Maneiras estúpidas de viver
As trombetas soam a culpa e expiação. Revezam-se nos ginetes os sacerdotes. Alastra um puritanismo sem ética. E as elites não param de lavar as mãos. Não há ponto cardeal que escape ao novo ajustamento. Há semanas, falei da morte risonha e da morte com bebé ao colo; estes anúncios mostram mortes parvas. O primeiro, da Metro Trains, consta entre os mais premiados da história da publicidade; o segundo, é uma paródia produzida para a Miami Ad School/ESPM.
Sente-se a falta de um Guerra Junqueiro. Escondíamos em casa uma edição censurada de A Velhice do Padre Eterno. Abundam, sem dúvida, as maneiras estúpidas de morrer, preocupam-me mais as maneiras estúpidas de viver.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.
Marca: Miami Ad School/ESPM. Título: Dumb ways to die. Agência: Y & R Brasil. Brasil, Abril 2014.
Nem a morte nos separa (Revisto em 07.08.2022)
Neste tempo em que a inteligência anda tão estúpida, urge recuperar a sabedoria. “A gravidade é o escudo dos parvos” (Charles de Montesquieu,1899, Pensées et Fragments Inédits de Montesquieu, publiées par Le baron Gaston de Montesquieu, II, Bordeaux, Imprimerie de G. Gounouilhou, p. 97).
Descobertos no norte de Itália, em Mântua, os Amantes de Valdaro são um caso raro de esqueletos adultos abraçados. Se não fosse um anacronismo, diria que exalam um efeito de hiper-realidade. Apresentam-se, assim, secos, despojados de carne, mais reais do que o real. Lembram Pompeia, essa Sodoma latina em que não é preciso olhar para trás para se ficar petrificado.
Há imagens de morte que arrepiam os neurónios e avariam a fé. Assinalam como é ténue e absurda a fronteira entre a vida e a morte: um campo de concentração, um acidente rodoviário, um atentado terrorista, uma catástrofe natural… No ano 79, as cinzas do Vesúvio sepultaram Pompeia e Herculano. As vítimas, petrificadas, parecem não ter completado a passagem. Ainda comunicam. Duas cidades enterradas vivas, cujas ruínas foram descobertas, pela primeira vez ,em 1599, durante a construção de um canal, mas, por extremo cuidado, desinteresse ou pudor, a escavação arqueológica só foi iniciada em 1748. Formas únicas, assombrosas, submersas durante, pelo menos, 1520 anos. Volvidos mais de dois mil anos, ainda resta muito a escavar e a expor. A tragédia da vida no regaço da morte.
Pompeia não pára de surpreender. Em dezembro de 2020, foi descoberto uma espécie de quiosque de fast-food exepcionalmente bem conservado, numa área não aberta ao público, e cujas escavações tinham sido parcialmente iniciadas em 2019. Neste espaço, constituído por um balcão com vários cantos e decorado com frescos de cores vivas com animais, existiriam diversos recipientes onde era inserida a comida para ser vendida aos transeuntes. Os animais pintados – dois patos e uma galinha – é certo que faziam parte das iguarias existentes nesta espécie de quiosque, assim como outros animais e plantas, cujos vestígios também foram encontrados. Foram igualmente achados diversos utensílios e ossos. Estes espaços, eram conhecidos como termopólios, por fornecerem refeições e bebidas quentes. (João Nunes da Silva, As mais recentes descobertas de Pompeia: https://www.natgeo.pt/historia/2021/03/as-mais-recentes-descobertas-de-pompeia. Acedido em 07.08.2022).
Os Pink Floyd são conhecidos pelas suas extravagâncias. As gravações ao vivo, em 1971, nas ruínas do Anfiteatro de Pompeia não destoam: proporcionaram um filme de um espetáculo sem público num palco improvável (Pink Floyd: Live at Pompeii, dirigido por Adrian Maben, publicado em 1972). Não obstante, a música dos Pink Floyd ecoa à perfeição nesta galeria de fantasmas pálidos e sólidos. Durante séculos, os pintores tentaram, em vão, fixar na tela o momento da morte. O Vesúvio conseguiu esculpi-lo em poucos minutos.










O Desejo e a Norma
Se desejas o que não podes, pode o que desejas. Mas se desejas o que não deves, o caso é mais complicado. Começa por te banhar numa fonte natural próxima. Pode ser férrea, sulfurosa ou calcária. Não interessa. Pousa o coração num ninho de cuco. Lava bem a pele por fora e por dentro. Rememora a tua vida. Desfaz-te de tudo que não seja essencial. Sobrará de ti menos que um esporo de dente-de-leão. Não te esqueças do coração no ninho de cuco. Certifica-te se é capaz de voar. Deita-te numa ponte à espera que o vento te leve onde não deves. Na vida, podes ser mini, mas não sei se tens interesse em ser normal!
“Normal, c’est la norme. Normal, c’est moyen, ordinaire. Habituel. Normal, c’est une valeur sure. C’est familier, confortable et réconfortant. Normal, c’est ce qu’on connait. C’est banal.”
Um par de asas
Uma sugestão sábia: não vencemos a gravidade (the grave) sozinhos, só partilhando as nossas asas. Entre a vida e a morte, a complementaridade faz a diferença. “We are, each of us angels with only one wing; and we can only fly by embracing one another (Luciano de Crescenzo)”. Uma história animada original, criada pelos alunos da classe 2012 da escola dinamarquesa The Animation Workshop.









