Princípios e regras. As dobras da transgressão
“Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos.” (André Malraux, L’Espoir, 1ª ed. 1937)
“A liberdade consiste em poder escolher as suas cadeias”. Desde a adolescência que este pensamento me persegue. Habituei-me a atribuí-lo a André Malraux, mas não garanto. Jeanne Moreau sugere uma ideia semelhante: “A liberdade consiste no poder de escolher de quem se é escravo”.

Cedo me apressei a acrescentar um complemento: “Cada cadeia que se quebra é uma nova margem de liberdade que se conquista”, propícia a novas escolhas (A. Malraux também escreveu: “A liberdade pertence àqueles que a conquistam”). Juntas, as duas frases compõem um “paradoxo” de minha particular estimação.
André Malraux
O desafio das regras sempre foi uma tentação, mas em consonância com um fundo de princípios que permaneceu bastante estável ao longo da vida. Deparo, agora, com uma encruzilhada, senão um impasse. Nos últimos, e certamente nos próximos, tempos, quem mais pretende subverter as regras ameaça também os respetivos (meus) princípios. Não resulta, portanto, claro se se está a contribuir para abrir ou para fechar. Que fazer? Refrear a tentação de transgressão para salvaguardar o essencial, mais precisamente a possibilidade da diferença e da transgressão?
Voltar a escutar Breaking The Rules, de Jack Savoretti, inspirou, hoje, este devaneio. Insisto, logo existo. Acrescento a canção India Song, de Jeanne Moreau.
Desorientação
Os contrapoderes andam agitados, incisivos e imaginativos. Das pulgas fazem elefantes. Com a arte da comichão e do coçar.
Distinguem-se várias propensões, umas, por exemplo, apostadas na correção e no resgate, outras na transgressão e na renovação. Para onde oscilamos? Coexistindo, algumas tendência podem dominar as demais. A dominação torna-se hegemónica quando os dominados adotam a linguagem dos dominantes. Em que estado estamos? Enfim, poderão os contrapoderes aspirar à hegemonia?

Convido, a despropósito, ao confronto de algumas músicas de duas bandas britânicas com registos divergentes: energia, senão entusiasmo, dos Orchestral Manoeuvres In The Dark, dos anos 1980, e apelo, senão súplica, dos London Grammar, dos anos 2010.
Imagem: René Magritte. Reprodução proíbida. 1937
O beijo já não é o que era
O beijo deu azo a obras-primas, tais como o quadro de Gustav Klimt ou a escultura de Auguste Rodin. Existem, também, fotografias como o Baiser de l’ Hotel-de-Ville, de Robert Doisneau (1950), ou o beijo do V–J day in Times Square, de Alfred Eisenstadt (1945), com um marinheiro norte-americano a beijar uma enfermeira no termo da Segunda Guerra Mundial.
O beijo continua a estar no centro do anúncio de Jean Paul Gaultier. A intertextualidade é evidente. O beijo de Gaultier dialoga com todas estas artes de beijar, mormente com a fotografia de Eisenstadt. Cola-se à forma para mais profundamente a subverter. Porque é de uma inversão que se trata. No Beijo de Gaultier, é a mulher quem conduz. É ela quem domina, quem fica por cima. Entre o beijo de Eisenstadt e o beijo de Gaultier há uma troca simétrica de posições de género. Ao dia masculino da parada festiva sucede a noite feminina estremecida pelas luzes de néon e pelo ribombar do trovão. O Beijo de Gaultier opera uma transgressão. Mas convém ter cuidado com as transgressões. Com a febre que varre o mundo, ainda nos proíbem o beijo, este nosso pequeno luxo. Por causa da higiene, da saúde, do orçamento… Nada que já não aconteça nos universos assépticos da ficção científica!
Anunciante: Jean Paul Gautier – Parfum. Título: Femme et marin. Direção: Jean Baptiste Mondino. França, 1997.


