Igreja de Anba Bishay e Anba Bigol. Mosteiro Vermelho. Perto de Sohag. Egito. Sec. VI a VII . Fotógrafo: E. Bolman
Com o corpo debilitado durante uma meia dúzia de anos, acabei por abusar das “células cinzentas”, teimosamente operacionais. Tornei-me um hiperativo mental, a saltar de assunto em assunto, vários ao mesmo tempo, sem os acabar. Faltava a corda para os desafios que abraçava. Subsistia, contudo, uma vantagem: entregar-me (quase) apenas ao que gostava: investigar, muito; escrever, bastante; divulgar, pouco. Acumulei descobertas, que não escrevi, e apontamentos, que não publiquei. Num estilo impaciente, apertado e abreviado, com a imagem a sobrepor-se à letra. Algo recuperado, por inércia ou histerese, esta hiperatividade mental não diminuiu. Continuo a multiplicar as pesquisas, sem cuidar de as concluir nem de partilhar os resultados. O Tendências do Imaginário é um bom testemunho deste estado pouco recomendável. Passaram quase três meses desde a publicação do segundo artigo da série A amamentação através do tempo, dedicado ao primeiro milénio pagão. A Baixa Idade Média oferecia-se com a meta almejada, contemplando, portanto, o românico, o gótico e parte do renascimento. Recolhi, em conformidade, informações e imagens. Arrumei-as numa fila à espera de ocasião propícia, eventualmente o dia de São Nunca. Sábado, fui ao Mosteiro de Tibães. Os fantasmas dos monges copistas e iluminadores, o entusiasmo da Aida Mata, a dedicação da Anabela Ramos e a curiosidade do Alberto Gonçalves despertaram-me um raro rebate de consciência. Não partilhar as imagens da “Virgem do Leite” do primeiro milénio cristão configurava um desperdício, senão um pecado de soberba e preguiça. Partilho-as, portanto, despojadamente, em jeito de penitência. Perdi o treino à comunicação e a escrita oferece-se como um prazer que me custa. Mas, com franqueza e sem maneirismo, o que mais me incomoda é a sensação de estar a despachar questões dignas de mais cuidado e atenção.
O primeiro milénio da era cristã revela-se estranhamente parcimonioso no que respeita a imagens, conhecidas, com a Virgem a amamentar o Menino. Esta exiguidade estende-se, aliás, à generalidade das imagens marianas, quando não cristãs, o que surpreende atendendo à expansão do cristianismo, mormente a partir do século IV, na sequência dos éditos de Milão, que o legaliza em 313, no tempo de Constantino, e de Tessalónica, que o promove a religião oficial exclusiva do Império Romano, em 380, no tempo de Teodósio I.
O culto da Virgem levou, porém, algum tempo a consolidar-se, devendo aguardar a sua consagração dogmática como Mãe/Portadora de Deus (Theotokos) no Primeiro Concílio de Éfeso, em 431.
É provável que, pelo menos a partir dessa data, as imagens com a Virgem se tenham multiplicado, principalmente no Imperio Romano do Oriente, onde a presença cristã era notável e as artes não só se mantiveram como se desenvolveram. Só que esta implementação não “ficou para a História”. A grande maioria das imagens foi destruída pelos movimentos iconoclastas dos séculos VIII (726 a 787) e IX (814-842), responsáveis por uma autêntica razia das imagens religiosas, associadas à idolatria. Estes movimentos foram decretados pelos imperadores que, no Império Romano do Oriente, eram também os chefes da Igreja Ortodoxa. Sublinhe-se que, durante o primeiro milénio, Constantinopla foi o principal centro de produção de arte cristã.
Afresco com a Virgem e o Menino. Catacumba de Priscila. Roma. Final do século II, início do século IIIMulher a amamentar um menino. Possivelmente a Virgem Maria. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260
Não admira que na fase inicial desta indagação apenas tenha surgido um par de afrescos pressupostamente com a Virgem a amamentar o Menino, ambos descobertos na catacumba de Priscila, em Roma, datados por volta dos séculos II e III. O primeiro afresco suscita-me poucas dúvidas. Parece ser um fragmento de uma cena com a Adoração dos Reis Magos.
Adoração dos Magos. Afresco da Catacumba de Priscila. Roma. Séc. IIIAdoração dos Magos. Decoração de um Sarcófado. Museus do Vaticano. Séc. III
Aponta nesse sentido a semelhança com outro afresco da catacumba de Priscila e com a decoração de um sarcófago, ambos do século III, cujo motivo é, precisamente, a Adoração dos Reis Magos, com a Virgem e o Menino na mesma posição e uma figura de pé a apontar para a estrela.
Cenas com Sofia, Maria e Cristo ou da vida de uma mulher cristã defunta. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260
O segundo afresco, com uma mulher a amamentar uma criança, justifica mais reservas. Orantes, com os braços abertos levantados, são frequentes nas catacumbas romanas. Na composição do afresco, tanto pode aparecer Sofia, no centro, Cristo com amigos, à esquerda, e a Virgem com o Menino, à direita, como um conjunto de cenas da vida de uma mulher defunta (ver um exemplo semelhante respeitante ao túmulo de uma criança na imagem seguinte).
Sarcófago de Cornelius Statius, uma criança. Evocação da sua vida.140 a 150 d.C. De Roma. No Museu do Louvre
Perante esta exiguidade, que fazer? O mesmo que, há alguns anos atrás, adotámos para as imagens de Cristo: alargar horizontes, demandar outros territórios e outras cristandades, além dos Impérios Romanos do Ocidente e do Oriente e das igrejas Católica Apostólica Romana e Ortodoxa Bizantina. Sondar, por exemplo, a Síria, a Palestina e o Egipto, conquistados pelos muçulmanos no século VI, em particular as igrejas Ortodoxas Copta e Síria, com foco especial nos mosteiros de Apa-Jeremias, em Sacará, e Santa Catarina, no Monte Sinai.
Escavações no Mosteiro de Apa-Jeremias, em Sacará (1908-9, 1909-10)Mosteiro de Santa Catarina no Monte Sinai
Com este “desvio”, sobem de duas para nove as imagens encontradas com a Virgem a amamentar o Menino anteriores aos iconoclasmos dos séculos VIII e IX [Na galeria seguinte, carregar em cada imagem para a aumentar e ler a respetiva legenda].
Galeria 1: Imagens com a Virgem a amamentar o Menino no primeiro milénio
Quatro apontamentos complementares em jeito de conclusão:
1) A figura da Virgem do Leite não foi criada na Idade Média Central e ainda menos pelo estilo gótico. Existem antecedentes desde o século II;
2) A produção de imagens com a Virgem a amamentar o Menino foi muito superior aos exemplares conhecidos;
3) Durante o primeiro milénio, as imagens com a Virgem a amamentar o Menino afastam-se pouco de outras congéneres, tais como a Ísis Lactans ou as Deusas Mães, por exemplo, celtas e galo-romanas;
4) A sobrevivência de muitas imagens cristãs deve-se à sua localização em territórios não pertencentes ao Império Bizantino, designadamente sob domínio muçulmano, durante os períodos iconoclastas dos séculos VIII e IX.
A busca de imagens com a Virgem a amamentar o Menino proporcionou, naturalmente, o conhecimento de imagens apenas com a Virgem e o Menino. Eventualmente menos divulgadas e de difícil acesso, coloco, na galeria 2, uma seleção com 26 exemplares.
Galeria 2: Imagens apenas com a Virgem e o Menino no primeiro milénio
Nesta galeria, dez imagens provêm do Egipto e nove de Roma. Três repartem-se pela Ucrânia, Geórgia e Alemanha, regiões não pertencentes ao Império Bizantino durante os iconoclasmos. Apenas duas imagens são oriundas de Constantinopla/Istambul, por sinal posteriores ao último movimento iconoclasta (datadas por volta do ano 1000). Enfim, a única imagem restante, do século VI, encontra-se na Basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravena. Esta cidade constitui um caso singular. Trata-se de uma das principais concentrações atuais de arte bizantina, nomeadamente do período de transição entre o romano e o bizantino. Boa parte dos mosaicos cristãos mais antigos abrigam-se nas basílicas de São Vital e Santo Apolinário Novo. Escaparam por pouco à purga do primeiro movimento iconoclasta, que, decretado por Leão III, em 726, atingiu o auge, sob Constantino V, a partir do Concílio de Hieria, em 754. “Providencialmente”, três anos antes, em 751, os lombardos conquistaram Ravena, libertando-a do controlo bizantino.
Ironia das ironias, coube, naquele tempo (séculos VIII e IX) aos muçulmanos e aos “bárbaros” “proteger” a arte cristã do zelo purificador da cristandade “ortodoxa”.
No último artigo do Tendências do Imaginário, aludi ao último concerto dos Pink Floyd durante o Live 8, em 2005. Cumpre-me precisar: o último concerto ao vivo com todos membros do grupo: Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright. O desentendimento de longa data entre Waters e Gilmour a morte de Wright em 2008 impediram qualquer reunião ulterior. Mas a marca Pink Floyd, de facto, não desapareceu. Os Pink Floyd editaram, por exemplo, em 2014, o álbum Endless River. David Gilmour, com 76 anos, e Nick Mason, com 78 anos, reativaram o grupo este ano para uma intervenção de protesto contra a guerra na Ucrânia e de apoio ao povo ucraniano. O resultado é a canção e o vídeo Hey Hey Rise Up.
Pink Floyd – Hey Hey Rise Up (feat. Andriy Khlyvnyuk of Boombox). Abril 2022
Sergei Prokofiev nasceu em 1891 na Ucrânia e faleceu em 1953 na Rússia. Segue o excerto Montéquios e Capuletos, do bailado Romeu e Julieta, Op. 64, estreado em 1940.
Sergei Prokovfiev. Romeu e Julieta. Bailado. Op. 64. Montéquios e Capuletos. Pela The Emory Youth Symphony Orchestra, 2010.
Juan Fernández. Portrait du violoncelliste Pablo Casals. 1958.
A música expulsa o ódio dos que vivem sem amor. Dá paz aos que não têm descanso, e consola os que choram (Pablo Casals).
A tempestade promete a bonança. Pablo Casals, compositor, maestro e violoncelista catalão, foi um acérrimo defensor da democracia em tempos adversos de franquismo, fascismo e nazismo. Song of the birds (El cant dels ocells), uma composição para violoncelo de Pablo Casals, inspirou várias interpretações. Retenho duas: a interpretação pelo próprio Pablo Casals, na Casa Branca, em 1961; e a adaptação da ucraniana Nataliya Gudziy, caraterizada por uma singularidade e uma simplicidade amigas da beleza.
Pablo Casals. Song of the birds (El cant dels ocells). White House. 1961.
Nataliya Gudziy. Song of the Birds (El Cant dels Ocells). Kobzar / Nataliya3. 2014.
Repeti vezes sem conta que alguns desportos são simulacros de guerra. Mas nem todos. Talvez o futebol ou o rugby, mas não o esqui, o mergulho ou o asa delta. Estes últimos lutam, quando muito, com a natureza. Mas não é essa a filosofia, a intenção reside em fazer da natureza (neve, água, ar) um parceiro. Mas estamos sempre a aprender. O anúncio ucraniano Epic Battle, da empresa de apostas Parimatch, vai mais longe: às tantas não sabemos se estamos a praticar desporto com tiques de guerra ou a fazer a guerra como desporto. Epic Battle é um épico de massas, que lembra outro épico de massas, a Big Ad, da Carlton Draught.
Marca: Parimatch. Título: Epic Battle. Produção: Electric Sheep Film. Direcção: Macar Severin, Andrei Copots, Ucrânia, Outubro 2017.
Marca: Carlton Draught. Título: Big ad. Agência: George Patterson Partners. Direcção: Paçul Middleditch. Austrália, 2005.
Ontem, a Surpresa; hoje, a Paixão. Ambas, estilo alemão. Uma pitada de preconceito não faz mal a ninguém, pois não? Tanto mais que o grupo alemão Commerzbank AG detém 96% do Bank Forum. Acresce que a campanha obteve bons resultados (ver vídeo 2).
Anunciante: Bank Forum. Título: Passion. Agência: Ogilvy & Mather Ukraine. Direção: Mikko Lehtinen. Ucrânia, 2011.