Pirilampo
A história do homem-máquina baralha-me os fusíveis. Nos anúncios indianos da Happydent, os dentes funcionam com lâmpadas (Dentes brilhantes). Neste anúncio, de 2007, da Greenpeace, os cús são candeeiros, à semelhança do pirilampo, também conhecido por caga-lume ou luzecu. É o advento do Homo Luzecus. Gosto do anúncio. Está no topo da escala do grotesco.
No meio de tanto nu, custa compreender a mensagem. Para poupar energia, acenda o rabo? Quando dispensar a luz, instale uma ventoinha eólica para aproveitar os “ventos de baixo”? Não, não é essa a mensagem. A mensagem é clara e contundente: use lâmpadas económicas com eficiência energética, como aquelas que tornam as cidades mais inteligentes. Enfim, uma Greenpeace pró-activa. Depois de tanta luz, deixemos os The Doors acender o fogo, numa interpretação ao vivo de Light My Fire (1968).
Anunciante: Greenpeace. Título: Sunshine. Agência: Escape Partners. Direcção: Sven Harding. UK, 2007.
The Doors. Light My Fire. Live in Europe 1968.
Desrazão
Le sida parle! Como Deus aos argentinos (Bendita bola). A sida, a epidemia mais mediática de sempre, é universal e imprevisível. Toca a todos, sem avisar. Como o beijo da morte. Depois de tanto alarido, o silêncio. Mas a magia tem limites. Não é porque a ignoramos que a sida desaparece. Je suis là! Nous sommes là, se calhar, menos prevenidos do que há alguns anos atrás. Um anúncio oportuno, que inspira a seguinte pergunta: quais são os critérios e os enredos da publicidade de sensibilização? O que justifica o apagão em torno dos riscos da sida? O que justifica, em contrapartida, que num único maço de cigarros se repitam dois anúncios de morte: de um lado, “Fumar mata” e, do outro, “Os fumadores morrem prematuramente”? Uns andam sobreavisados, os outros andam como andam. “ Morra Marta, morra farta”! Desrazoável. Estas linhas trazem-me à memória o cantor Klaus Nomi (1944-1983), uma das primeiras vítimas da sida. Seguem duas interpretações ao vivo. A primeira, Total Eclipse, foi retomada por vários grupos e cantores; a segunda, The Cold Song, a partir de King Arthur, de Purcell, é uma obra-prima, comovedora, tanto mais que nesta interpretação, em Dezembro de 1982, em Munique, Klaus Nomi já se sabia infectado pelo vírus da sida. Faleceu poucos meses depois, em Agosto de 1983. Sinto a falta de pessoas como o Klaus Nomi. Aparadores de relva há muitos.
Anunciante: AIDES. Título: Je suis là. Agência: WNP. França, Junho 2015.
Klaus Nomi. Total Eclipse. 1981.
Klaus Nomi. The Cold Song. Munique. 1982.
A importância do olhar
Duvido dos testes e das experiências que aparecem nos anúncios publicitários. Mas quero acreditar neste anúncio da Noemi Association. O desgosto e a conveniência aprendem-se com o tempo graças a um trabalho social contínuo e sistemático. Norbert Elias mostra-o a propósito do processo civilizacional. O que é natural para a criança pode não o ser para o adulto.
Anunciante: Association Noémie. Título: Les Yeux d’un Enfant. Agência: Leo Burnett. França, Dezembro 2014.
Lavagem a seco
Neste anúncio da Conservação da Natureza do Brasil, uma bela jovem lava um carro, imagem gasta do rosário das mulheres objecto. Sendo a causa louvável, será justo continuar a falar em mulher objecto? Por que não actriz principal ou actriz secundária? Este anúncio é um simulacro. A mulher está a fazer de pin up. Será que a representação é “mais real do que o real”? Será que estamos perante uma falsa pin up mais pin up do que uma pin up verdadeira? O mundo anda tão confuso!
Anunciante: The Nature Conservancy Brasil. Título: Não chove, não lavo. Agência: Africa. Direção: Alaska. Brasil, Outubro 2014.
Esclerose múltipla
Para além da razão, no limiar da hiper realidade, o sufoco no cubo da imaginação. Parece real? Mais que isso: este é o nosso realismo. Sentimos o real na pele a partir de uma catástrofe de sentidos. Neste anúncio da Multiple Sclerosis Society, sentimos o outro, aquele que não está no meio de nós, debaixo da pele. Carregar em HD.
Anunciante: Multiple Sclerosis Society. Título: Trapped. Agência: The Brand Agency. Direção: Perry Westwood. Austrália, Outubro 2014.
Para além da virilidade
A virilidade guerreira tem picos. Por exemplo, o mundial de futebol. Estranhei, não obstante, o início deste anúncio: um regresso à caserna, a matriz da virilidade guerreira? Mas não! O anúncio termina com uma reviravolta genial. A virilidade manifesta-se, inesperadamente, vulnerável. Paradoxalmente, a virilidade limita o homem. Os militares, embora corajosos, receiam o exame de despistagem do cancro da próstata. “The fear of a prostate exam is more dangerous than cancer. Be brave! Get checked”. Um anúncio de consciencialização excelente!
Anunciante: National Institute of Neoplastic Diseases. Título: The Visit. Agência: DDB. Direcção: Jorge Caterbona, Dante Effio, Eduardo Gutierrez. Peru, Julho 2014.
Sinais de trânsito, sinais de vida
A publicidade chinesa está sub-representada no Tendências do Imaginário. Um novo anúncio é bem-vindo. Este recorre a um procedimento que aprecio pouco: a encenação com vítimas, o que se traduz por uma encenação das vítimas. Parafraseando Lenine, é o pecado infantil da publicidade de consciencialização. Lembra os circos, as feiras e as galerias de monstros e aberrações em voga no século XIX (rever O Homem-Elefante de David Lynch). Neste caso, não me perturba a encenação. Para evidenciar a necessidade de respeitar a sinalização rodoviária, várias pessoas seguram sinais de trânsito ignorados no próprio local onde foram vítimas de acidente. A exposição da desgraça em carne e osso por irresponsabilidade alheia. Neste anúncio, existe criatividade, ajustamento e performance. Segue o anúncio mais o making of.
Anunciante: Buick of Shanghai General Motors. Título: Human Traffic Signs. Agência: Lowe China. China, Fevereiro 2014.
Making of: Buick. Human Traffic Sign. China, 2014.
Prolongamento
Este anúncio, de raro impacto, associa o som de um relato de futebol à imagem de uma mulher atemorizada. Os casos de violência doméstica aumentam quando a Inglaterra joga num Campeonato do Mundo. Sobretudo quando perde, mas também quando ganha. Vários estudos corroboram estas tendências.
Anunciante: National Centre for Domestic Violence. Título: England Match Final Minutes. Agência: Jwt London. UK, Junho 2014.
Police are issuing personal warnings to men and women with a record of domestic violence in the runup to England’s first World Cup game, acting on evidence that abuse against wives, girlfriends and partners spikes dramatically in the aftermath of matches – whether the team wins or loses.
The most detailed research into the links between the football World Cup and domestic abuse rates has revealed that in one force area in England and Wales, violent incidents increased by 38% when England lost – but also rose by 26% when they won.
The research, by Lancaster University criminologist Dr Stuart Kirby, a former police officer, monitored police reports of domestic violence during the last three World Cups in 2002, 2006 and 2010.
While domestic violence rose after each England game, incidents also increased in frequency at each new tournament, raising fears that the forthcoming competition in Brazil – where England’s first game is against Italy on Saturday 14 June – could see the highest ever World Cup-related rises in domestic violence across the UK.
Separate national research examining the 2010 World Cup echoed the Kirby findings – with domestic abuse reports up 27.7% when the England team won a game, and 31.5% when they lost.
(The Guardian, de 8 de Junho: http://www.theguardian.com/society/2014/jun/08/police-fear-rise-domestic-violence-world-cup).







