Vida de cão
O graffiti não tem vida fácil em São Paulo, mas aquilo que se expulsa pela porta entra pela ponte, desde que superiormente autorizado. Como neste anúncio da Prefeitura de São Paulo. Os sem-abrigo constituem um problema grave da cidade. Nos Centros Temporários de Atendimento, “os acolhidos podem tomar banho, ter acesso a refeições (café da manhã, almoço e jantar), receber o atendimento social e ser encaminhados para outras políticas públicas de acordo com a sua demanda. O espaço dispõe de banheiros e dormitórios específicos para pessoas com deficiência.” Alguns Centros recebem não apenas os sem-abrigo, mas também os respectivos animais. Por exemplo, “ o CTA Brigadeiro Galvão conta com lavandaria e um canil com sete baias, garantindo um atendimento qualificado também aos animais de estimação dos conviventes.” (http://www.capital.sp.gov.br/noticia/centro-temporario-de-acolhimento-cta-e-inaugurado-na-barra-funda). Carregar na imagem para ver o anúncio.
Autodegradação

Como sociólogo, aprecio a publicidade. Um anúncio pode revelar-se uma lição. Sociologia espontânea? Talvez criatividade com interesse. Há conferencistas que se alongam a não dizer nada. Retórica do mesmo. Há, em contrapartida, anúncios que avançam novidades rumo à alteridade.
O anúncio Invisible Women, da France5, está bem concebido e bem conseguido. É impactante e não se deixa adivinhar. Não vou ser spoiler. Acrescento apenas que merece figurar junto do clássico The Hobo: the Sociology of the Homeless Man (1923), de Nels Anderson, prefaciado por Robert E. Park. A autodesvalorização como estratégia de sobrevivência ou de convivência existe nos sem abrigo, mas também nos pedintes, nos emigrantes, nos soldados…
Marca: France5. Título: Invisible Women. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Wilfrid Brimo. França, Dezembro 2015.
Sem-abrigo. A arte da sobrevivência
Este anúncio do Mosteiro Franciscano de Düsseldorf deixa, à primeira vista, um travo turvo. É promovido por quem lida de perto com a pobreza e não apenas por quem a retrata. Adivinha-se, nos detalhes dos pequenos gestos, uma cumplicidade de todos os dias. As imagens logram o efeito desejado. E a música? Não é desengraçada, mas é excessiva. Embacia os óculos e enche moldura onde se encolhe a “arte da sobrevivência”. Duas forças podem corroer-se mutuamente. Afinal, quem é o artista? O sem-abrigo? A Tinseltown Music Productions? A Ogilvy & Mather? O mosteiro franciscano? O público? Será que, para além de ver com os olhos do coração, também temos que abanar a cabeça entre as orelhas?
Anunciante: Franciscan Monastery. Título: Surviving is an Art. Agência: Ogilvy & Mather. Direção: Florian Meimberg. Alemanha, Outubro 2013.
A Bela e o Sem-abrigo
Todo o fim-de-semana dedicado a fazer relatórios! Os relatórios não são bens transaccionáveis, pois não? Ninguém os compra. É uma pena! Estamos a ficar peritos. Enquanto o escriba folga e o relatório espera, aqui vai um anúncio argentino de 1995. A resolução da imagem não é a melhor, mas a obra não perde. Lembram-se dos contos da Bela e do Monstro e do Príncipe Sapo? Pois voltarão a lembrar-se com este beijo de uma jovem a um sem-abrigo. O sapo e o monstro saberiam beijar assim? Trata-se de um anúncio desconcertante, que nos causa estranheza e desconforto e com estranheza e desconforto nos deixa.
Anunciante: Fundación Vida. Título: Kiss. Agência: Agulla & Baccetti. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 1995


