A Ponte dos Suspiros

Impressiona a quantidade e a diversidade de discos que adquiri em Paris. Em livros, discos e viagens gastava quase todo o meu salário do Banco Pinto & Sotto Mayor. Somando o convívio emigrante, a universidade e os amores, a pouco mais se resume o currículo entre os 16 e os 23 anos, 1976 e 1982. Resistente à plena integração, nunca resolvi plenamente o regresso a Portugal. Oscilo como o asno de Buridan, atravessado numa “ponte de suspiros”.

Jovem, viajava quase sempre só, pouca bagagem, travelers cheques da American Express na carteira e destino mal definido. A ausência de companhia tem uma vantagem: abrimo-nos mais aos outros e os outros abrem-se mais a nós. Em finais de agosto de 1978, terminado o trabalho no banco, parti rumo à Jugoslávia. Veneza era ponto de paragem. Chegado, não consegui hotel. Tudo lotado. Não costumava reservar hotéis. Não sabia os dias de chegada nem de partida. Consoante se proporcionava. Por exemplo, demorara mais tempo do que previsto na Suíça. Retomo caminho rumo a Trieste. Veneza ficaria para o regresso. No comboio, conheci duas jovens. Convidaram-me a pernoitar em Portogruaro, a umas dezenas de km de Veneza. Decorria um festival jazz. Deixei-me hospedar durante quase duas semanas. Conheci Veneza como poucos. Uma das jovens, professora de biologia, foi uma excelente guia. Prossegui para a Jugoslávia, com duas semanas de atraso. Regressei a Paris no fim de outubro, tinham começado as aulas há quase um mês. Assim era naquele tempo.

Hoje, deparei com o LP Bridge of Sighs, estreado em 1974. Guitarra potente, desenvolta e expressiva, com remanescências de Jimi Hendrix, interpretada por um antigo membro dos Procol Harum: Robin Trower. Viro o disco e toca outra música, talvez apenas apreciada por alguns amigos, os nostálgicos dos anos setenta.
Ao ver o Robin Trower, com 76 anos, a tocar com tanta agilidade, apetece retomar a aprendizagem adolescente da guitarra. Tenho a Fender Stratocaster do meu filho, basta comprar uma acústica. Só preciso de um mestre. Infelizmente, o primeiro, o John, está demasiado longe, no Canadá (ver https://www.youtube.com/watch?v=xH6EaTuavJk e https://www.youtube.com/watch?v=W0qsuGpJHqI).
Ler também cansa
Ler, ler, ler… Não o que apetece, mas o que se impõe. Prefiro ouvir, por exemplo, Ennio Morricone, uma arca sem fundo, onde se encontra, normalmente, a emoção que se procura. Fez 88 anos. Em 2016, ganhou o Óscar pela banda sonora do filme Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que inclui a música Ester. Ennio Morricone dirige, em 2007, a música Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, na praça de São Marcos, em Veneza. Um espectáculo como só os italianos! O diálogo entre os instrumentos de sopro é simples mas sublime.
Ennio Morricone . Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Concerto em Veneza. 10.11.2007.
Ennio Morricone. Ester. Os Oito Odiados. 2016.
A Folia de Vivaldi
Vi, vezes sem conta, nas aulas, Vivaldi, Un Prince à Venise (2006), de Jean-Louis Guillermou. Um filme pedagógico sobre a vida de Antonio Vivaldi (1678-1741). “O padre vermelho” torna-se famoso e admirado na Europa. Mas nos últimos anos de vida conhece dificuldades, hostilizado por parte do clero, ultrapassado pela moda e criticado por poetas e compositores, entre os quais Goldoni e Marcello. Vivaldi vê-se constrangido a vender parte das partituras e, com 63 anos, deixa Veneza rumo a Viena, onde, passados poucos meses, morre, sendo sepultado numa campa sem nome. A própria música entrou em hibernação. A maior parte do seu repertório foi (re)descoberta nos anos 1920’ e divulgada nos anos 1950’. A vida é assim feita: tudo que sobe pode descer e vice-versa, como as calças de ganga, o rugby, os tacões e os lenços de namorados.
Antonio Vivaldi compôs uma folia, música e dança de origem portuguesa (ver http://tendimag.com/2013/08/02/folia-portuguesa/). Ver e ouvir, na medida do possível, até ao fim.
Antonio Vivaldi. La Folia. Interpretação: Apollos’s Fire
Três faces e um pescoço
Para além do Cristo da Trindade (http://tendimag.com/2014/04/10/as-tres-faces-de-cristo/), cabeças com três faces aparecem em máscaras pré-colombianas, mexicanas, africanas, venezianas e orientais, em esculturas de shiva e na arte contemporânea. Há quem represente o tempo com três faces: o passado, o presente e o futuro (ver galeria). Esta pequena digressão à volta do mundo serve para encalhar na capa do primeiro cd dos Goldfrapp: dois rostos femininos laterais simétricos; na parte frontal, o capricho dos cabelos esboça a carranca de um monstro. É difícil escolher uma música do álbum Felt Mountain (2000). Segue a faixa Utopia, com a capa.
Goldfrapp. Utopia. Felt Mountain. 2000
- Fig 01. Máscara précolombiana. México
- Fig 02. Três faces do Rei. Museu Cultural de Izamal. México
- Fig 03. Máscara. Lega. Zaire.
- Fig 04. Máscara de Veneza
- Fig 05. Deus Shiva. Índia
- Fig 06. As três faces de shiva
- Fig 07. Pai Tempo
- Fig 08. Leyton Franklin. Mask with three faces in one.
- Fig 09. Karan A L (hester). Three Faces of Art. 2005.
- Fig 10. Goldfrapp. Felt Mountain. Frontal. 2000.











