Hector Fiocco, pelo Ensemble Bonne Corde, com Diana Vinagre, violoncelo barroco e direcção artística; Ana Quintans, soprano; Rebecca Rosen, violoncelo barroco; Marta Vicente, contrabaixo barroco; e Miguel Jalôto, órgão. Tantos talentos jovens!

À noite, explorei imagens da Virgem Maria para um texto que estou a escrevinhar intitulado “A Cruz e o Cálice” onde abordo as figuras de Cristo como proeminência e Maria como recetáculo. Bafejado pela sorte, descortinei um detalhe inesperado com o momento em que a pomba do Espírito Santo penetra na auréola/corpo da Virgem, num painel da Oficina de Llorenç Saragossà, datado por volta de 1365.
Por último, o habitual momento de recolhimento quotidiano. Coloquei um vídeo com a música My Heart’s in the Highlands, do Arvo Pärt (na imagem), e, reclinado, deixei-me planar pelas alturas, como quem se aproxima do divino neste mundo.

A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.
Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.
Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim
As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).
Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.
Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!
Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

















Repouso

Se não encontrar uma oração que lhe convenha, invente-a (Santo Agostinho, 354-430).
Demoremos-nos, suspensos no colo divino, com o olhar perdido nas mãos desertas. A música proporciona-se como uma forma de comunhão. Algumas composições de Yann Tiersen prestam-se especialmente para esse efeito. Seguem Tempelhof, Erc’h e Pell, do álbum All (2019).
Oração e cumplicidade
“Quantas formas diferentes e profundas de rezar. Na “Romaria”, Elis Regina também diz que não sabe rezar. Fui escutar de novo, e num concerto ao vivo, ela toda reza, com a voz e com o corpo, terminando numa inclinação total, não para o chão, como é costume nas liturgias, mas para os céus numa total vulnerabilidade e humildade perante um Ser maior” (Almerinda Van Der Giezen, correspondência).

Uma nova pérola, luminosa, para o rosário mariano. Um pingo peregrino a escorrer do cálice ecuménico da cumplicidade. Esta “Romaria”, da Elis Regina, em Lisboa, é uma coroa de graça! Tanto que não vislumbro arte de retribuir. Aproximo-me, talvez, resgatando um cântico medieval, dedicado à “Rainha dos Polos”, entoado por um coro de anjos.
Fra Angelico, Retábulo de Bosco ai Frati (detalhe). Ca 1450
Sonho de Virgem
“A verdadeira intimidade é aquela que nos permite sonhar em conjunto sonhos diferentes” (Jacques Salomé, Et si nous inventions notre vie?, 2006).
Uma amiga tem o dom de adivinhar os meus gostos. Envia-me pérolas a fio num colar sem fim. Compensa a parcimónia dos demais amigos. A cada pérola recebida, o reflexo é tentar retribuir. Nem sempre é fácil. É o caso da canção “Nossa Senhora”, composta por Roberto Carlos, na interpretação de Marina Elali.
Ando obcecado com a iconografia da Virgem Maria. Vai ser o tema da próxima conversa, lá para o início do outono. Quem vê imagens, ouve músicas. A canção “Il sogno di Maria”, do Fabrizio De André, não desmerece. Pode propiciar um belo diálogo com a “Minha Senhora”, do Roberto Carlos.
Boa Disposição Divina (continuação)
Ontem, mudança na medicação: mais contra a tensão, menos calmante. Hoje, sinto-me quebrado. Nem sequer tive disposição para assistir à Liberdade à Deriva (Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura). Afundei-me numa sesta arrastada.

Com alguma ajuda, por modesta que seja, os caminhos tornam-se mais acessíveis e amplos. Reagindo ao artigo “Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes”, uma amiga enviou-me uma imagem com a estatueta da Virgem com o Menino, dita da Sainte-Chapelle, datada do século XIII e localizada no Museu do Louvre (Figuras 16 e 17).
Resultam deveras gratificantes estes retornos.
Uma imagem desconhecida é fonte, ponte ou porta para outras, avulsas ou em cadeia, num efeito multiplicador. A partilha amiga ofereceu-se, portanto, como um estímulo, ou desafio, para retomar a busca.
Figura 13. Vierge à l’Enfant. Ca. 1240 a 1260. Ivoire. Musée de Cluny
Adoro esgaravatar, como as galinhas. É um vício. Não me recordo, por exemplo, de colocar os pés na praia de Moledo e resulta raro sentar-me nas esplanadas. Em contrapartida, não perco a mínima oportunidade para ir até à zona dos rochedos.

As pessoas que me acompanham costumam entreter-se a apanhar “beijinhos”, umas conchas minúsculas. O meu alvo é ainda mais raro e exigente: picos e bifaces pré-históricos, que remontam ao Paleolítico. De insucesso em insucesso, a coleção cresce. Há quem goste de oferecer flores do jardim, o meu cúmulo é surpreender com picos apanhados na areia ou resgatados de poças de água salgada, com sérios riscos de, apesar da bengala, escorregar e dar uma queda.
Picos descobertos em Moledo
Esgaravatar é um vício facilitado pela Internet. Em dois dias, o número de imagens guardadas na pasta “Virgem e Menino Sorridentes” disparou de meia dúzia para mais de uma quinzena (Figuras 13 a 27), excluindo aquelas em que a Virgem esboça um sorriso à Gioconda. Quase todas provêm do século XIII e da primeira metade do século XIV. A maioria é em marfim e provém da região parisiense, berço do estilo gótico.
Segue a colheita mais recente, mas, espero, não a definitiva. Repare-se que na figura 27 até os leões riem!
Galeria de imagens com a Virgem e o Menino Sorridentes (continuação)














Mãos que protegem; mãos que castigam

Moi j’ai les mains sales. Jusqu’aux coudes. Je les ai plongées dans la merde et dans le sang. Et puis après ? Est-ce que tu t’imagines qu’on peut gouverner innocemment ? (Jean-Paul Sartre. Les Mains Sales. Éditions Gallimard. 1948. Pág. 200)
A associação francesa StopVEO Enfance Sans Violences acaba de publicar um anúncio de sensibilização excelente a alertar para a violência de que são vítimas as crianças com a justificação de contribuir para a sua educação. A mão, motivo principal brilhantemente explorado, remete sobretudo para o contato físico. Aguarda-se uma segunda parte que incida sobre a cabeça e a violência psicológica. Evidência que a Stop VEO não ignora:
“L’acronyme « VEO » est la Violence (physique, psychologique ou verbale) utilisée envers les enfants dans une intention Éducative (pour leur « bien », pour qu’ils aient un « bon comportement »), culturellement admise et tolérée, dans tous les lieux et tous les milieux ; elle en devient alors « Ordinaire ».”
“Les conséquences de la VEO sont considérables. Elles constituent une question de santé publique parce qu’elle est encore très largement employée : 85 % des parents reconnaissent avoir recours à la fessée (71,5% à des « petites gifles »). La moitié des enfants sont frappés avant l’âge de 2 ans, et les trois quarts avant l’âge de 5 ans (étude menée par l’OVEO (Observatoire de la violence éducative ordinaire) en 2017)”. (https://stopveo.org/veo-violence-educative-ordinaire/)





















