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Turismo mágico e radical

O anúncio 5 places, do Ministério do Turismo da Argentina, mostra-nos as férias que provavelmente não tivemos. De desejo em desejo, um casal salta de ambiente em ambiente: mar, montanha, estuário, deserto, lagoa. Com paixão, risco, aventura e contacto com a natureza. Este anúncio combina componentes que anúncios congéneres tendem a negligenciar: narrativa, magia, humor, amor e sintonia com o público- alvo (jovens adultos radicais, presume-se). Falha, talvez, a música. Onde está a magnífica música argentina? Pense-se, por exemplo, em Astor Piazzolla ou Mercedes Sosa.

Marca: Argentina Ministry of Tourism. Título: 5 places. Agência: La Comunidad Buenos Aires. Direcção: Luisa Kracht. Argentina, Fevereiro 2017.

Astor Piazzola. Oblivion. 1982.

Mercedes Sosa. Sólo le pido a Dios. Live in Argentinien. 1982.

Inversão de papéis

Aruba

“Aruba es uno de los destinos más románticos del caribe. #HeSaidYes es una iniciativa de la Isla Feliz que invita a las mujeres a cambiar los roles del amor”.

Trata-se de uma inversão dos papéis de género num gesto densamente simbólico: o pedido de casamento. Um anúncio polémico? Sinais dos tempos? Crítica de clichés? Pequenos passos a caminho de grandes mudanças?

Ressalvando o Mamma Mia, o pedido de casamento é um ritual em vias de esvaziamento social e simbólico. Ainda do meu tempo, a família do futuro noivo deslocava-se a casa da futura noiva para pedir a sua mão. Algumas décadas atrás, negociavam-se os dotes e os contratos de casamento. Há alguns séculos, a comitiva da prometida deslocava-se em coche durante dias e dias para ir ao encontro do prometido. Quanto às novas gerações, vai chegar a altura em que um sms basta (ou talvez não).

Ao visionar o anúncio, insinua-se uma dúvida: quem influencia a escolha dos destinos turísticos? Ele? Ela? Ambos? Os filhos? Pelos vistos, elas são as mais influentes na escolha dos paraísos terrestres, como a ilha Feliz, em Aruba.

Marca: Isla de Aruba. Título: #HeSaidYes. Agência: Mullen Lowe Bogotá. Colômbia, Agosto 2018.

Saudades! Saudades de quê? De pedidos de casamento como o do anúncio Marry Me, da Siemens.

Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

 

O prazer da publicidade

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Vou contar um segredo: gosto da publicidade. Sei que é reflexo condicionado denegri-la. Pois, não a considero nem vazia, nem alienante, nem cacofónica.  Cada anúncio é uma interpelação. É obra de gente competente e criativa. Aprende-se mais com a publicidade do que com muitas agências de ensino. Sente-se mais com a publicidade do que com muitas paradas e promessas de prazer colectivo. Enfim, gostar do que se gosta é a nossa maior liberdade.

O anúncio Every spot a masterpiece, do Graubünden Tourism, é um bom exemplo. Centra-se num pormenor: as marcas dos trilhos transformadas em obras de arte. Marcas que, ao jeito dos fragmentos, convocam o todo: as majestosas montanhas suíças. E assim a arte se refaz. Regressa ao meio ambiente para ajudar a guiar os passos do homem.

“Everyone knows them: the white-red-and-white trail markers that show hikers the way. From today, these look a little different on three trails in Graubünden. For an artist has set his hand, or rather his brush, to these and made these signs live up to the beauty of the surrounding nature. True to the motto: every spot a masterpiece” (Graubüngen Tourism).

Marca: Graubünden Tourism. Título: Every spot a masterpiece. Agência: Jung Von Matt. Suíça, Setembro 2017.

A nova canção de Paris

paris-je-taimeEm Paris, até os passos se perdem. O anúncio da Câmara de Paris é empolgante, mas há tanto Paris esquecido. O museu Rodin mantém-se secreto, o Jardim do Luxemburgo, reservado aos habitués e a Sainte Chapelle, aos aficionados de banhos de luz… É certo que as atrações de Paris não cabem em 150 segundos. Il faut choisir! As imagens correm tão a galope que o olhar não as consegue ver. Deve ser um vídeo para connaisseurs. E a canção? Tem sotaque inglês ou é mesmo inglesa? Deve ser isto o French Kiss. Não é? O vídeo mostra? Cantar Paris em inglês é uma opção. Presume-se ser a língua dos destinatários. Voilà! Assim resulta melhor. A França está no bom caminho. Em tempos de cortesia linguística, a melhor língua é aquela que mais vende. I love Paris!

Anunciante: Mairie de Paris. Título: Paris je t’aime. Direcção: Jail Lespert. França, Setembro 2016.

Paris num zootrópio

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De Singapura a Paris, pela mão da Airbnb. Além da cidade monumental, dos parques e dos jardins, existe um outro Paris que até os parisienses desconhecem: antiquários e bouquinistes, pequenas livrarias onde moram livros esgotados, praças, bistrots e caves, onde se toca jazz , carrosséis de sonho (Jean Loup Passek, que esteve na origem do Museu do Cinema, em Melgaço, é proprietário de um carrossel no Jardin du Luxembourg).

Só um golpe de sorte nos dá acesso a este Paris diferente. Ou um guia da Airbnb…

Marca: Airbnb. Título: A different Paris. Agência: TBWA Singapore. Direcção: Norman Yeend. Singapura, Setembro 2015.

O anúncio recorre a uma técnica de animação criada em 1833, o zootrópio. Uma técnica que exige trabalho, precisão, tempo e meios (ver https://tendimag.com/2013/03/25/fotografar-o-movimento-do-corpo/). O vídeo nº 2 mostra como foi feito o anúncio e o terceiro exemplifica como funciona um zootrópio moderno.

Behind the scenes. A different Paris. Setembro 2015.

Sony Bravia. Zoetrope. 2009.

É difícil falar de Paris sem que nos venham à memória algumas canções: por exemplo,  Sous le ciel de Paris, de Edith Piaf, e À Paris, de Yves Montand. Yves Montand foi um grande ator e cantor francês. Teve uma relação com Marilyn Monroe e com Edith Piaf.

Yves Montand. Olympia. Paris. 1982.

Edith Piaf. Sous le soleil de Paris. Carnegie Hall, 1957.

Turismos

BookingcomJapan_HerestotheExplorers15A comparação é uma excelente forma de obter conhecimento. Assim o entende, por exemplo, Max Weber. Há situações em que a comparação é uma tentação. A Booking.com lançou, este ano, dois anúncios. Um na Holanda (ocidental), o outro no Japão (oriental). A agência é a mesma: a Wieden+Kennedy. Marca e agência iguais, localização distinta. Apetece comparar, não apetece? Para sentir o pulso à globalização: será o globo redondo e liso, como uma bola de futebol? Ou torto e enrugado, como uma bola de trapos? São apenas dois casos. Não dá para extrapolar. Mesmo assim, vou comparar, a não ser mais para treinar a comparação. Não quer treinar, também?

Marca: Booking.com. Título: Booking Hero. Agência: Wieden+Kennedy Amsterdam. Direcção: Dante Ariola. Holanda, Fevereiro 2015.

Marca: Booking.com. Título: Here’s to explorers. Agência: Wieden+Kennedy Tokyo. Direcção: Matthew Swanson. Japão, Agosto 2015.

Nas mãos de uma criança

Um bebé afasta-se, a contraluz, rumo à janela. De fraldas em riste, rasga horizontes. Go and see just how kind this world can be. Um anúncio da  Airbnb, com imagem, texto, voz e música encantadores.

Marca: Airbnb. Título: Is Mankind? Agência: BWA/Chiat/Day, San Francisco. Direcção: Lance Acord. USA, Julho 2015.

Manuel FreireA propósito ou a despropósito, vale sempre a pena ouvir a Pedra Filosofal, de Manuel Freire, com letra de António Gedeão, estreada em 1969.

Naquele tempo, não éramos bons alunos em nada. Estava para vir a arte da sicofância (ver Sicofância: a arte dos lambe cús).

Manuel Freire. Pedra Filosofal. Letra de António Gedeão. 1969.

Sociologia sem palavras 14. O povo.

CARTAZ-DO-FILME-MARIA-PAPOILA (1)Da Beira Alta rumo a Lisboa, seguem no comboio Maria Papoila, de condição humilde, em 3ª classe, e o filho do médico da aldeia, em 1ª classe. Ela vai tentar a sua sorte, ele, prestar serviço militar. O povo enche, alegrete, a 3ª classe; ao filho do médico, solitário em 1ª classe, tudo o incomoda. O filme Maria Papoila, de Leitão de Barros, estreou em 1938, ano do concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal. Este excerto mostra como, nos anos 1930, se representava, em Portugal, o povo, as desigualdades sociais, a migração para a capital e a actividade hoteleira em Lisboa.

Maria Papoila. Leitão de Barros. 1938. Excertos.

Gelar no paraíso

Columbia Britânica

Como deve ser bela a natureza para os lados da Colúmbia Britânica! Mostrada assim, dá vontade de gelar algures à porta do paraíso. O contraste entre a cidade e a montanha no final do anúncio é fabuloso. Imagens magníficas! E a letra? Como seria a letra se os canadianos tivessem Camões e Pessoa?
A Colúmbia Britânica tão longe, e a minha terra aqui tão perto… Pedra, água, árvores, musgo… Saudades (ver https://tendimag.com/2012/01/21/a-pedra-e-a-agua-imagens-de-melgaco/).

Marca: Destination British Columbia. Título: The Wild Within. Agência: Dare, Vancouver. Direcção: Sean Thonson. Canadá, Novembro 2014.

A Bengala Branca

 

sa-tourism-1Fazer um anúncio é criá-lo. Não há outro modo. No Reconsider, da Ireland/Davenport, a atenção oscila entre os sítios e o visitante. De sensação em sensação, tece-se uma trama de prenúncios. A bengala branca é a chave final: o visitante é cego. Há tanto prazer para além do ver! Curiosamente, no anúncio, o som resume-se à música e à voz. Uns não vêem, outros não ouvem. “Avózinha, para que é esse silêncio tão grande? É para te ver melhor”. Naturalmente.

Anunciante: South African Tourism. Título: Reconsider. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. República da África do Sul, Maio 2014.

Tenho bastante admiração pela agência Ireland/Davenport, da República da África do Sul. Produziu, em tempos, um dos mais belos anúncios da história da publicidade: Aesthetics. Vale a pena rever.

Anunciante: BMW. Título: Aesthetics. Agência:  Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Adrian de Sa Garces. República da África do Sul, Novembro 2006.