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OVMI revisitado

Tintinábulo. Roma..

Tintinábulo. Roma.

Uma equipa de investigação unipessoal associada ao blogue Coisas do Arco da Velha resolveu o enigma do OVMI (Objecto Voador Mal Identificado) apresentado, anteriormente, no blogue Tendências do Imaginário: http://tendimag.com/2014/01/21/ovmi-objecto-voador-mal-identificado/. A solução proposta pode ser consultada no blogue Coisas do Arco da Velha. Para acede,r carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://culturamusica.wordpress.com/2014/02/01/a-revelacao-do-ovmi/.

OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)

À memória de Raphael Pividal

Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.

“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280).  Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão.  Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão. Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.

Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar o homem e a mulher a cavalgar um peixe voador.

Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.

O olhar e a identidade

O camaleonismo identitário é uma tentação para a publicidade. Mas este anúncio encerra alguma originalidade: assume que a diferença (ou a parecença) reside menos nas qualidades do identificado e mais no olhar de quem identifica. “Quem classifica, classifica-se” (Gonçalves, Albertino, 1996, Imagens e clivagens, Porto, Afrontamento). Este anúncio tem o selo da Argentina e, sobretudo, de Augusto Gimenez Zapiola, seu diretor. Para ilustrar esta afirmação, retomo dois anúncios argentinos dirigidos por Augusto Gimenez Zapiola, também eles centrados na importância do corpo e da comunicação não verbal na interacção humana.

Anunciante: DIRECT TV. Título: Look Alikes. Agência: Young & Rubicam, Buenos Aires. Direção: Augusto Gimenez Zapiola. Argentina, Maio 2012.

Marca: Sol. Título: Pep Talk. Agência: DDB Argentina. Direção: Augusto Gimenez Zapiola , Argentina, Março 2009

Produto: H2oh! Drink. Título: Braids. Agência: BBDO Argentina. Direção: Augusto Gimenez Zapiola. Argentina, Junho 2011.

Wonderbra: a invisibilidade táctil

Valha-nos a publicidade! É um dos redutos do humor e da imaginação. A Wonderbra desencantou um motivo, a opulência das “formas”, e explora-o de um modo recorrente, desinibido e engraçado. Neste outdoor, de 2007, as “formas” vão além daquilo que se vê…

A mulher, o homem e o objecto

A figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários. Esvazia-se, assim, uma relação pavloviana que remonta, pelo menos, às origens da reprodução técnica da imagem. Esvaziamento por desgaste, mas também por censura, como é o caso da campanha brasileira em curso, “Hope: lessons”, com a modelo Gisele Bündchen.

Em contrapartida, o homem surge cada vez mais na publicidade a exibir os seus atributos corporais. Os anúncios com homens objecto são tantos que se torna difícil seleccionar exemplos. Assinale-se, como quem murmura, as marcas Nespresso e Axe. Mas o lado predador masculino não desaparece, apenas se dobra: o homem tornou-se num caçador caçado. Os homens atraentes dos anúncios Axe resumem-se a presas expostas a predadoras persistentes, sejam elas anjos ou demónios. Esta caricatura do homem não é exclusiva do ecrã, multiplica-se na experiência quotidiana onde se alteraram as regras de conveniência, os padrões estéticos, as apetências dos consumidores e as relações de género. Acresce que os movimentos masculinistas, sem lustro, nem eficácia, acabam por descuidar a denúncia dos abusos (da imagem do homem) às altas autoridades da publicidade. Fazem mal! Porque proibir é uma forma de dissuadir.

Focalizar o olhar na mulher objecto e no homem objecto comporta o risco de se passar ao lado da realidade emergente. Para além da crescente eufemização, o homem objecto e a mulher objecto têm vindo a ser substituídos por objectos “humanos”. Os homem objecto rivaliza com os objectos humanizados, que, à semelhança da mercadoria de Karl Marx, rodopiam incorporando propriedades humanas. São agora os objectos que, de algum modo, nos fazem salivar. Neste contexto, o conceito de reificação de Karl Marx e Georg Lukacs nunca foi tão actual e tão esquecido.

Estes três anúncios inserem-se neste deslize do humano objecto para o objecto humano. O anúncio da Perrier foi produzido, e logo proibido, em 1976. É um clássico da publicidade que mostra que o fenómeno tem os seus pergaminhos. Os restantes, “Toy Boy” (1999) e “Contrexperience” (2011) , ilustram o nível de refinamento, e de projecção, associado ao “sex appeal do inorgânico” (Mario Perniola). Nos três casos, a mulher toma a iniciativa.

Marca: Perrier. Título: Bouteille. Agência: Langelaan & Cerf. Direcção: Bernard Lemoine. França, 1976.

Marca: Hyundai. Título: Toy Boy. Agência: Leo Burnett. Direcção: Jitzmark/Ericstam. Suécia, 1999.

Marca: Contrex. Título: Contrexperience. Agência: Marcel Paris. França, Outubro 2011.