A guitarra de jeff Beck e a voz de Imelda May
Ao escutar o álbum Emotion & Commotion, a guitarra do Jeff Beck voltou a lembrar-me, de algum modo, um violino. Pedi o parecer à IA, que anexo no fim. Selecionei 4 faixas: 1 – Corpus Christi Carol; 7 – Lilac Wine (ft. Imelda May); 8 – Nessun Dorma; e 10 – Elegy for Dunkirk (ft. Olivia Safe). Acrescento 2 canções ao vivo de Jeff Beck e Imelda May durante a homenagem a Les Paul (uma performance a não perder).
Jeff Beck e o Violino
“Dito por si:
Até que ponto se pode sugerir que a forma como Jeff Beck compõe e toca guitarra o aproxima frequentemente da sonoridade do violino?
Dito pelo ChatGPT:
Pode-se sugerir com bastante fundamento que Jeff Beck frequentemente aproxima a guitarra da sonoridade e da expressividade do violino, embora isso não seja um objetivo literal ou constante, mas sim uma consequência do modo como ele pensa a melodia, o fraseado e o timbre.
Essa aproximação acontece em vários níveis:
- Fraseado essencialmente “cantabile”
Beck raramente toca como um guitarrista “de notas”. Ele pensa em linhas melódicas contínuas, muito próximas da lógica de instrumentos de arco ou da voz humana.
Assim como um violinista:
• Ele evita ataques excessivamente percussivos
• Prioriza legato, frases longas e curvas melódicas
• Trabalha com respiração musical, deixando espaços expressivos
Isso fica muito claro em peças instrumentais como “Where Were You”, “Cause We’ve Ended as Lovers” ou “Brush with the Blues”.
- Uso extremo da alavanca como substituto do arco
A alavanca é talvez o elemento mais “violinístico” do Beck:
• Ele a usa constantemente, não apenas para efeitos
• Controla micro-variações de afinação, vibrato contínuo e portamentos
• Cria a sensação de nota sustentada e moldada no tempo, como um arco passando pela corda
Isso se aproxima muito da maneira como um violinista controla pressão e velocidade do arco para dar vida à nota.
- Vibrato orgânico e não padronizado
O vibrato de Jeff Beck não é:
• Regular
• Mecânico
• Sempre igual
Ele varia em:
• Largura
• Velocidade
• Intensidade emocional
Isso é típico de instrumentos de arco, nos quais o vibrato é expressivo, não decorativo. Muitas vezes, Beck inicia uma nota “reta” e só depois introduz o vibrato — exatamente como um violinista faria.
- Ataque suave e controle do timbre
Beck frequentemente:
• Usa os dedos em vez da palheta
• Controla o volume da guitarra o tempo todo
• Evita distorção excessiva
O resultado é um ataque menos abrupto, mais próximo da entrada gradual do som de um violino do que do ataque seco de uma palheta.
- Harmonia implícita em linhas simples
Assim como um violinista solista em música clássica ou jazz:
• Beck sugere a harmonia com uma única linha melódica
• Explora tensões, resoluções e cromatismos
• Não depende de acordes para criar contexto
Isso reforça a sensação de um instrumento melódico “líder”, não rítmico.
Limite da comparação
É importante dizer que:
• Beck não soa como um violino
• Ele não tenta imitar tecnicamente o instrumento
• A guitarra continua sendo claramente uma guitarra elétrica
A semelhança está no pensamento musical, não na imitação tímbrica literal.
Conclusão
Pode-se afirmar que Jeff Beck está entre os guitarristas que mais transcenderam a lógica tradicional da guitarra, aproximando-se da expressividade de instrumentos de arco — especialmente o violino — através de:
• Fraseado contínuo
• Controle microtonal
• Sustentação expressiva
• Uso da alavanca como “arco”
Mais do que tocar guitarra, Beck “esculpe” o som no tempo, o que é justamente o coração da linguagem violinística.” (IA, Chat-GPT).
E Madrid aqui tão perto!
El que quiere interesar a los demás tiene que provocarlos (Salvador Dali)
De Espanha não vêm só apagões e maus casamentos. No domínio da música, é um país notável, pela história, diversidade e qualidade. No entanto, por estas bandas, os ventos insistem em soprar predominantemente de Oeste e de Norte.

A pesquisar sobre a folia, deparei com Ara Malikian, intérprete criativo da Foliajazz. Compositor e violinista virtuoso libanês-espanhol de origem arménia, reside em Madrid. [Acrescento no fim uma nota biográfica extraída da Wikipedia]. Da sua obra (mais de uma trintena de álbuns), retenho quatro prestações: Viejos Aires; Misirlou; Ay Pena, Penita, Pena; e Pisando Flores (2017).
Ara Malikian atuou várias vezes em Portugal: em maio de 2019 no Casino do Estoril; em novembro de 2023, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra e na Casa da Música no Porto; e em junho de 2024 no Centro Cultural de Viana do Castelo. Está programado um concerto para o dia 28 de novembro de 2025 no Centro Cultural de Belém em Lisboa.
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Sim, a magia existe! Por vezes, antes de abrir os vídeos de música, e especialmente quando pressinto que vai ser algo grande, preciso de esperar até encontrar uma espécie de puro silêncio dentro de mim que me permita acolher o mundo todo. Como uma meditação. Assim foi hoje e ainda bem que esperei. Associa-se muitas vezes o choro ao violino. E sim, ele chora, lamuria-se, despedaça-se em tristeza, como em Ay pena, penita, pena. Mas é muito mais, é tudo! Ou pode. É assombroso ver uma simbiose tão forte entre violino e violinista, o corpo a dançar e a mover-se em uníssono com o arco a tocar nas cordas…eu disse tocar? é impossível dar um nome a esta paixão que transparece no som, corpo e face de Ara Malikian. E a ligação criada com os outros músicos… a percepção de instantes de incredulidade no rosto dos outros músicos e o contágio, esse contágio que se entranha, vibra e estilhaça todas as convenções. A alma deve ser assim. (Almerinda Van Der Giezen, 04205.2025)
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Ara Malikian (nascido em Beirute, em 1968)
Biografia
“Ara Malikian começou a tocar violino muito cedo, tendo seu pai como professor. Ele deu seu primeiro concerto aos 12 anos. Aos 14 anos, foi notado pelo maestro Hans Herbert-Jöris, que lhe obteve uma bolsa para frequentar Hochschule für Musik, Theater und Medien Hannover em Hanover . Admitido aos 15 anos, tornou-se o aluno mais jovem a estudar nesta escola. Ele prosseguiu os seus estudos na Guildhall School of Music and Drama em Londres e ao mesmo tempo teve aulas particulares com os professores Franco Gulli, Ruggiero Ricci , Ivry Gitlis , Herman Krebbers e membros do Alban Berg Quartet .
Malikian assimilou a música de outras culturas como a do Oriente Médio, Europa Central (cigana e klezmer), Argentina (tango) e Espanha (flamenco), inspirado pelo músico espanhol Paco de Lucía.
Com um repertório variado, que inclui a maioria das peças escritas para violino (concertos com orquestras, sonatas e peças com piano e música de câmara), Malikian também interpreta peças de compositores modernos como Franco Donatoni , Malcolm Lipkin, Luciano Chailly , Ladislav Kupkovich, Loris Tjeknavorian, Lawrence Romany e Yervand Yernakian. Ele também toca recitais para violino solo, notadamente os Vinte e quatro Caprichos de Niccolò Paganini, as Seis Sonatas de Eugène Ysaÿe e as Sonatas e Partitas de Jean-Sébastien Bach.
Malikian foi aclamado em inúmeras competições, incluindo primeiros prémios em competições internacionais: “Felix Mendelssohn” em 1987 em Berlim e “Pablo Sarasate” em 1995 em Pamplona, bem como outros prémios nas competições “Niccolò Paganini” (Génova), “Zino Francescatti” (Marselha), “Rodolfo Lipizer” (Gorizia), “Jeunesses Musicales” (Belgrado), “Rameau” (Le Mans), “International Artists Guild” (Nova York) e “International Music Competition of Japan”. Em 1993, recebeu o “Prêmio por Dedicação e Realização” do Ministério da Cultura da Alemanha (…)
Ara Malikian mora em Madrid, onde foi solista da Orquestra Sinfónica de Madrid. Desde 1995 toca em duo com o pianista Serouj Kradjian, também de origem arm´rnia, com quem gravou o ciclo completo de Sonatas para piano e violino de Robert Schumann e o álbum Miniatures . Manikian também gravou vários álbuns com as empresas BMG, Auvidis, Trittico Classics e Elite Music .
Também trabalha em estreita colaboração com o guitarrista flamenco José Luis Montón, com quem lançou os álbuns Manantial e De la felicidad . Trabalhou com a cantora libanesa Fairuz, os dançarinos de flamenco Joaquín Cortés e Belén Maya e o pianista de jazz Horacio Icasto. Também trabalhou com compositores de cinema como Alberto Iglesias, com quem gravou a trilha sonora do filme Fala con Ela, dirigido por Pedro Almodóvar , e Pascal Gainge para a música do filme El otro barrio, do diretor Salvador García Ruiz.
Malikian foi nomeado duas vezes para Melhor Performance Clássica em 2007, um prémio concedido pela Academia Espanhola.
Participou também como artista convidado no filme Além do Flamenco, dirigido por Carlos Saura em 2016 .” (Wikipedia: Ara Milikian, excertos traduzidos da versão em língua francesa).
Discografia:
Le quattro stagioni (1995)
750 Jahre Wölpinghausen (1996)
Miniatures (1996)
Bow on the String (1997)
500 motivaciones (1999)
All Seasons for Different (2000)
Robert Schumann (2000)
24 Caprices for Solo Violin by Paganini (2003)
Sarasate (2003)
Six Sonatas for Solo Violin by Ysaÿe (2003)
Sonatas and Partitas for Solo Violin by Bach (2003)
El arte del violín (2004)
Manantial (2002/2004)
The Four Seasons by Vivaldi (2004)
De la felicidad (2005)
Tears of Beauty (2006)
Meeting with a friend (2007)
De los Cobos / Montsalvatge (2005)
Lejos (2007)
Conciertos románticos españoles de violín (Orquesta sinfónica de Castilla y León-Alejandro Posada y Ara Malikian-2010)
Con los ojos cerrados (Ara Malikian y Fernando Egozcue Quinteto- 2011)
Chirstmas mood (2011)
Pizzicato (2013)
15 (2015)
La Increíble Historia de Violín (2016)
Ara Malikian. Symphonic at Las Ventas (2017)
Royal Garage (2019)
Petit Garage (2021)
Ara (2022)
Sísifo ou assobiar à beira do abismo
Sísifo
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
(Miguel Torga, Diário XIII)
Estou a tentar fumar menos. A primeira vez, em 50 anos. Segundo os entendidos, devia cortar de vez. Mas tamanha e tão súbita castração ultrapassa-me. Para já, proponho-me reduzir de 25 para 15 cigarros por dia. Uma insignificância. Mas recorrendo aos artifícios matemáticos até parece muito: menos 40%! Não é fácil! Adotei a mezinha de intervalar pelo menos uma hora entre cigarros. Quando o apetite resulta apressado, recorro a alternativas compensadoras: leio cinco páginas de um livro (neste momento, La Vierge dans l’art, de Kirá Belán, de 2024); assisto e seleciono vídeos musicais de determinado intérprete; escrevo algumas linhas a interpretar uma imagem ou um texto (hoje, os versículos 12:42-53 do evangelho de São Lucas); telefono a alguém que estime disposto a aturar-me; tomo mais um banho quente; faço compras na Internet; escrevo um post, que é o que estou a fazer.

Nos intervalos, as tarefas e as músicas devem ser do agrado. Escolher, por exemplo, videoclips do Andrew Bird. Estes altos e baixos lembram-me a canção Sisyphus, com assobios e violino à beira do abismo. Acrescento Bloodless (a expressão “uncivil war” é sugestiva); Tenuously (sobressai como homem orquestra) e A Nervous Tic Motion of The Head To The Left (das minhas preferidas, ao vivo quando jovem).
Mio Violino Caro: Nigel Kennedy
Jovem, jovem, não será. Mas é quase tão jovem quanto eu. Nigel Kennedy, nascido em 1956, tem 66 anos de idade. Inovador, desenvolto e surpreendente, é um dos violinistas prediletos dos britânicos.
Acabo de chegar de Viana do Castelo de um evento “político”: Encontros do Programa de Apoio ao Investimento da Diáspora (PNAID 2023). Apetece-me algo inspirado com um toque de improviso, “fora da caixa”, que encaixado já anda demasiado o mundo.
Mio Violino Caro: Hilary Hahn
Gosto que me chamem a atenção. Além de ser melhor que nada, lembram, complementam ou corrigem aspetos inadvertidos mas relevantes e oportunos. Aliás, quem chama a atenção concedeu-a primeiro. Confrontado com a série Mio Violino Caro, o meu rapaz mais novo não se inibiu: “Sabes, entre os grandes violinistas também há jovens e mulheres”.
Por exemplo, Hilary Hahn. “Hilary Hahn (born November 27, 1979) is an American violinist. A three-time Grammy Award winner,[4] she has performed throughout the world as a soloist with leading orchestras and conductors, and as a recitalist. She is an avid supporter of contemporary classical music, and several composers have written works for her, including concerti by Edgar Meyer and Jennifer Higdon, partitas by Antón García Abril, two serenades for violin and orchestra by Einojuhani Rautavaara, and a violin and piano sonata by Lera Auerbach” (Wikipedia).
Mio violino caro: Maxim Vengerov
Nascido na Rússia em 1974, Maxim Vengerov consta entre os violinistas mais celebrados do século. Em 1997, foi nomeado embaixador da UNICEF na área de música. Segue a interpretação da Meditação, da ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet.
Mio violino caro: Joshua Bell

No que respeita à música, sou um guloso omnívoro. Agrada-me o que me agrada, sem precondições, tabelas ou conveniências. Aprecio música por vários motivos: composição, arranjo, orquestração, interpretação, mas também, colateralmente, os contextos e as memórias que convoca. Inaurugo uma mini série de artigos, intitulada mio violino caro, centrada em intérpretes de violino.
Comecemos com Joshua Bell. Violinista virtuoso, nasceu nos Estados Unidos em 1967. Em 2007, participou numa experiência curiosa: tocou durante cerca de quarenta minutos numa estação de metro no centro da cidade de Washington. O segundo vídeo mostra o resultado. Segue a interpretação de “O mio babbino caro”, de Giacomo Puccini.
Clara-Jumi Kang. Violinista sul-coreana
Não convém confundir popularidade com populismo, nem populismo com totalitarismo, embora, por vezes, se deem as mãos. Atravessamos momentos em que o que pode ser é. E o que parece, também. Este atalho no entendimento não deixa de comportar riscos no que respeita à justeza dos comportamentos e dos pensamentos.

Este é um artigo com rabo na boca. Com origem e destino em casa. A violinista Clara-Jumi Kang, figura célebre da Coreia do Sul, interpreta Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet, e Primavera, das Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzolla. É acompanhada, respetivamente, pela Orquestra Filarmónica de Seul e pela orquestra de câmara Sejong Soloists, ambas sul-coreanas. Um lote à feição do Fernando, apreciador de culturas orientais, e da Conceição, incondicional do Astor Piazzolla.
Dono do tempo?


“Agora não é mais dono do seu tempo?” Pergunta uma amiga. Na realidade, ando ocupado. Talvez para fugir do vazio, vou-me deixando ocupar. Os meus colegas e amigos também andam ocupados, mas com coisas importantes: meetings, calls, papers, media, projects, reports, classrooms, contracts, bureaucracies, protocols, platforms, virtualities, travels, budgets, referees, metrics, contests, prices, rankings, positions & propositions. As minhas ocupações resumem-se a minudências invisíveis: revejo e traduzo textos alheios, presto-me a ser organizador sombra ou suplente de última hora, preparo aulas e encontros na aldeia, entrego-me a investigações vadias, intermitentes e gratuitas, edito e reescrevo livros que nunca têm fim, cuido da saúde que bem precisa e convivo cada vez mais com os amigos. Vale-me isso e a música, minha musa e companhia. E insisto em pingar pensamentos e sentimentos neste blogue. É certo que, reformado, a maioria destas atividades, decididas ou aceites, são livres. Mas uma vez iniciadas deixam de o ser. Devoram recursos e tempo. Regressando à pergunta inicial: neste momento, sou menos dono do meu tempo, mas provisoriamente. Trata-se de uma perda a que não me resigno, que não sei se prefiro à riqueza de ter todo o tempo do mundo.

