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Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Sobre rodas

Bertha Benz. Motorwagen.

Em 2018, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz dos Estados-Unidos lançou um anúncio intitulado “First Driver” dedicado a Bertha Benz, mulher do inventor e empresário do primeiro automóvel (ver vídeo 1). Este ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz alemã lança um anúncio intitulado “The journey that change everything” dedicado, também, a Bertha Benz. Para o próximo ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, não estranhará se a Mercedez-Benz lançar um anúncio intitulado “Visita à família em quatro rodas”, dedicado, mais uma vez, a Bertha Benz. A consumar-se esta eventualidade, consolida-se uma saga internacional com Bertha Benz como protagonista.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The First Driver. Agência: R/GA. Estados Unidos, Agosto 2018.

Os dois anúncios partilham a mesma protagonista e a mesma história: a viagem de cerca de 60Km em automóvel até à residência da mãe. Ela própria cuidou que o evento justificasse uma grande cobertura mediática e publicitária. Bertha Benz, uma mulher notável, é uma referência para a marca Mercedes-Benz, bem como para a emancipação da mulher. Nestes anúncios, Bertha Benz é uma dupla embaixadora.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The Journey That Changed Everything. Agência: antoni garage. Direcção: Sebastian Strasser. Alemanha, Março 2019.

Os dois anúncios são semelhantes no conteúdo, mas bastante distintos no estilo. First Driver, a preto e branco, acusa um pendor clássico. The journey that change everything comporta, a começar pelo título, uma propensão barroca, por vezes, grotesca. A acção é exuberante e sobram as personagens feias, porcas e más. Esta diversidade no estilo intriga. Poucos anos atrás, a Mercedes-Benz primava por cultivar uma imagem robusta, ver previsível. Recentemente, a saída de um novo anúncio gera expectativa. Não se consegue adivinhar, à partida, qual é o estilo, o conteúdo e o público-alvo. A publicidade da Mercedes-Benz parece ter adoptado uma estratégia de comunicação poliédrica e polifónica.

Natal andróide

Edeka. Christmas. 2117

Num mundo disfórico entregue às máquinas, um andróide deixa-se cativar por alguns vestígios de vida humana num cartaz e num filme com a ceia de Natal. Começa uma odisseia da máquina em busca do humano. Simula a ceia de Natal com manequins, mas não resulta, falta o espírito. Acaba por reconhecer a paisagem numa fotografia de um jornal.  Por vales e montanhas, encontra finalmente a família humana que o acolhe com generosidade.

Este anúncio lembra filmes tais como O Planeta dos Macacos (1968), Blade Runner (1982), Equilibrium (2002) ou WALL-E (2008). E convoca uma série de mitos mais ou menos contemporâneos:

– A superação e a dominação do homem, aprendiz de feiticeiro (Goethe, 1797), pelas suas próprias obras, nomeadamente computadores e andróides;

– As máquinas assumem-se mais humanas do que os humanos, propiciando um espelho, mais ou menos deformado, da condição humana;

– Uma ovelha negra redentora galga fronteiras e vence obstáculos contribuindo para a emancipação, mais ou menos fugaz e inconsequente, dos oprimidos.

Marca:  Edeka. Título: Will we celebrate Christmas in 2117? Agência: Jung von Matt. Alemanha, Novembro 2017.

Transformação

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Multiplicam-se os anúncios com pessoas LGBT. O Paul’s Journey, da SJ Swedish Railways, é especial. Como diria Edgar Morin (1967, Commune en France, Paris, Fayard), é stendhaliano: tem o sentido do detalhe. Durante uma viagem de comboio, gesto a gesto, assiste-se a uma transformação da aparência identitária.

 

Marca: SJ Swedish Railways. Título: Paul’s Journey. Agência: TBWA Stokholm. Direcção: Anders Hallberg. Suécia, Março 2017.

Salvo pelos lobos

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Tendências do Imaginário deixou escapar este anúncio de Bruno Aveillan. Imperdoável. A fotografia e o ritmo de Bruno Aveillan desprendem uma aura quase sagrada. Neste It’s in our nature, da cadeia de hotéis Shangri-La, um jovem perde-se na neve. Exausto, adormece. Morte certa. Uma alcateia de lobos aproxima-se. O lobo é um animal temível, infernal. Mas as bocas devoradoras mantêm-se fechadas. Os lobos rodeiam o jovem formando uma espécie de abrigo contra a adversidade. Por entre tanta maldade mítica, o lobo esconde uma centelha de bondade. Lembra-se da loba de Rómulo e Remo? E de Mogli, a criança selvagem criada por uma alcateia de lobos? Existem muitas histórias semelhantes. Sobra um canto para os lobos nos nossos mitos de estimação. Os lobos compuseram um abrigo. Shangri-La é um abrigo, “pronto a receber um estranho como membro da casa”.

Marca: Shangri-La. Título: Wolves. Agência: Ogilvy & Mather Hong Kong. Direcção: Bruno Aveillan. Hong Kong, 2010.

O berço redescoberto

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Tempo cíclico. O regresso a um ponto de partida recomposto. O mesmo ou outro. Objectos e gestos. O barco é símbolo de travessia, de passagem para outro mundo, eventualmente o inferno, ou de renascimento, o berço redescoberto (Gaston Bachelard). Sabe bem chegar a casa e pôr os olhos a boiar no ecrã durante dois minutos, com direito a repetição.

Marca: Prudential PLC. Título: The Fishermen. Agência: Lowe Cape Town. Direcção: Kim Geldenhuis. África do Sul, Abril 2015.

Aventureiros do quotidiano

O anúncio The Wizard of Oz, da britânica Sustrans, não prima pela estética, pela imaginação ou pela emoção. Destaca-se pela causa e pelo texto. Quatro frases ocupam um terço, 23 segundos, do anúncio:

“The most important reason for going from one place to another, it’s to see what’s in between” (Norton Juster, Children’s Author).
There is no adventure without a journey.
Fewer children are walking and cycling to school than ever before.
Make our streets safer and give them back their in between.

Anunciante: Sustrans. Título: Wizard of Oz – Safe to School. Agência: Green.TV. UK, Setembro 2014.

O leque de sentenças é notável; e a ideia, perspicaz. A deslocação das crianças para a escola parece relevar cada vez mais do sacrifício e do desperdício. Importa abrir as portas à descoberta e à aventura. Transformar a passagem em travessia?

“A passagem presta-se a um andar que segue o caminho, balizado, previsível, seguro, com destino marcado; a travessia implica um andar que faz o caminho, errante, incerto, assumindo riscos, incluindo o de não chegar ao destino.” (Albertino Gonçalves, A Ponte e a Barca, in Pedro Costa, Reflectir a Barca do Imaginário Social, 2011

Sustrans.

Sustrans.

Não é, todavia, este o espírito do anúncio: passagem e travessia não só não se opõem como podem dar as mãos. Admite-se que “There is no adventure without a journey”, mas deseja-se que a journey seja uma aventura controlada, “in safer streets”. Trata-se, portanto, de uma soft adventure, tão odisseia ou travessia quanto as marchas e as pedaladas nas ciclovias urbanas.

“O carro tornou-se mais importante do que a estrada e a importância de mudar de lugar sobrepõe-se à experiência do caminho. Mesmo quando não há um meio de transporte envolvido, o percurso torna-se insignificante, o importante é percorrer a distância. Poucos exemplos serão melhores para expressar este fenómeno do que o jogging, em que a viagem se reduz ao simples deslocamento. O espaço em que decorre a corrida é irrelevante e se for possível abafá-lo com um iPod e auscultadores ainda melhor (João Gonçalves, Journey, 2014).

Assim se configura a aventura dos homens e das mulheres no século XXI: desportistas no sofá, mensageiros nas ciclovias, exploradores nos centros comerciais, gnus nas auto-estradas, navegadores por satélite e aventureiros nos trilhos urbanos.

Brincadeira à parte, a ideia merece atenção. O tempo que despendemos nas deslocações quotidianas é enorme. Parte das nossas vidas corre o risco de se reduzir ao vazio. Na prática, as deslocações rotineiras são menos vazias do que aparentam. Enchemo-las: sonhamos acordados, cuidamos de nós de outro modo e congeminamos uma infinidade de minudências… Tal como as aranhas de Francis Bacon tecem a teia com a própria substância, nós saturamos o vazio com os nossos próprios pensamentos e imagens. Os tempos vazios estão repletos de nós, das nossas coisas e das nossas vidas.

Vem a propósito a excelente dissertação de Heidi Rodrigues Martins, Tempos múltiplos, sobrepostos e segregados: Narrativas no Luxemburgo, do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, defendida em 2013, na Universidade do Minho. Aborda, precisamente, as deslocações entre a casa e o trabalho no Luxemburgo. Recomendo a consulta: http://repositorium.sdum.uminho.pt/xmlui/bitstream/handle/1822/28337/Heidi%20Rodrigues%20Martins.pdf?sequence=1.

Les aventuriers du quotidien é o título de um livro da socióloga Catherine Bidou (Paris, Presses Universitaires de France, 1984).

Reencontro

Estes anúncios da Twinings falam-nos do regresso a si. Mas este regresso não é uma peregrinação, antes uma errância; não segue um caminho, faz uma travessia. Sem lugar marcado. Até porque, pese o desenlace proposto, não existem almas gêmeas nem um verdadeiro eu algures à nossa espera. Condizente com esta ideia de travessia sem farol à vista resulta a escolha do ambiente: a névoa, num anúncio, o mar, no outro.

Marca: Twinings. Título: Hill. Agência: Smuggler Amy BBDO London. Direção: Psyop. UK, Março 2012.