Tag Archive | violência doméstica

O burro e a violência doméstica (aumentado)

Estou a adquirir o mau hábito de revisitar os artigos entretanto esquecidos que constam entre os 10 mais vistos no dia anterior. Não estranha que não os recorde: são perto de 4500 artigos dispersos por 15 anos. Os títulos, eventualmente apelativos, mas não descritivos, também não ajudam. Ontem, o Tendências do Imaginário somou 462 visualizações. O artigo “O burro e a violência doméstica” surgiu em quinto lugar. Escrito há 10 anos, manifesta demasiada ousadia, senão atrevimento. Não tinha ainda consciência de algumas limitações e futuras vulnerabilidades. Recupero-o, acrescentando uma citação e duas gravuras.

O burro e a violência doméstica (março 29, 2015)

France. A “battered” husband was trotted around town riding a donkey backwards.

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.

Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.

Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.

Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

The Journey of a modern Hero, to the Island of Elba. 1814

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Como Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.

Adenda

Dessin de Horace Castelli pour Diloy le chemineau de la Comtesse de Ségur-Paris, Hachette, 1887

O GENERAL
Está tranquilo, meu rapaz; não diremos nada. Mas afundas-te em mau caminho, meu amigo; um marido que tem medo da sua mulher, é risível, palavra de honra.
MOUTONET
Não é que tenha medo, senhor conde, é porque gosto muito dela e não a quero molestar.
O GENERAL
Ta! Ta! Ta! Eu conheço isso; já vi mais que um; quando a mulher resmunga, o marido dobra as costas, e a mulher bate em cima. E tu sabes o que acontece a um homem batido pela sua mulher?
LAURENT
Então, o quê, meu tio? O que acontece?
O GENERAL
A população da freguesia junta-se, coloca o marido de bom grado ou à força sobre o dorso de um burro, com a cara virada para o lado do rabo, e passeia-o por todas as aldeias da freguesia.
LAURENT
Mas isso é muito divertido; a mim, isso divertir-me-ia imenso.
O GENERAL RINDO
Pois bem! quando te casares, poderás proporcionar-te esse prazer.
(Contesse de Ségur. Diloy le chemineau, 1868, 2e édition, Paris, Librairie Hachette, 1887. p. 114)

Les Landes. – L’asouade / [S.n.]. Sans date. Archives départementales des Landes

Feminicídio. Do idílio ao suplício

Bernini. O rapto de Proserpina. 1622.

História de um “amor” violento. Um drama que resume o que se sabe acerca de muitos casos de violência contra as mulheres.

Anunciante: Lacta & Diotima. Título: Don’t Ever Leave Me. Agência: WPP. Direção: Argyris Papadimitropoulos. Grécia, novembro 2021.

Notas de violência e sofrimento

Billboard. Sobredosis. La Comunidad. Argentina. 2017.Custa-me sair de um rio de pensamento. Torno-me chato! Regressemos, pois, à afinidade entre a música e a experiência, o sentimento e a emoção. Os anúncios Inspiración, da Billboard Argentina, enfatizam menos a ideia de que há sempre músicas apropriadas aos diversos momento de vida e mais a ideia de que há músicas que ganham em ser encaradas como resultado do próprio mundo da vida. Por outras palavras, há momentos que suscitam músicas. A diferença é ténue, mas existe. Os três vídeos que seguem são violentos, pior, crus. Se é sensível, não vale a pena ver.

“(Buenos Aires, viernes 9 de mayo de 2017, 16:15 hs. hora local) – La violencia familiar, el racismo o incluso la muerte son tragedias que, sin embargo, algunos músicos lograron traducir en algo positivo, al punto que muchas de sus canciones alcanzaron el primer lugar en el ranking Billboard. Los tres spots–“Sobredosis”, “Redada” y “Violencia”–, con escenas duras y con producción de Primo y dirección de Pantera (Brian Kazez), hacen referencia a esa capacidad de los músicos” (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cinspiraci%C3%B3n%E2%80%9D-preestreno-de-la-comunidad-para-billboard-argentina).

Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Sobredosis. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.

Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Redada. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.

Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Violencia. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.

Sementes de violência

Violence domestique

“Os homens são tão estúpidos que uma violência repetida acaba por lhes parecer um direito” (Claude-Adrien Helvétius, Proverbes, maximes et pensées (1765).

A violência é uma dimensão tortuosa e complicada do ser humano. Importa precaver contra a violência desde a infância. É decisivo. Mas como? Por um lado, não pode ser como os contrafogos que apagam o fogo com fogo. Por outro lado, as crianças aprendem com os adultos, mas o mundo dos adultos é um espectáculo de violência, com ou sem eufemismos.

Anunciante: Australian Government. Título: Stop it at the start. Agência: BMF Australia. Direcção: Derin Seale. Austrália, Abril 2016.

Piropos, galanteios e tromboflebites

Quino. Hombres de Bolsillo

Quino. Hombres de Bolsillo

Cara

Proibidos os piropos? A alteração do Artigo 170 do Código Penal, uma nova pérola legislativa, acorda fantasmas de outras eras, tais como a interdição da Coca-cola; o controlo dos isqueiros; as regras de decoro balnear que condenavam o andar descalço fora da praia sob pena de cinco coroas. Zelo do Estado Novo! Zelo renovado com a intenção de proibição do arroz de cabidela, não sei se por iniciativa do governo português ou da comunidade europeia (cada vez os destrinço menos). Acresce a vetusta pragmática de D. João V (1749) que decretou a proibição das rendas no vestuário.

Somos um país de grandes legisladores. Ressalvando um Marquês de Pombal, vislumbramos minúsculo e irrisório. No código penal, consta ou não a figura da agressão verbal? Existe ou não legislação sobre o assédio sexual?

O Artigo 181.º (Injúrias) do Código Penal estipula:

1- Quem injuriar outra pessoa, imputando-lhe factos, mesmo sob a forma de suspeita, ou dirigindo-lhe palavras, ofensivos da sua honra ou consideração, é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 120 dias”.

Constitui o piropo uma agressão verbal tão específica que justifique legislação adicional?

A regulamentação do piropo lembra o artista que compõe uma espiral “à maneira” para uma coluna virtual. Importa ponderar a relevância deste tipo de pérolas. A interpretação e a aplicação da lei agradeciam.

Proibiram os piropos. E os galanteios? Como categorizar um ato verbal como um piropo? Ou como um galanteio? Ou como outra coisa qualquer? Não se trata de mera retórica. Um piropo só é um piropo quando, pelo menos, duas pessoas assim o entenderem. E as frases não saem das cordas vocais com rótulos. Dependem da definição da situação e das linhas de conduta adoptadas pelos intervenientes. Quando ele, ou ela, profere um piropo, este agrada ou ofende, estimula ou inibe. Em suma, ser ou não ser piropo depende dos interlocutores, da interacção e dos “jogos de linguagem”. A Justiça tem manifestado alguma dificuldade em lidar com os crimes de violação. Como vai abordar os piropos ou o que quer que seja? Dava jeito um Índex de piropos. Sempre achei que era o que nos faltava! Aguardo, com expectativa, a polifonia dos piropos nos tribunais. A proibição do piropo afigura-se-me relevar mais de um manifesto, por sinal, ideológico, do que de uma lei do Estado a pensar na Nação.

Alguém na esfera do poder entendeu legislar contra os piropos. São as estreitezas e os horizontes que temos. Proibir assemelha-se, no entanto, à receita de antibióticos: usar com parcimónia. O delírio suscita delírio. Por que não candidatar o piropo a património da humanidade? É tão absurdo quanto concebível, com argumentos sólidos estribados numa análise SWOT.

Para concluir este primeiro exercício de provocação, uma anedota.

No meu tempo de estudante em Braga, os artistas do piropo encostavam-se ao edifício do Turismo. Aproxima-se uma jovem elegante, andar seguro e nariz empinado.
Um jovem lança o piropo:
– Tem cuidado que não te caia a virgindade!
A visada responde de imediato:
– Se me cair a virgindade, apanha-a e mete-a no rabo, que precisas tu mais dela do que eu.

Quando este país estiver completamente depurado de violência simbólica, teremos, fatalmente, saudades dos piropos.

Coroa

Tive, como prenda natalícia, uma tromboflebite. Castiga o corpo e tolda o espírito.

Este texto devia ter começado com o Artigo 170 do Código Penal, designadamente a alteração recente avessa ao piropo:

“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal”.

Nenhuma menção aos piropos! Adivinha-se que cabem nas “propostas de teor sexual” “importunas”. Importunas, repita-se. Nesta base, qual a razão do alarido na comunicação social? Como emergiu e se tornou viral a notícia da “proibição do piropo”? Será apenas mais uma jogada na miragem das audiências?

A teoria do two step flow, formulada por Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet (The People’s Choice, New York, Columbia University Press, 1948) numa investigação dedicada a uma eleição presidencial releva o papel dos leaders locais de opinião. Entre o primeiro e último elo interpõem-se várias mediações. A influência pública é tudo menos directa e linear. Entre faróis e nevoeiros, entretecem-se diversas versões da “realidade”.

A  alteração do Artigo 170 do código penal foi, “discretamente” aprovada, no dia 05 de Agosto de 2015. Coube ao Diário de Notícias, de 28 de Dezembro de 2015, introduzi-lo na esfera pública numa notícia de intitulada “Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos”. O mote está dado. Seguem-se os ecos na comunicação social, a febre nas redes sociais, os esclarecimentos dos políticos e a perplexidade dos públicos. Temos faróis e tradutores. As “propostas de teor sexual” podem ser vulgarmente interpretadas como “piropos”, assim como os “contactos de natureza sexual” eram associados aos “apalpões”, inclusivamente, pelos próprios protagonistas políticos (“Piropo com teor sexual é crime e dá pena de prisão até três anos”, Esquerda.net,  29 de Dezembro de 2015). É o destino, quiçá desejado, da legislação abstracta, abrangente e vaga. Presta-se ao parecer e à interpretação. A segunda chave é a seguinte: para além da Convenção de Istambul, a proposta avançada pelo PSD foi precedida por iniciativas, de inspiração feminista, por parte da UMAR e do Bloco de Esquerda. Terceira chave, a alteração resume-se à aplicação de decisões assumidas na Convenção de Istambul. Chave gasta. Os nossos legisladores assumem-se cada vez mais como tradutores de medidas deliberadas alhures, o que engrossa um rio de responsabilidade sui generis. Quando, por acréscimo, as medidas “passam despercebidas, “varridas para debaixo do tapete”, as águas tornam-se turvas.

Multiplicam-se os faróis, os nevoeiros e as chaves, que lembram um canivete suíço: servem para abrir e para fechar, para entrar ou sair, para trazer no bolso ou no cérebro. O aditamento referente às “propostas de teor sexual” constitui um bom húmus para a excitação da esfera pública.

Mulheres e meninas

Em crónica no jornal Expresso, de 29 de Dezembro, Paula Cosme Pinto rebate estas chaves de interpretação da alteração do Artigo 170 do Código Penal. Primeiro, considera o artigo no seu conjunto. É uma perspectiva legítima. Uma entre outras. A novidade permanece, contudo, o aditamento, a nova parte do todo. Segundo, importa não confundir piropos, formulação de propostas de teor sexual e assédio sexual:

“diz o dicionário que um piropo é uma “palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; forma de galanteio”. Já no que toca ao assédio sexual, é um “conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa”. Para quem não conseguia chegar lá pela sua própria cabeça, talvez estas definições dos dois termos ajudem a que se faça luz”. Convocar a palavra piropo é uma tradução despropositada. Terceiro, “a lei não se refere à mulher, refere-se à ‘pessoa’ (…) Refere-se explicitamente à vítima enquanto “pessoa”. Mulheres, homens, meninos, meninas. Aliás, convém que não se desvalorize o assédio sexual a que tantos homens e garotos também estão sujeitos”.

O artigo do Código Penal fala, efectivamente, em “pessoas”. Literalmente, nada a acrescentar. Convocar a relação esfíngica entre a letra e o espírito da lei seria terrorismo intelectual, no sentido atribuído por Henri Lefebvre. Mas…

Os próprios protagonistas da alteração do Artigo 170 , como a deputada Carla Rodrigues, não resistem à elipse do género masculino: o aditamento aplica-se

“em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime” (Diário de Notícias, 28 de Dezembro de 2015).

Apesar das aparências, a questão está longe de ser inócua. É grave!

Homens e meninos

Remontando ao combate à violência doméstica, segundo a Lei nº112/2009, de 16 de Setembro, as medidas destinam-se à

“prevenção da violência doméstica, à protecção e à assistência das suas vítimas (…) Para efeitos de aplicação da presente lei, considera -se: a) «Vítima» a pessoa singular que sofreu um dano, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um dano moral, ou uma perda material, diretamente causada por acção ou omissão, no âmbito do crime de violência doméstica previsto no artigo 152.º do Código Penal”.

A lei relativa à violência doméstico tão pouco fala em homem ou em mulher mas apenas em vítima e em pessoa. O combate à violência doméstica foi acompanhado por uma apreciável campanha de sensibilização. Sendo a pessoa o alvo do programa, por que motivo muitos homens se sentiram, de facto, excluídos? Pressentiram que o dispositivo não lhes era dedicado. Os poucos dos muitos homens vítimas de violência doméstica que recorreram às instituições tenderam a ficar pelo primeiro contacto. Vários estudos confirmam esta tendência. Não é uma vergonha nacional? Uma não discriminação que discrimina? Neste caso, a “pessoa”, o “ser humano”, é vítima de agressão física e simbólica: pela Família, pela Sociedade e pelo Estado. São pessoas…  Na Quinta dos Animais, há pessoas que são mais pessoas do que outras.

“Das mais de 26 mil vítimas de violência doméstica em Portugal que pediram ajuda no ano passado, cerca de 15,5% são homens, segundo números oficiais da Direcção-Geral da Administração Interna, referidos nesta segunda-feira durante a apresentação de um estudo universitário sobre o tema. A psicóloga Andreia Machado, da Universidade do Minho aplicou um inquérito cujos resultados indicam que embora 70% dos inquiridos afirmem ter sido vítimas de um comportamento abusivo nos últimos 12 meses, apenas 9% deles se afirmem vítimas de violência. Ainda existe uma relutância masculina em se admitir ser vítima de violência e o preconceito social é o principal motivo.

O inquérito incidiu sobre indivíduos de sexo masculino com mais de 18 anos e com relações heterossexuais. 60% dos inquiridos admitiu ser vítima de agressões psicológicas com impacto para a sua saúde mental, mas apenas 23% procurou ajuda. Destes, 83% relatam que os profissionais das forças de segurança “nada ajudaram”. Para Andreia Machado, o estudo da violência contra os homens está no patamar em que estava o estudo da violência contra as mulheres nos anos 70. A “feminização do fenómeno e a invisibilidade de outras faces do problema” conduz a que esta seja uma violência ainda não reconhecida socialmente no nosso país. Socialmente mas não só.

A psicóloga foi uma das oradoras presentes no seminário-debate As outras faces da violência doméstica, promovido pela Associação de Apoio à Vítima (APAV). João Paiva foi uma voz activa apresentando um caso de violência doméstica, o seu. “As pessoas desatam-se a rir na nossa cara, mesmo quem está destacado na esquadra para tratar de assuntos de violência doméstica”, disse.

Para esta testemunha na primeira pessoa, quando um homem pretende apresentar queixa por violência, é quase certo que esbarra num “comportamento estranho”. Diz ser necessário lutar contra a invisibilidade e a passividade das forças de segurança e da justiça e afirma ser difícil avançar-se para formalizações de processos. A razão, no seu entender, é uma: “sou homem”. (Público, 18 de Novembro de 2013).

Discriminar ou não discriminar, eis a questão, tão antiga quanto a humanidade.  Mais próximo da modernidade é o seguinte paradoxo: discriminar sem discriminar.

Escrever com dores faz mal às letras. Escrever à pressa sobre matéria não urgente é um atentado ao pensamento.

O burro e a violência doméstica

France. A “battered” husband was trotted around town riding a donkey backwards.

France. A “battered” husband was trotted around town riding a donkey backwards.

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.

Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.

Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.

Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

The Journey of a modern Hero, to the Island of Elba. 1814.

The Journey of a modern Hero, to the Island of Elba. 1814.

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Com Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.

Prolongamento

National-Centre-for-Domestic-Violence-SpotEste anúncio, de raro impacto, associa o som de um relato de futebol à imagem de uma mulher atemorizada. Os casos de violência doméstica aumentam quando a Inglaterra joga num Campeonato do Mundo. Sobretudo quando perde, mas também quando ganha. Vários estudos corroboram estas tendências.

Anunciante: National Centre for Domestic Violence. Título: England Match Final Minutes. Agência: Jwt London. UK, Junho 2014.

Police are issuing personal warnings to men and women with a record of domestic violence in the runup to England’s first World Cup game, acting on evidence that abuse against wives, girlfriends and partners spikes dramatically in the aftermath of matches – whether the team wins or loses.
The most detailed research into the links between the football World Cup and domestic abuse rates has revealed that in one force area in England and Wales, violent incidents increased by 38% when England lost – but also rose by 26% when they won.
The research, by Lancaster University criminologist Dr Stuart Kirby, a former police officer, monitored police reports of domestic violence during the last three World Cups in 2002, 2006 and 2010.
While domestic violence rose after each England game, incidents also increased in frequency at each new tournament, raising fears that the forthcoming competition in Brazil – where England’s first game is against Italy on Saturday 14 June – could see the highest ever World Cup-related rises in domestic violence across the UK.
Separate national research examining the 2010 World Cup echoed the Kirby findings – with domestic abuse reports up 27.7% when the England team won a game, and 31.5% when they lost.
(The Guardian, de 8 de Junho: http://www.theguardian.com/society/2014/jun/08/police-fear-rise-domestic-violence-world-cup).

Violência é violência

violence-is-violence-mankind-londres-homme-3Sabe-se que existem vítimas masculinas da violência doméstica. Os próprios organismos de apoio à vítima o testemunham directamente. Sabe-se, mas não se releva. O preconceito e a ideologia servem para evidenciar mas também para encobrir. O primeiro sentido do conceito de ideologia era, precisamente, “disfarce interessado”. Há um lado oculto da lua. E a lua teima em dar voltas. A Mankind Initiative é uma associação britânica de apoio às vítimas masculinas da violência doméstica. Afiança que “40% of domestic violence is against men in the UK”. Permito-me duvidar. A Mankind Initiative produziu, em 2013, um documentário dedicado ao tema: http://www.youtube.com/watch?v=-YNkuc6n1KU. Oxalá a nossa cegueira não esteja a fazer estragos. Porque, com mais ou menos chocolate, uma pessoa é uma pessoa. Segue o anúncio Violence is Violence.

Anunciante: Mankind Initiative. Título: Violence is Violence. Agência: Dare London. Direção: David Stoddart. UK, Maio 2014.

Olhos de Mágoa

LeaO olhar das crianças pode ser perturbador. Às vezes, mais do que o olhar omnividente. É um olhar que não está em todo o lado, mas que está ali, no ponto crítico, dorido, humano. Aprecio estes anúncios que contam uma história, em poucos segundos, com o efeito visado e sem desperdício.

Marca: Frauenzentrale. Título: Lea. Agência; Publicis. Direção:  Heike Fincke. Suíça, Janeiro 2014.

Violência doméstica

One photo a day in the worst year of my lifeA sucessão, durante um longo período de tempo, de fotografias  de um mesmo rosto humano não é novidade. Mas é original esta associação à denúncia da violência doméstica. Carregar em HD no canto superior direito do vídeo.

Anunciante: Humanitarian Fund b92. Título: One photo a day in the worst year of my life. Agência: Saatchi & Saatchi, Belgrade. Sérvia, Maio 2013.