Solidão na velhice

Eric Lacombe. Shades of Melancholy.
As pessoas de idade que vivem sós constam entre as categorias sociais mais vulneráveis. Carecem cuidado, no sentido de atenção e apoio. O seu número aumenta a um ritmo exponencial. Vai ser defendida, em breve, na Universidade do Minho uma dissertação de doutoramento em Sociologia dedicada, precisamente, ao “impacto das redes sociais na Qualidade de Vida dos indivíduos com 50 e mais anos que residem sós em Portugal: um estudo no âmbito do projeto SHARE”. Não é, porém, esta dissertação que justifica este artigo, mas o falso anúncio Without You, para a Tupperware.
Não há categoria social imune à publicidade. Um homem de idade que perdeu a companheira vive só, diminuído por algumas incapacidades e rodeado por “fantasmas” do passado, tais como a correspondência, os chinelos ou o avental. Resgata-o uma aparição luminosa: o Tupperware, uma ponte no tempo, que, como um psicopompo, liga o aqui e o além, o agora e o outrora. Talvez não salve a alma, mas reconforta o corpo e a mente.
Proporciona-se, ou talvez não, ouvir a canção Mr. Lonely (1964), de Bobby Vinton, um dos intérpretes de Blue Velvet (1963).
Marca: Academy of Media Arts Cologne / Tupperware. Título: Without You. Direcção: Fabian Epe. Alemanha, Março 2018.
Bobby Vinton. Mr. Lonely. Roses are red. 1964.
Bobby Vinton. Blue Velvet. Blue on Blue. 1963.
O Natal dos Velhos
Argui, recentemente, uma dissertação que, embalada pelos ventos do envelhecimento activo, vislumbra formas prodigiosas de ocupação dos tempos livres “seniores”. Tamanho entusiasmo filantropo parece esquecer que o principal hóspede dos tempos livres dos idosos é a solidão; a principal sensação, a separação; o principal sentimento, o tédio; e a principal tendência, a depressão. A companhia é uma prenda bonita para oferecer aos idosos. Importa não toldar esta realidade com ideologias tecno-messiânicas. Importa agir, mas agir apropriadamente junto de pessoas concretas. É verdade que encontramos idosos em universidades, ginásios e empresas. Mas as árvores não devem esconder a floresta.

Bill Viola. Howard. 2008. Leila Heller Gallery.
Há algumas décadas, participei num programa semanal de rádio chamado Quarto por Quarto, na Antena Minho. Com o Abílio Vilaça, o Carlos Aguiar Gomes e a Teresa Lobato, e moderação de Pedro Costa. Fizemos uma emissão na própria noite de Natal. E a conversa derivou para as franjas, para as pessoas que não são iluminadas pela estrela dos Reis Magos. Havia cafés, poucos, muito poucos, abertos até mais tarde, onde acorriam alguns órfãos do Pai Natal. O café era a cabana, sem vaca nem burro. Mas quem não tem Natal sempre pode imaginá-lo, como o mendigo de Miguel Torga: da capela fez abrigo e dos santos, companheiros.
O anúncio Just another day, da Age UK, fala-nos de idosos solitários cujo Natal é nenhum dia. Tem o mérito de falar da solidão e da invisibilidade urbanas. Corre, no entanto, o risco de prestar-se a alguma confusão: o conto não é só do Natal, é de todos os santos dias. O que faz falta, por esse país fora, é promover o calor da companhia aos idosos que vivem sós. Os centros de dia ajudam, mas não chegam. É preciso mais e, também, de outro modo. Sublinhe-se que para muitos idosos a chegada do apoio domiciliário representa o único momento solar da jornada. Urge enfrentar o problema da solidão, do isolamento e da síndrome da separação dos idosos. Não faltará espaço para a activação dos corpos e das almas, nem para a implementação dos dispositivos do envelhecimento activo. De qualquer modo, convém não esquecer que, em cerca de 50 anos, passamos de uma sociedade em que havia pouco tempo para ser velho para uma sociedade em que se é velho muito tempo. “Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos” (https://tendimag.com/2017/11/07/filhos-da-madrugada/).
Marca: Age UK. Título: Just another day. Agência: Drum London. Reino Unido, Dezembro 2017.
Perdido

The Moody Blues
Conhece uma ilha de sonho? Esta é mais fantástica! Umas férias do outro mundo. Só, com a sua sombra! Sem que ninguém se aperceba. Mar, praia, palmeiras, caranguejos, coelhos… Tudo gratuito, ao seu alcance por um gesto: mandar o telemóvel às urtigas! Não é bem esta a mensagem do anúncio nigeriano Lost, da Airtel. Sem telemóvel, um indígena do século XXI não é nada. Um Robinson Crusoe descompensado. E a festa ali tão perto! Não vá o diabo tecê-las, acrescento uma canção dos Moody Blues para, caso disso, ouvir na ilha.
The Moody Blues. Lost in a lost world. Seventh Sojourn. 1972
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Marca: Airtel. Título: Lost. Agência: Noha’s Ark Lagos Nigeria. Direcção: Bruce Paynter. Nigéria, Novembro 2016.
A solidão como companheira
Georges Moustaki. Ma Solitude. Le Métèque. 1969.
“Não, nunca estou só com a minha solidão”. Sou mais prosaico do que o Georges Moustaki: gosto de estar só, mas não gosto de me sentir só. A solidão existe. A solidão das margens e a solidão na multidão. A solidão de quem se perdeu no mundo ou no mundo perdeu a mão de Deus. Existe, também, a solidão de quem não suporta a sua própria companhia. Nos anúncios Boarding e The Box, não se fala da mesma solidão. Uma é desejada e a outra imposta. Em contrapartida, no extremo oposto, aquele que anda sempre acompanhado não tem folga para pensar ou pensa, então, em equipa.
Marca: Air France. Título: Boarding. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção: Hou Hsiao Hsein. França, 2006.
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Anunciante: Anti Exclusion. Título: The Box. Agência: McCann Erickson. Direcção: Joris Bergsma. Holanda, 1996. Imagem: Digital Art by A. Meyer.
Só a morte nos reúne
“Só a morte nos reúne” podia ser refrão de uma dança macabra medieval. Mas não! É atual. Só a morte nos reúne quando a vida nos separa. Com ou sem compressão do espaço e do tempo. Com ou sem comunicação multimédia. Com ou sem próteses. Com ou sem liquidez. Com ou sem hiper realidade. Com ou sem tribos. O mundo da vida, o mundo de cada um, não se encolheu, aumentou. E nós perdemo-nos nele! Neste tempo de laços, afectos, sentimentos e emoções, “só a morte nos reúne” é um aforismo do misto de desencontro e urgência que preside ao nosso modo de estar na vida.
Este anúncio veio do Dakar. Um abraço, Meco!
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.
Morte social
“Nunca estou só com a minha solidão” (Georges Moustaki, La Solitude, 1971).
Este anúncio é poesia com imagens. Há séculos que se faz poesia com imagens. Agora, também.
A solidão pode aproximar-se da morte social (Louis-Vincent Thomas, Anthopologie de la mort, 1975).
Perdura, é verdade, a vida biológica, mas afrouxam-se os laços sociais e o sentido da vida. O mundo perde calor.
Marca: Les petits frères des pauvres. Título: Poisson d’Avril. Agência Euro RSCG. Direcção: Christelle D’Aulnat. França, 2001.
A amizade
Um amigo enviou-me este anúncio da Super Bock. Imagens, texto e voz magníficos, dedicados à amizade, uma graça que não se decreta. Os sentimentos e as emoções constituem o último reduto da nossa pessoalidade e liberdade. Mas não escapam ao controlo médico, psicológico, judicial e político. Nada parece escapar ao poder! Nem sequer um abraço, um desejo, um sorriso ou uma lágrima. Tantos são os meios, os motivos e os peritos.
Marca: Super Bock. Título: O que se Passa com a Amizade? Agência: Havas Worldwide / O Escritório. Portugal, Abril 2015.
O telemóvel mágico. Novo conto de Natal
Em La Mentalité Primitive (1922), obra polémica de Lucien Lévy-Bruhl, colaborador de Émile Durkheim, a mentalidade primitiva é definida como vincadamente pré-lógica. No pensamento pré-lógico não prevalece o princípio da não contradição: “uma pessoa pode ser simultaneamente si mesma e uma outra, estar aqui e além, ser ao mesmo tempo o antecedente e o consequente, e o determinismo dos fenómenos da natureza é substituído pela participação mística ou mágica” (Mucchielli, Roger & Mucchielli-Bourcier, Arlette, 1969, Lexique des sciences sociales, Paris, Éditions sociales françaises). As noções de mentalidade primitiva e de pensamento pré-lógico foram severamente criticadas. O próprio Lucien Lévy-Bruhl assumiu, passadas algumas décadas, uma revisão: “Corrija-se expressamente o que acreditava exato em 1910: não há uma mentalidade primitiva que se distingue da outra por duas características que lhe são próprias (mística e pré-lógica). Há uma mentalidade mística mais acentuada e mais facilmente observável nos “primitivos” do que nas nossas sociedades, mas presente em todo o espírito humano” (Lévy-Bruhl, Lucien, 1949, Carnets, Paris, Presses Universitaires de France, 1949).
Registo a correção, mas resisto a acreditar que o homem contemporâneo seja somenos místico ou mágico ou abrace com força o princípio de não contradição. Convencem-me mais Vilfredo Pareto e alguns teóricos da pós-modernidade, a começar por Michel Maffesoli e pelo meu colega Jean-Martin Rabot, que tanto insistem na ideia de um “reencantamento do mundo”. A nossa relação ao mundo da vida é mais mística e mais mágica do que nos apressamos a admitir. Até um objeto técnico como o telemóvel se dá ares de objeto mágico, principalmente nesta quadra de fé em Deus e de fé nos homens. Atente-se neste anúncio da Claro, uma empresa operadora de telefonia móbil da América Latina.
As separações são dolorosas. Deixam marcas que não se apagam. O que vale é o telemóvel, a fita-cola mágica das relações interpessoais.
Marca: Claro. Título: Qué le dirías? Agência: Ogilvy & Mather Costa Rica. Direcção: Jesus Revuelta. Costa Rica, Dezembro 2014.
Todo o mundo à porta; ninguém à janela.
Passa tanta gente à minha porta. E a solidão cá dentro.

Bodypainting. http://www.xn--srandiky-pbb.com/image/181-image-1.jpg
A canção francesa, em tempos universal, está em vias de relocalização. Regressa às caves do Boulevard Saint Germain. Entretanto, uma língua e três ou quatro culturas particulares universalizam-se. O resto relocaliza-se, inventaria-se, resiste ou desiste. Hoje, (re)produz-se à moda dos coelhos: vai ser tão bom, não foi? Com tamanha velocidade não há lugar para a solidão. Não? E, contudo… Nos resíduos dos quatro cantos, toca o sino de Wall Street. Sempre há quem se pendure nas calças dos gigantes; e os abutres indígenas, omnívoros, atiram-se a qualquer porcaria com molho de cifrão. A solidão acompanha a dança; faça-se de conta que não é connosco.
O tema da solidão é caro à canção francesa. Escute-se, por exemplo, Georges Moustaki e Léo Ferré.
Georges Moustaki. Ma Solitude. 1969
Léo Ferré. La Solitude. 1971.






