Sublunar

A sueca Karin Dreijer Andersson é a vocalista do duo de música eletrônica The Knife, que inclui o irmão Olof Dreijer. Com o pseudônimo Fever Ray na carreira solo, seu estilo vocal é notável pela voz aguda e profunda, tons distorcidos e uso de pitch-shifting. A sua imagem de artista inclui máscaras e outros elementos teatrais (Fonte: wikipedia).
Entre abismos terrenos e crateras lunares, Fever Ray aventura-se por horizontes fantasmagóricos e perturbadores, mas absorventes. [Texto pequeno que não diz nada, a não ser que gosto. Começo, finalmente, a aprender a arte do comentário].
Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.
Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.
Muito querido sono
Quando escrevi o artigo com as fotografias da Almerinda Van Der Giezen, escolhi uma música para as acompanhar. Tarefa nada fácil. Com a pressa, esqueci-me de a colocar. Segue agora, fora de contexto. De qualquer modo, Dear Sleep, do sueco Johannes Bornlöf, vale por si mesma.
A música soturna de Anna von Hausswolff

Na mitologia grega, Electra induziu o seu irmão Orestes a assassinar a sua mãe Climnestra para vingar a morte do seu pai Agamémnon por esta arquitetada. Carl Gustav Jung propôs a noção de complexo de Electra como contrapartida do complexo de Édipo.
Partilhada pelo meu primo Bruno, a primeira música que ouvi hoje foi “‘The Mysterious Vanishing of Electra”, interpretada pela sueca Anna von Hausswolff, cantora já contemplada neste blogue (https://tendimag.com/2012/11/09/anna-von-hausswolff/). Adicionei duas músicas para aprofundar o impacto: “Liturgy of Light” e “Funeral for My Future Children”. Uma maneira bastante lúgubre de começar o dia. Quer-me parecer que o ambiente acústico só poderá melhorar.
Motivem-se uns aos outros

Lunar é uma instituição/aplicação financeira que se propõe aumentar o rendimento dos clientes sem prescindir do antigo banco. Como motivação, o anúncio Your Other Bank recorre a uma sequência excitante de uma relação heterossexual, combustível que já conheceu melhores dias na publicidade. A geometria sexual complica-se com a alusão ao “bánkage à trois” no lema e na letra da canção do belga Plastic Bertrand: o cliente, o novo e o antigo banco. Importa ser criativo para seduzir o consumidor! A motivação ergue-se como palavra-chave da transição de milénio. É tão miraculosa que faz andar os cegos e ver os coxos. Uma alavanca do corpo e da alma. Sem motivação, nada, nem sequer um piscar-de-olho! Os casais carecem um do outro rumo à boda de prata, os idosos, para envelhecer, as crianças, para brincar, os operários, para trabalhar… No ensino à distância, os alunos precisam de motivação. Os pais, seguidores domésticos das aulas dos filhos, diagnosticam: “o professor não presta nenhuma atenção ao meu Filipe”; e “à minha filha Susana só pergunta o que ela não sabe”. Um vórtice de desmotivação.
Uma pausa para desconversar. A noção de motivação aqui utilizada é, naturalmente, parcial. Cinge-se a uma ação externa, de fora para dentro, como a conversão de São Paulo. A pessoa resume-se a uma espécie de “tábua rasa” onde caem pingos coloridos que esboçam retratos impressionistas. Para motivar os alunos na escola têm que se saber aquilo que os move. A noção vulgar de motivação tende a equacionar as pessoas como seres hétero-determinados, carentes de autonomia, responsabilidade, iniciativa, vontade e vocação.
Esperança e resignação

Gosto do anúncio Hope is Power, do The Guardian. Uma alegoria bem lapidada. Dispersão ao mínimo e saturação ao máximo: a aflição de uma borboleta fechada dentro de casa, que não baixa as asas. E o vidro quebra-se, num instante milagroso de libertação. Um anúncio sem palavras (as borboletas não falam), excepto o laconismo das duas frases escritas no final do anúncio: Change is possible; Hope is power. Neste tipo de anúncio, a banda sonora é crucial. Revela-se uma excelente escolha a música, despojada, Nothing Changes, de Anaïs Michell, do álbum Hadestown (2010). A duração da canção (0:51) “combina” com a duração do anúncio (1:00).
O anúncio Hope is Power lembra o anúncio Release Me (2007), da Saab. Vitalista e mais turbulento, Release Me versa sobre os mesmos tópicos: o encarceramento e a vontade de libertação. Retomo-o.
Vontade de sentir
Rema que não rema, a cabeça afasta-se do arquipélago do pensamento. Perde-se num rodopio de sensações. Max Weber disse realmente o que disse? A cabeça dá voltas e o barco mete água. Um náufrago da razão tem urgência em se agarrar aos sentidos. Se o Max Weber disse o que realmente disse isso é questão, uma questão de muita sabedoria.
Hoje, ouvi Lisa Ekdahl. Após vinte anos de jejum! Nos álbuns mais recentes, a maior parte das canções são em sueco. Acabei por me decidir pelas canções Crazy in Love, do álbum Så mycket bättre – Tolkningarna (2016) e, bastante mais antiga, Nature Boy, do álbum Back to Earth (1998).
Lisa Ekdahl. Nature Boy. Back to Earth (1998).
Lisa Ekdahl. Crazy in Love. Så mycket bättre – Tolkningarna. 2016.
A indiferença
“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão” (Anatole France , 1894, Le Lys Rouge).
“A sociedade da prosperidade, aquela que pretende o ser próspero, odeia todos aqueles que não alcançam aquilo que ela institui. O indivíduo desfavorecido é pois julgado e responsabilizado pela coletividade por não ter alcançado melhor lugar no seu seio.
Da mesma maneira em que a sociedade da informação penaliza o indivíduo desinformado; da mesma maneira que a sociedade tecnológica penaliza o indivíduo desprovido de técnica; da mesma maneira que a sociedade politizada penaliza o indivíduo desprovido de polítiquice.
Todos os dias se pode observar como o ricaço escorraça o mendigo com cólera…” (Georg Simmel, através de Pedro Costa).
O diferente é igual? Devemos amar os outros como a nós mesmos ou amar os outros como outros? Pode a igualdade abraçar a diferença sem a apagar? És tão igual quanto prevê a lei? E tão único quanto o teu cartão de cidadão? A expansão da mesmidade aproxima-nos da nulidade, de um deserto em que somos areia. No Make Room, do Swedish Public Employment Service, vale o anúncio, vale a causa e vale a música (de John Lennon). Na canção L’Indifférence, de Gilbert Bécaud, vale o talento e a poesia. Vale a sabedoria: “a indiferença destrói o mundo”.
Anunciante: Swedish Public Employment Service. Título: Make Room. Agência: Le bureau Stocholm. Direcção: Bjorn Stein. Suécia, Março 2018.
Gilbert Bécaud. L’Indifférence. 1977.
Gilbert Bécaud. L’Indifférence.
Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c’est
L’indifférence
Elle a rompu et corrompu
Même l’enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l’a vu
L’indifférence
L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Chez toi tu n’es qu’un inconnu
L’indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L’indifférence
Tes vieux n’écoutent même plus
Quand tu leur causes
Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu’elle se dit
L’indifférence
L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Tu es cocu et tu t’en fous
L’indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L’indifférence
Y a plus de haine, y a plus d’amour
Y a plus grand-chose
L’indifférence
Avant qu’on en soit tous crevés
D’indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L’indifférence
Qu’elle serait belle écartelée
L’indifférence
O voo dos sentidos
Edward T. Hall escreve em 1966 que, na nossa civilização, as pessoas estão a perder faculdades sensitivas, nomeadamente, ao nível do tacto e do olfacto: algo como uma anestesia ou um entorpecimento sensorial (A Dimensão Oculta, Lisboa, Relógio d’Água, 1986). Desodorizamo-nos e desodorizamos o mundo; almofadamos e alisamos as superfícies; um bom automóvel amortece o piso… Edward T. Hall estava, porém, longe de imaginar que uma companhia aérea, a Turkish Airlines, resgataria os cinco sentidos.
Marca: Turkish Airlines. Título: 5 senses With Dr. Oz. Direcção: Martin Aamund. Internacional, Fevereiro 2018.
Como a conversa foi curta, acrescento a canção Thinking of you de Elias, um sueco a seguir. Entretanto, lembrei-me do Antony.
Elias. Thinking of you. 2017.
Antony and The Johnsons. Fistful of love. I am a bird now. 2005.



