Uma formiga com uma dúzia de ovos numa ponte silenciosa


No dia 15 de dezembro, entre as 21 e as 23 horas, o Tendências do Imaginário “bateu um recorde”: o artigo Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia“ obteve 1 033 visualizações (correspondentes a mais de 500 visitantes) provenientes dos Estados Unidos, mormente nas cidades de Portland (931 visualizações) e Ashburn (45). Precise-se que, de um modo geral, dois terços (67,4%) das visualizações do blogue têm origem fora de Portugal. Algo como vibrações cosmopolitas pelas tímidas antenas de uma formiguinha eremita perdida na imensa selva digital.
Para assinalar o momento, um anúncio com “doze ovos”, realizado pelo criativo Michel Gondry para o iPhone 13 Pro, da Apple, e um vídeo musical com “o som do silêncio” e uma “ponte sobre água turbulenta” dos inesquecíveis Simon & Garfunkel (ao vivo, naturalmente).
Distâncias e proximidades
John Ferreira, amigo de adolescência, aficionado da guitarra e do piano, transformou o meu quarto e do Álvaro numa espécie de estúdio improvisado onde instalou uma coluna de som de cerca de um metro quadrado, encomendada à Sonolar. Entretanto, parti para França e ele para o Canadá, onde prosseguiu carreira como compositor, intérprete e produtor musical.
Acaba de publicar uma nova canção, Desired Fruit From Paradise, que, excetuando a letra, foi exclusivamente trabalhada por ele. Pertencem-lhe a composição, o arranjo, a generalidade da instrumentação e as vozes. Por uma vez, as guitarras elétricas cederam às acústicas. O resultado é uma melodia bem cadenciada e muito jovial, que cruza os dois lados do Atlântico. Com uma frescura, omnipresente no vídeo, a canção é dedicada a uma esposa. As mulheres são quem mais inspira poemas e canções. Creio, aliás. que não existe um equivalente masculino para a palavra musa. [Carregar na imagem seguinte para aceder ao videoclip].

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Tinha conversa agendada para antes da Semana Santa. Adiada para o dia 26 de abril (no Mosteiro de Tibães), ganhei uma folga que vou aproveitar para me divertir com inutilidades.
Com uma “velocidade de cruzeiro” que ultrapassa as quatro centenas diárias, as visualizações do Tendências do Imaginário dos últimos quatro dias, de 11 a 14 de março, proporcionam o seguinte gráfico confinado aos dez primeiros países.

Em português, o blogue “pesca” quase só em águas “latinas”, mormente lusófonas. O Brasil contribui com quase metade e Portugal perto de um terço. O desempenho do México é ocasional, completamente anómalo.

Na distribuição por cidades (e vilas), intriga a posição, não esporádica, de Carnaxide. Resulta tentador esboçar uma “análise ecológica”, que consiste em sondar a relação entre variáveis não diretamente mas mediante a respetiva distribuição no espaço. Com 25911 habitantes no censo de 2011, um sétimo de Braga, o que terá Carnaxide de especial? Porventura, a SIC. Surpreendo-me a conjeturar que o Tendências do Imaginário talvez interesse mais aos meios de comunicação social do que às universidades.
Enfim, de Braga e Guimarães provêm, respetivamente, 13 e 10 visualizações. “Santos da casa não fazem milagres” ou, mais prosaicamente, a proximidade satura ou, paradoxalmente, distancia? De qualquer modo, são valores pouco abonatórios.
Nova arte pós-moderna

A bricolagem caseira improvisada pode estar na origem de uma nova forma, imprevisível e efémera, de arte pós-moderna, eventualmente herdeira de um cruzamento de Magritte com Escher.
A criatividade não costuma ser um ato isolado. Quando deparo com algo que me surpreende, disponho-me a procurar mais, a desfiar o novelo. No que respeita à publicidade, sigo normalmente três fios: a marca, a agência e o diretor. Desta vez, começo a busca pelo próprio Tendências do Imaginário. Conta 4 314 artigos (posts) que contemplam muitas centenas de anúncios, por acréscimo filtrados pelo meu radar e pelo meu sistema de relevâncias. Convenha-se que este blogue, ativo desde 2011, se tornou um arquivo apreciável.
Descobri cinco anúncios criados pela agência Fahrenheit DDB Lima, entre os quais este Postmodern Homelistic Art. Três para marca Promart. Em suma, graças a uma memória preguiçosa, constato que não me surpreende apenas o novo mas também o repetido, aliás já retido.
Os demais quatro anúncios, apostados na ironia e na provocação, manifestam-se primorosamente concebidos e apresentados. Recomendo a visualização. Segue a indicação do título, da marca, do ano e do artigo/link em que está acessível.
- Peruvian Dream. Living in Peru. 2011. Inversão
- The Perfect Daughter. Promart. 2014. Iluminar o som
- Long Way. Promart Homecenter Teletón. 2017. Tragédia quotidiana
- The Antipink Pint. Barbarian. 2017. A cerveja, o copo e o macho
Os avatares do Tendências do Imaginário

“Car je est un autre” (Arthur Rimbaud, carta a Paul Demeny datada de 15 de maio de 1871).
Tenho três avatares: o Dionísio, o mais trágico e cínico; o Porfírio, o mais prometeico e entusiasta; e o Amâncio, o mais poético e sensível. Cada um é responsável pelo que assina e todos me fazem companhia. Seguem três exemplos de assinaturas:
– Uma máxima do Dionísio:
“Nunca desvalorizar os seres humanos, mas descrer sempre deles”.
– Um anúncio que convence o Porfírio:
– E um vídeo musical que comove o Amâncio:
O Tendências do Imaginário face ao confinamento

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.
Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.
Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.
O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.
A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).
Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.
Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).
Um milhão de visualizações
As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade, a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.
Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267. Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.
Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.
Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.
900 000 visualizações
O blogue Tendências do Imaginário ultrapassou 900 000 visualizações, 282 000 visitas e 3 040 artigos. A distribuição das visualizações por países pouco se alterou ao longo dos anos. O gráfico 1 contempla o conjunto das visualizações, desde o início em 2011 (carregar nos gráficos para aumentar a imagem).

Quatro países (Brasil, 38%; Portugal, 23,9%; Estados-Unidos, 8,5%; e Espanha, 7,5%) somam perto de quatro quintos (77,9%) das visualizações. Não obstante, o Tendências do Imaginário é um blogue global. O mapa 1 ilustra a cobertura ao nível do planeta. Pela perspectiva, pelo conteúdo e pelo estilo, o Tendências do Imaginário é um blogue internacional. Podia estar sediado em Austin, Antuérpia ou Seul que pouco ou nada, de fundo, se alteraria. Mas está escrito em português.

O gráfico 2 destaca os dez artigos mais visualizados.

O blogue assenta-me bem. Prefiro a criação solitária e sou viciado em jogos de letras. Mas afasta-me dos outros, dos colegas, do convívio e do progresso colectivos. Torno-me mais hermético do que um eremita.
A principal falha reside na publicação de artigos em revistas nacionais e internacionais. O blogue não é complementar mas concorrente. Opto por escrever e editar no blogue. Detesto pedir. A auto-proposta ou a resposta a chamadas é, no meu sentimento, andar com o texto numa bandeja. Um artigo do blogue com 2 154 consultas alcança um valor razoável. Persiste o prejuízo profissional: não dá para registar pontos na caderneta da carreira. Para o Homo Academicus, um artigo não vale pelo seu conteúdo mas pelo livro ou pela revista onde se insere. Continuo a publicar artigos em livros e revistas, sempre que sou convidado. Admito que esta atitude enferma de romantismo anarquista, senão reaccionário. Os outros, amigos e colegas, tendem a ser diferentes, têm direito a ser diferentes. Para minha penitência.
O Tendências do Imaginário pede tempo, requer atenção e exige dedicação. Mas dá prazer. Obrigado pela tua visita! “Amigo maior que o pensamento”, “Traz outro amigo também”, sabendo que o “vento nos leva”.
1 696 382 páginas na Internet
Por curiosidade, quis saber a posição do Tendências do Imaginário no conjunto das páginas da Internet a nível mundial. A resposta foi dececionante: 1 696 382 (ver https://www.alexa.com/siteinfo/tendimag.com?fbclid=IwAR1EMaB07JsP_InJ1CkicsTzBW7q-1jMcJtkoFtZQ7T3lCZwY2cazEC8BSs).

Quem conheça a estatística sabe que os resultados têm uma língua bífida. Dizem que sim, dizem que não e, caso necessário, dizem ambas as coisas.
Quantas páginas existem na Internet? 5,78 mil mihões (5 780 000 000; ver https://www.worldwidewebsize.com/).
Dividindo a posição no “ranking” (1 696 382) pelo número global de páginas (5 780000000), obtém-se o seguinte resultado: 0,0002935.
Conclusão: em cada 10 000 páginas, 3 estão mais cotadas do que o Tendências do Imaginário; e 9 997, menos.
Atendendo a que estão incluídas as páginas governamentais, não-governamentais, empresariais, comerciais, académicas, culturais, lúdicas, a posição podia ser pior! Sobretudo, porque o Tendências do Imaginário não faz publicidade, não tem alavancas e a interacção com os seguidores e os comentadores é quase inexistente. Em suma, a gestão da página carece ser melhorada.
À maneira de Diógenes. Os sopradores de lâmpadas.
O anúncio Indestructible, da Organisation Internationale de la Francophonie , é optimista. A ideia, por mais que a castiguem, nunca se apaga. Sou menos optimista. As ideias, as boas ideias, não têm a vida fácil. Como os cavalos, também se abatem. Inclino-me para um optimismo moderado: uma ideia bem pensada, embora abafada no presente, voltará a ser pensada no futuro.
A autoria e a propriedade intelectual fazem parte da retórica da Internet. No início de Outubro, milhares de artigos foram removidos da minha página do Facebook acusando-a de spam, a “coisa” (1982), de John Carpenter, na Internet. Assegurei que não havia spam; pediram-me para aguardar. Até agora, nenhuma mensagem. Será esta a versão digital do diálogo? Entretanto, a autoria e a propriedade intelectual dormem nas urtigas. Este processo é semelhante a um auto da fé.
Não consigo colocar links do Tendências do Imaginário na minha página do Facebook. Nem eu nem ninguém. Uma mensagem automática alerta que o site Tendências do Imaginário é perigoso. O Tendências do Imaginário não é nenhum Moriarty. Contém, é verdade, pensamentos críticos e, eventualmente, polémicos. É um blogue incómodo. É a sua vocação. Com os pés em Braga e a cabeça no mundo, não poupa nenhuma instituição, grande ou pequena, branca ou preta. O Tendências do Imaginário preza o comentário desinibido, apanágio de um pensador livre. O boicote à partilha configura uma censura.
À medida que o Tendências do Imaginário crescia, cresceu o meu receio por este tipo de percalços. Passo muitas horas no computador, mas não vejo o mundo pelo ecrã.
Termino com uma história de Diógenes. Quando alguém lhe lembrou que o povo de Sinopse o condenara ao exílio, ele retorquiu: “E eu condenei-os a permanecer em casa”.
Marca: Organisation Internationale de la Francophonie. Agência : TBWA Paris. Direcção : Vincent Gibaud. França, Outubro 2018.



