Tag Archive | Sincronização

A pomba, o menino e a cruz

Anónimo (França ou Flandes). Anunciação. 1380. Museu Nacional de Varósvia

Ao analisar imagens com a Anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem, deparei com um pormenor curioso numa pintura do Museu Nacional de Varsóvia: a pomba não só toca o corpo de Maria, como vem acompanhada por Jesus bebé, nu e a carregar uma cruz. Além da fecundação por obra e graça do Espírito Santo, este detalhe prefigura a incarnação e a crucificação, portanto, o início e o fim do divino feito homem. Uma sincronização engenhosa!

Wilhelm Kalteysen. A Anúnciação. Do Tríptico da Crucificação do cônego Peter von Wartenberg. Museu Nacional de Varsóvia.1468

Uma vez advertido, detetei meia dezena de pinturas em que este detalhe se repete, ora quase impercetivelmente, como na Anunciação do Tríptico da Crucificação do cónego Peter von Wartenberg, ora tão ostensivamente, como na Anunciação do Museu Nacional Suíço, que tive, paradoxalmente, alguma dificuldade em identificar.

Imagem: Anunciação a Maria. Painel do interior do altar. Ca. 1470. Museu Nacional Suíço, Zurique

Para concluir, um regresso à música com um excerto do Inverno, das Quatro Estações do Vivaldi, interpretado por Nigel Kennedy. Com a vista cansada, preciso jejuar da escrita e da análise de imagens.

The Four Seasons, Violin Concerto in F Minor, Op. 8 No. 4, RV 297 “Winter”: II. Largo · Nigel Kennedy.

“E esta, hein?” Arte com drones

De Seul, na Coreia do Sul, os meus rapazes enviaram-me estes dois pequenos vídeos. Primeiro, pensei que era uma nova espécie de holograma. Mas não! Geram este efeito espantoso com drones mais que sincronizados. “E esta, hein?”

Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Carro. Filmado por Fernando Gonçalves
Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Tigre. Filmado por Fernando Gonçalves

O Muito Povo

“Não são, portanto, os próprios factos que tocam a imaginação popular, mas, antes, a maneira como eles são organizados e apresentados. É necessário que através da sua condensação, se assim me posso exprimir, eles produzam uma imagem atraente que preencha e obceque o espírito. Quem conhece a arte de impressionar a imaginação das multidões conhece também a arte de as governar” (Gustave Le Bon, Psychologie des foules, 1895).

Estou farto de pensar! Incomodo os neurónios para nada. Prefiro a música. Fecunda o cérebro e estremece o corpo. Observaram a multidão do memorável concerto dos R.E.M. (ver vídeo 1)? Um exagero de gente excitada. Massa a vapor. Pronta para o impulso, para a mobilização. Fico sempre dividido quando deparo com uma multidão: maravilha ou monstro, Bela ou Besta, Gandhi ou Lynch? As coreografias e os ecos são recorrentes nos concertos de música rock, mas não só. Fascina-me a sincronização colectiva. Como é possível tanta emoção ordenada, tanta gente a funcionar como uma única pessoa? Uma multidão, ao mesmo tempo alinhada e inflamada, intimida. A engrenagem do “muito povo” não é espontânea, carece aquecimento e orientação. A minha relação com a multidão sofre de um trauma que me tolda a lucidez: a multidão em transe, pela paz ou pela guerra, lembra-me, obtusamente, o filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl (vídeos 2 e 3). E, no entanto, não há nada mais humano do que a turbulência de um oceano de gente deslumbrada.

R.E.M. Everybody Hearts. Automatic for the people. 1992. Ao vivo: Live 8 – 2005.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.