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Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.

Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.

Anna von Hausswolff. The Mysterious Vanishing of Electra. Dead Magic. 2018
Anna von Hausswolff – Deathbed. Ceremony, 2012
Anna von Hausswolff – Epitaph of Theodor. Ceremony, 2012

O medo dos palhaços e os dentes de lagarto

Argui, há seis meses, uma dissertação dedicada à figura do palhaço (ver https://tendimag.com/2023/02/25/esquilo-o-abutre-e-a-tartaruga/). Durante a prova não resisti a desconversar ressalvando que a figura do palhaço podia assumir significados negativos. Assim sucede quando afirmamos que determinado ato não passou de uma palhaçada ou uma dada pessoa se comportou como um palhaço.

Imagem: Pablo Picasso. Le Clown. 1962

Mas não era esta a negatividade que queria vincar. Aludia, principalmente, à associação da figura do palhaço ao medo e ao terror. Existe, inclusivamente, uma fobia aos palhaços conhecida como coulrofobia. Encontramos palhaços assustadores na literatura, no cinema, na publicidade… Recordo filmes como Palhaços Assassinos (1988) ou IT – A Coisa (2017); e deparo-me com o anúncio, estreado este mês, The Visitor, da Bell, inspiração imediata deste artigo.

Marca: Bell. Título: The Visitor. Agência: Leo Burnett (Toronto). Direção: Leigh Marling. Canadá, agosto 2023.

Mas o exemplo mais superlativo talvez continue a ser o anúncio Carousel , da Philips, de 2009.

Marca: Philips. Título: Carousel. Agência: Tribal DDB (Amsterdam). Direção: Adam Berg. Países Baixos, 2009

Enfim, parece que já não consigo inovar. Não há nada que escreva que já não tenha escrito antes. Redigi já lá vão sete anos, em 2016, o artigo O caso dos palhaços assustadores (https://tendimag.com/2016/11/06/o-caso-dos-palhacos-assustadores/). Não param de me revisitar este tipo de ecos. Nada de novo a toque de teclado! Estou obsoleto. O pouco convívio também contribui para esta calvície do intelecto. Sem a centelha dos outros, estrelinhas fulminantes num infinito de ideias geniais, sinto-me (narcisista?) como um lagarto que anda à roda, à roda, à roda, até abocanhar a própria cauda. Então, trinca, trinca, trinca, até lhe sobrarem apenas os dentes. Quem quer dentes de lagarto?

Embora o riso seja das atividades mais características e mais sociais do ser humano, surpreendo-me a rir sozinho, “com os meus botões”. Às vezes, acorda-se prazenteiro.

Avalanche de imagens

Netflix. Resident Evil, Official Trailer. 2022.

Estou a ver A Roda do Tempo. Queixo-me ao meu rapaz: tudo passa muito depressa. Estás desfasado. Agora não é como dantes! Parodia, em câmara lenta, as cenas do Tarkovsky, do Bergman, do Fellini, do Kurosawa, do Oliveira… Mas condescende: o primeiro episódio é o mais concentrado, inicialmente estava previsto ser desdobrado em dois. Resisto: o Senhor dos Anéis é lento! Repara, o conjunto dos livros da trilogia dos Senhores dos Anéis tem cerca de 1 230 páginas e os três filmes duram 12 horas; os 14 volumes da Roda do Tempo têm mais de 11 000 páginas e a primeira temporada dura pouco mais de 7 horas. Parece um cocktail [um shot?] de economia e estética. A juventude hoje sabe tudo!

Sinto-me ultrapassado. Estranho estas avalanches de imagens aceleradas, densas, acentuadas e cortadas. Opto por me refugiar na publicidade. Estava longe de suspeitar o que me aguardava. Nem me apetece comentar.

“For the launch of their new horror series Resident Evil this week, global streaming platform Netflix installed a terrifying live installation on the streets of Santa Monica. Created by US creative agency, Founders, part of By The Network, the activation takes place on one of Santa Monica’s busiest streets. Played out by an actor, a man infected with the T-Virus (the virus from the series) is imprisoned in a huge glass cage and over the space of four hours turns into a Zero (the frightening infected creatures from the series) before breaking free from the cage and chasing into the crowd, thirsty for blood. The TikTok film has already attracted over 15 million views, and counting” (https://www.adsofbrands.net/en/ads/netflix-resident-evil/14451).

Marca: Netflix / Resident Evil Season 1. Título: Man Infected with T-Virus | Pedestrians React. Agência: Founders, NY. Direção: DIGBY. Estados-Unidos, julho 2022.
Marca: Netflix. Título: Resident Evil | Official Trailer. Estados-Unidos, julho 2022.

Mudo para uma base de dados francesa. Espera-me uma declaração de amor pátrio precipitada num carrossel de imagens fugidias e músicas sincopadas. Tamanha velocidade ultrapassa-me!

Marca: Renault / Nouveau SUV Renault Austral. J’aime la France. Agência: Publicis Conseil. Direção: Maud Robaglia. França, março 2022.

Aflição fascinante

Nem sempre se recorre à doçura para cativar o guloso. Por vezes, o isco consiste no inverso: na acidez. É o caso dos anúncios It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff e Scary Fast. O primeiro denuncia o cúmulo, o extremo, da inconveniência associado à absorção alienante provocada pela exposição, quase hipnótica, ao canal de televisão TVZN. O segundo, uma paródia de um thriller de terror, introduz o potente e heroico todo-terreno Ford Raptor R que escapa ileso a uma série de ameaças e perigos diabólicos. Ambos aos anúncios resultam imediata e assumidamente desagradáveis. Esta opção não é novidade. Com receitas e doses apropriadas, a adversidade e a perversidade podem compensar.

Para aceder ao vídeo seguinte, carregar na imagem e ligar o som.

Marca: TVZN+. Título: It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff. Agência: Dentsu Creative ANZ (Aotearoa). Direção: Damien Shatford. Nova Zelândia, junho 2022.
Marca: Ford Raptor R. Título: Scary Fast. Agência: Wieden+Kennedy New York. Direção: Lauren Sick. Estados-Unidos, julho 2022.

Sem máscara

Máscara Reutilizável personalizada.

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.

O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.

Marca: One Medical. Título: You’re Freaking us out. Agência: Goodby Silverstein & Partners and barrettSF. Direcção: Jeff goodby & jamie Barrett. Estados-Unidos, Outubro 2020.

Terror na horta. O gato e os pepinos

Está fraca, este ano, a colheita de anúncios Halloween. Já os diospiros… Talvez não seja o o melhor momento para agitar o espantalho da morte. O anúncio Scaredy Cat, da Mars Temptations, é uma paródia. Um gato solitário persegue, impávido, uma bola de lã numa casa assombrada. O pior está para vir: os pepinos. Um anúncio com uma excelente animação.

Marca; Mars Temptations. Título: Scared Cat. Agência: adam&eveDDB London. Reino Unido, Outubro 2020.

Arrepio

O terror não assombra o Tendências do Imaginário. Convoca bastante a morte, mas pouco o medo. Nunca se sabe o que é fonte de terror. Depende da pessoa e dos seus fantasmas. Projectei numa aula o filme A Festa de Babette. Para treinar uma micro-sociologia da cultura e ilustrar como uma forma social, o banquete, pode transfigurar as pessoas. Uma aluna horrorizou-se com as imagens da confecção dos alimentos. O filme Brahms: The Boy II é um filme de terror que estreia no dia 21 de Fevereiro de 2020. Alguns episódios lembram o Exorcista. Segue o trailer, um produto da QUAD.

Brahms: The Boy II. Trailer. Produção: QUAD. Direcção: William Brent Bell. Janeiro 2020.

A vaidade dos mortos vivos

Se é sensível a imagens de horror, dispense. Não perde nada de essencial.

Chamé. The Walking Undead. 2019

Os anúncios têm as suas épocas. Se, na altura apropriada, alguns são estranhos esperados, fora de época são estranhos de estranhar. Encontrei o anúncio tailandês The Walking Undead, da Chamé, com o atraso de um mês. Foi publicado em Outubro, em plena febre do Halloween. Um grupo de mortos vivos persegue uma mulher por causa da beleza da sua pele. O assédio, que lembra o Thriller de Michael Jackson, termina com os mortos vivos a beber um sumo “milagroso” que os favorece fisicamente. Mesmo durante o Halloween, não é habitual uma marca apostar nos mortos vivos como embaixadores. Mas revela-se cada vez mais frequente o recurso ao grotesco para significar o bom, bem e o belo. A publicidade oriental tem sido pioneira nesta arte de baralhar “o sublime e o grotesco” (Victor Hugo).

A publicidade conhece variações sazonais. O que é próprio no Halloween, não o é no Natal, no Dia Internacional da Mulher ou no campeonato do mundo de futebol. Não mudam apenas os temas e as figuras: o Zombie, o Pai Natal, a mulher heroína e os divinos da bola. Muda, também, a moral, a forma e o modo. Se nos Santos, ou nos fiéis defuntos, se celebra a morte, no Natal celebra-se a vida. Não parece mas é uma grande diferença. Gostava que alguém abraçasse um projecto de dissertação no âmbito das variações sazonais da publicidade. Invocar a versatilidade humana, é um ato de fé; sondar as suas manifestações concretas, um ato de ciência.

Marca: Chamé. Título: The Walking Undead. Agência: GREYnJ United Bangkok: Direcção: Rong Soralamp. Tailândia, Outubro 2019.
Michael Jackson. Thriller. Thriller. 1982 (Official Video).

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.

Escorropichar

O anúncio Lost in the black forest, da McCafé, lembra-me a palavra escorropichar. Trata-se de uma paródia dos filmes e das séries de terror, devidamente compassada pelo escorropichar dos copos. Bebe-se, até à última gota do café, a náusea, o medo e o susto. Há anos dei o nome de “emoções confortáveis” a uma instalação. Neste anúncio, as emoções mostram-se desconfortáveis. Confortáveis/desconfortáveis. A vida não se pinta a preto e branco. O desconfortável e o estranho podem revelar-se compensadores. Pela excitação da pasmaceira. O nosso mundo é acelerado, coalhado, tribal! Mesmo assim, desejamos mais excitação e mais emoção. O preto deste anúncio pode tornar-se cinzento e até mais branco que o branco. O disgusto pode ser uma delícia.


Marca: McCafé. Título: Lost in the black forest. Agência:TBWA. Direcção: Hungry Beards. França, Dezembro 2018.