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O tempo e a amizade que restam

Bruxelas. Fevereiro 2001

Seis e seis… Mais jovem do que há seis anos. Pelo menos, parece que assim pareço. Que o diga Bérénice! Mas o que conta são as sobras e os restos. Sobretudo, o tempo que resta. Agradeço a todos a gentil lembrança. É “uma pequena ajuda amiga”!

Serge Reggiani – Le temps qui reste. Autour de Serge Regianni, 2002
Joe Cocker – With A Little Help From My Friends (cover). With A Little Help From My Friends, 1968.

Brisa de liberdade

Gosto de sentir abril em fevereiro. A liberdade respira-se. Se é difícil de conquistar, não é menos de preservar. Memórias tangíveis ajudam. Algumas canções reavivam-na. Retenho uma mão cheia. Entre estas, composta por Georges Moustaki para Serge Reggiani, Ma Liberté sobressai. Pelos vistos, a acreditar no poema, a liberdade só tem um rival à altura: o amor.

Serge Reggiani. Ma liberté. 1969

Ma liberté
Longtemps je t’ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C’est toi qui m’as aidé
A larguer les amarres
Pour aller n’importe où
Pour aller jusqu’au bout
Des chemins de fortune
Pour cueillir en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune
Ma liberté
Devant tes volontés
Mon âme était soumise
Ma liberté
Je t’avais tout donné
Ma dernière chemise
Et combien j’ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Tes moindres exigences
J’ai changé de pays
J’ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance
Ma liberté
Tu as su désarmer
Mes moindres habitudes
Ma liberté
Toi qui m’as fait aimer
Même la solitude
Toi qui m’as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m’as protégé
Quand j’allais me cacher
Pour soigner mes blessures
Ma liberté
Pourtant je t’ai quittée
Une nuit de décembre
J’ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière.

(Serge Reggiani. Ma Liberté)

O tempo que falta

Je l’aime tant, le temps qui reste… (Serge Reggiani, Le temps qui reste, 2002)

Je n’ ai pas peur de la route / Faudra voir, faut qu’on y goûte (Noir Désir, Le vent nous portera, des Visages, des Figures, 2001)

Quarenta alunos da Academia Sénior de Braga deslocaram-se a Melgaço a semana passada. Visitaram o Espaço Memória e Fronteira, o Solar do Alvarinho, as Termas, a Torre de Menagem e o Museu do Cinema. Tive o prazer de fazer de guia. Foi um bom momento. Como se diz, um momento bem passado. Sobra ainda o tempo que falta. Para viver, naturalmente!

Serge Reggiani. Le temps qui reste. Autour de Serge Reggiani, 2002
Mea Culpa Jazz. Le vent nous portera (cover de Noir Désir). 2017

A última vontade

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Gosto de ouvir música enquanto leio ou escrevo. Propicia uma atmosfera balsâmica. Distraio-me a compor ramalhetes musicais para consumo futuro. Hoje é a vez de Serge Reggiani. No meu panteão da “canção” francesa, está ao lado do Jacques Brel ou do Léo Ferré. Cantam, antes de mais, poemas, poemas sobre a humanidade. Poemas para a humanidade. Poemas que dão a um homem vontade de o ser.

Para a “lista” do Serge Reggiani, retive três canções já publicadas, isoladamente, no Tendências do Imaginário: Sarah; Le temps qui reste; e Ma liberté. Acrescento: Ma dernière volonté; Ma solitude; e Il suffirait de presque rien.

A maioria das pessoas não aprecia este tipo de música, ademais em francês. Mas quem gosta gosta mesmo. Tem direito ao prazer! No que me respeita, a canção Ma dernière volonté é um caso sério: quase me rouba a identidade antes de ela existir.

1. Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

2. Serge Reggiani. Ma Solitude. Album nº 2. Letra e música de Georges Moustaki.

3. Serge Reggiani. Ma liberté. Album nº 2. Composta por Georges Moustaki. 1967.

4. Serge Reggiani. Il suffirait de presque rien. Et Plus. 1968.

5. Serge Reggiani Ma derniere volonte. Venise n’est pas en Italie. 1977.

6. Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

 

Por um nome

Reggiani

Serge Reggiani

Acaba de sair o anúncio “El nacimiento de un nombre”, da revista Hahora Mamá. É longo, lento e fala ao coração. Confrontada com costume de atribuir o nome das bisavós às bebés, a bisavó Haydée muda o nome para Matilda, o nome por todos desejado. Pela duração, pela lentidão e pelo enredo, “El nacimiento de un nombre” lembra alguns anúncios orientais. Certo é que a imaginação dos publicitários não tem limites.

A canção francesa tem particular apetência pelo tema da velhice e do envelhecimento. Retenho a Sarah de Serge Reggiani (Album nº2, 1967).

Marca : Ahora Mama. Título : El nacimiento de un nombre. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direcção: Los Clan. Argentina, Abril 2’017.

Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

O tempo que resta

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Quanto tempo resta? Uma pergunta que ressoa nas cabeças. Somos uma sociedade de aprazados. Contamos os anos e os dias. Há institutos que dissecam os minutos. Atendendo às estatísticas, restam-me, em média, 10 anos de vida. Tenho viagem marcada para os 67 anos (esperança média de vida, 77,4 anos, menos 10 anos de redução por causa do tabaco). Um ano de reforma! Para 48 anos de trabalho. Mas não passam de médias! Só um incauto se identifica com médias. Seria, segundo os entendidos, uma especificação abusiva.

Le temps qui reste é uma canção de Serge Reggiani (1922-2004), do álbum Long Box Serge Reggiani, editado em 2004, ano de sua morte. A letra, da autoria de Jean-Loup Dabadie, merece especial atenção.

A título de curiosidade, Braga tem uma rua Serge Reggiani, em Fraião.

Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

LE TEMPS QUI RESTE

Combien de temps…
Combien de temps encore
Des années, des jours, des heures, combien ?
Quand j’y pense, mon coeur bat si fort…
Mon pays c’est la vie.
Combien de temps…
Combien ?

Je l’aime tant, le temps qui reste…
Je veux rire, courir, pleurer, parler,
Et voir, et croire
Et boire, danser,
Crier, manger, nager, bondir, désobéir
J’ai pas fini, j’ai pas fini
Voler, chanter, parti, repartir
Souffrir, aimer
Je l’aime tant le temps qui reste

Je ne sais plus où je suis né, ni quand
Je sais qu’il n’y a pas longtemps…
Et que mon pays c’est la vie
Je sais aussi que mon père disait :
Le temps c’est comme ton pain…
Gardes-en pour demain…

J’ai encore du pain
Encore du temps, mais combien ?
Je veux jouer encore…
Je veux rire des montagnes de rires,
Je veux pleurer des torrents de larmes,
Je veux boire des bateaux entiers de vin
De Bordeaux et d’Italie
Et danser, crier, voler, nager dans tous les océans
J’ai pas fini, j’ai pas fini
Je veux chanter
Je veux parler jusqu’à la fin de ma voix…
Je l’aime tant le temps qui reste…

Combien de temps…
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je veux des histoires, des voyages…
J’ai tant de gens à voir, tant d’images..
Des enfants, des femmes, des grands hommes,
Des petits hommes, des marrants, des tristes,
Des très intelligents et des cons,
C’est drôle, les cons ça repose,
C’est comme le feuillage au milieu des roses…

Combien de temps…
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je m’en fous mon amour…
Quand l’orchestre s’arrêtera, je danserai encore…
Quand les avions ne voleront plus, je volerai tout seul…
Quand le temps s’arrêtera..
Je t’aimerai encore
Je ne sais pas où, je ne sais pas comment…
Mais je t’aimerai encore…
D’accord ?

Jean-Loup Dabadie

O elogio do abraço

Wind. papà

“Os laços sociais requerem tempo, proximidade, intercorporalidade e materialidade” (O corpo e a imagem). Eis um truísmo. Toda a gente sabe! Mas não é raro ignorar-se o que se sabe. Especialmente, os grandes teóricos.

A Wind, empresa italiana de telecomunicações, ilustra, numa curta-metragem, a importância da interacção face a face, do estar perto: o filho “regressa para comunicar de verdade” com o pai. “Sometimes to really communicate, technology isn’t everything”.

Marca: Wind. Título: Papà. Agência: Ogilvy & Mather, Italy. Direção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2014.

Aproveito esta breve passagem por Itália, para recordar Serge Reggiani, um grande actor e, sobretudo, um grande intérprete da “canção francesa”.

Serge Reggiani. Ma liberté.

A liberdade é poder escolher as amarras

Quando o cansaço mental apanha o corpo, o melhor é dormir ou ouvir música. Mas há músicas que não deixam descansar. Não param de dançar com a memória. É o caso de “Ma liberté”, cantada quer por George Moustaki, quer por Serge Reggiani. A liberdade é poder escolher as amarras. Por isso, lhe somos tão infiéis.